Posts com Tag ‘Pablo Trapero’

La Quietud (2018 – ARG) 

Em seu novo filme, Pablo Trapero camufla o tema da ditadura militar argentina com uma história familiar da relação conturbada de três mulheres. Primeiramente a cumplicidade entre as irmãs, afastada do dia-a-dia por viverem em outro país, depois a relação de cada uma delas com a mãe, e com seus maridos ou antigos amores. A trama entrega lentamente a verdadeira relação entre cada um deles, além de detalhes do passado e um capítulo de filme de tribunal que oportunamente resgata, fortemente, o tema político.

Cumplicidade x rivalidade, o luto, está tudo misturado. Trapero eleva a temperatura sexual e as crises (algumas histéricas) para intensificar essa disputa familiar, dessa forma exagera onde sutilezas seriam necessárias, além de aproveitar pouco os homens, mero coadjuvantes. É um Trapero querendo ser mais sensível, flertando com a alma feminina, mas com resultados muito aquém.

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El Clan (2015 – ARG) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Prova de como uma história impressionante não resulta, facilmente, num grande filme. Baseado em fatos reais, Pablo Trapero resgata o clã dos Puccio. Foi um escândalo nos anos 80, a descoberta que a família era responsável por uma onda de sequestros na Argentina. Capitanedos pelo patriarca, Arquimedes (Guillermo Francella), mantinham o cativeiro na própria casa, em meio aos filhos adolescentes que assistiam tv ou faziam a lição de casa.

Trapero espalha ótima trilha sonora por toda a narrativa, cria uma ironia que esvazia seu próprio filme. É um caso raro de música boa, aproveitada de maneira tão equivocada. A ironia instaurada quase oferece um clima leve, quando há tanto drama carregado pelas diferenças e incômodos familiares, fora o drama dos sequestrados. Olhar o cinema vigoroso de Trapero, em início de carreira, e seus últimos trabalhos, chega a dar tristeza. Aproveita mal a passividade de alguns membros da família, perde a dimensão da importância do filho, Alejandro (Peter Lanzani) no cenário esportivo argentino (era jogador da seleção de rubgy). As cenas são bonitas isoladamente, mas perdem força ou contexto por escolhas tão equivocadas.

Entre os dias 27 de Setembro e 6 de Outubro, o Rio de Janeiro terá a oportunidade de assistir a muitos dos principais filmes do ano, em mais uma daquelas maratonas cinéfilas que enlouquecem os fãs da Sétima Arte.

Mesmo não podendo estar presente ao evento, separo abaixo alguns links de filmes que fazem parte da seleção do Festival e que já foram comentados por esse blog:

Another Year, de Mike Leigh ****

César Deve Morrer, de Paolo e Vittorio Taviani ***

Elefante Branco, de Pablo Trapero **1/2

Elena, de Andrei Zvyagintsev ***1/2

Hemingway & Gellhorn, de Philip Kaufman **

Hysteria, de Tanya Wexler **

Parada em Pleno Curso, de Andreas Dresen ***

Elefante Blanco (2012 – ARG)

O prédio, abandonado há décadas, se tornou o elefante branco invadido por sem-tetos. Ao seu redor nasceu uma favela, e como sabemos, onde há favela, normalmente há marginalização, tráfico, problemas sociais. Sob a ótica de dois padres e uma assistente social, o filme resgata não só o cotidiano dessa região de Buenos Aires, como a relação entre pessoas engajadas na melhoria da situação dos que ali vivem e as dificuldades do caminho.

É um Cidade de Deus sem a pegada pop e o virtuosismo estético, os padres (Ricardo Darín e Jérémie Renier) vivem dilemas pessoais e profissionais. A construção patrocinada pelo episcopado não vai, os funcionários nunca recebem salários. Alguns personagens coadjuvantes mostram bem a guerra do tráfico, como os jovens acabam no mundo marginal. Trapero aparece aqui e ali com alguns plano-sequencias belos, os padres cruzando a favela e conversando sobre a situação do local, a câmera os acompanha, num trabalho cirurgico.

Porém, o filme se apega demais a todos os seus temas, qual a importação de um padre europeu que se envolve de forma “carnal” com uma mulher? Nenhuma para o funcionamento da favela, ou, até mesmo, para o grande tema que seria essa relação entre Igreja e o social, os mecanismos e a vagarosidade da corrupção. O filme tenta provar que mergulhado naquele submundo, qualquer um cria sua própria ética, no final, todos estão em busca de cumprir suas metas, seja o governo, seja a Igreja, seja o traficante protegendo o seu negócio.

Nascido e Criado

Publicado: maio 20, 2012 em Uncategorized
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Nacido y Criado (2006 – ARG)

Pablo Trapero propõe uma brincadeira malvada, primeiro a felicidade de uma família de comercial de margarina. É óbvio que você deseja ser parte daquele casal, a harmonia, a filha doce, o convívio regado a amor e alegria. Depois o instante que leva à fatalidade, a imagem escurecida e um grito de desespero. Agora o filme se desenvolve no sul da Argentina, Santiago (o protagonista daquela família “perfeita”) foi viver isolado do mundo, suas razões estão parcialmente claras, as de Trapero nem tanto.

Fugir da realidade é uma maneira de enfrentar o que estamos deixando, partir, esquecer. Trapero trata desse tema de deslocamento, como fuga, partindo ao extremo. Nessa nova realidade não há qualquer contato com o passado, sua nova vida é o trabalho no pequeno aeroporto e as bebedeiras com seus novos amigos. Enquanto este homem guarda o passado num baú, Trapero desenvolve outra realidade, essa vida isolada dos grandes centros, onde neve e álcool são mais que a tônica, praticamente a única saída.

A câmera prima pela discrição, há a inversão entre coadjuvantes e protagonistas, Santiago apenas observa o drama de dois amigos. Um deles cuja esposa está à beira da morte, o outro cuja ex-mulher está grávida. O cineasta parece preocupado com as pequenas histórias, com um estilo mais narrativo e menos estilístico, mesmo que esse minimalismo (e até o título) esteja escondendo o verdadeiro tema-central, essa fuga impensada num momento de dor, desespero.

Abutres

Publicado: janeiro 11, 2011 em Uncategorized
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Carancho (2010 – ARG)

Depois de uma grávida num presídio, Pablo Trapero discorre sobre outro tipo de marginalização social, os abutres são advogados vivendo da indústria dos acidentes de carro e conseqüentes processos judiciais contra motoristas. Enquanto a história de máfia e submundo corrupto transcorre, o melhor do filme segue na relação amorosa surgindo entre uma médica (Martina Gusman) e um dos abutres (Ricardo Darín). Quando o foco está nos dois, Pablo Trapero apresenta sua melhor forma numa direção exemplar, e com sequências arrasadoras como o plano-sequência acompanhando a médica por entre os corredores do hospital. O filme peca em seu roteiro, clichês perseguem a cada nova cena a história de modo a deixar tudo tão obvio que a denuncia de Trapero quase se dilui, já os olhares representativos entre os dois atores demonstrando suas emoções (sejam elas positivas ou não), e as escolhas (nem sempre óbvias de Trapero) conduzem a um aspecto mais que interessante.