Posts com Tag ‘Palma de Ouro’

Adele Exarchopoulos Lea SeydouxLa Vie d’Adèle: Chapitre 1 & 2 (2013 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Talvez a sociedade em geral ainda não esteja pronta para tratar o amor, sem rótulos, como Abdellatif Kechiche insiste em apresentar em sua livre adaptação do HQ, Le Bleu Est une Couleur Chaude, escrito por Julie Maroh. O vencedor da Palma de Ouro em 2013, trata do amor da forma mais intensa e explosiva possível. Aquela coisa inexplicável que vai além do racional, que pode ocorrer à primeira vista, numa mera troca de olhares.

Fala-se tanto das longas e quentes cenas de sexo entre as apaixonadas Adèle (Adèle Exarchopoulos) e Emma (Léa Seydoux), quase que restringindo o filme  a considerar tais cenas chocantes ou calorosas. Mas, Kechiche já causava alvoroço em seu filme anterior, quando os homens estudavam as curvas da Vênus Negra, a tratando como um objeto de estudo pavoroso. Dessa vez, Kechiche substitui essa sensação hedionda pelo amor em momentos de entrega sublime.

azuleacormaisquente2O caso de amor lésbico suscita as descobertas de uma garota de quinze anos, que apenas começava suas experiências sexuais, como também as dificuldades de um relacionamento, as seguranças e imaturidades. É um filme completo, 3 horas que marcam começo, meio e fim, passando por dez anos na vida da protagonista Adèle. Diante de tantos planos fechados, Kechicke explora emoções que muitas vezes não podem ser transmitidas por palavras, seja pelo azul (que está nos cabelos, roupas, decorações), mas nos lábios, olhares, na pele que almeja tocar a outra.

É um filme que explora sua protagonista de maneira inquietante, entre as aulas no colégio e no contato com as amigas, passando pela fase adulta e trabalho, mas principalmente nos momentos à dois (na conversa no bar, no banco da praça). Entre o amor e as aflições, Kechiche filma a beleza da vida, do desejo às frustrações.

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E o juri presidido por Steven Spielberg conseguiu premiar os filmes mais elogiados pela imprensa este ano. Poucos levantarão injustiças, se é que alguém levantará. Sobrou até surpresa para o cinema mexicano que abriu o festival causando alvoroço com a violência do filme, mas depois ficou com críticas medianas. O que importa é que o único favorito, o mais eogiado, foi escolhido como melhor filme, e, desde já, promete ser um dos melhores filmes do ano.

Competição Principal – Premiados:

Palma de Ouro: Blue is the Warmest Color, de Abdellatif Kechiche

Grande Prêmio: Inside Llewyn Davis, de Joel and Ethan Coen

Prêmio do Juri: Like Father, Like Son, de Hirokazu Kore-Eda

Melhor Diretor: Amat Escalante, por Heli

Melhor Roteiro: A Touch of Sin, de Jia Zhang-ke

Melhor Atriz: Berenice Bejo, por The Past de Asghar Farhadi

Melhor Ator: Bruce Dern, por Nebraska de Alexander Payne

 Camera d’Or: Ilo Ilo, de Anthony Chen

amour_emmanuellerivaAmour (2012 – AUT/FRA)

Michael Haneke mostra o rigor de sempre, talvez mais conservador que seu normal, ainda mais meticuloso no tom de sua direção precisa e carregada. Por mais que uma história de amor, de um casal de terceira idade, toda narrada em tom de despedida, não pareça fazer parte do universo do diretor, o estilo de Haneke está impregnado em cada frame.

O casal inerpretado por Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva, principalmente ele, dá show. Ela sofre um derrame, ele resume sua vida a cuidar da esposa, preenche todos os espaços, sufoca até a filha do casal (Isabelle Huppert). O filme narra a beleza da dedicação ao outro, as poucas cenas resumem o dia-a-dia de pequenas tarefas, sempre com a ausência total de emoção que é tão cara a Haneke. Sai o sentimentalismo, entra a beleza dessa dedicação desgastante, que nos cativa mesmo pela frieza do cinema de Haneke, que se não parece inspirado, consegue dialogar melhor com um público bem maior que o seu habitual.

Barton Fink (1991 – EUA)

E os Irmãos Coen também resolveram dar seus pitacos no tema dos roteiristas com bloqueio criativo, só que bem à moda deles. Início de carreira e os maneirismos visuais já estavam presentes, e são extremamente marcantes, assim como o tom amargo, personagens marginais e estilosos, ou extremamente sarcásticos. Mas o destaque mesmo fica por conta da câmera, seu uso, os planos abrindo dando a dimensão de profundidade e simultaneamente de desespero do personagem que não consegue se encontrar. O autor de relativo sucesso no teatro (John Turturro), acaba parando em Hollywood, contratado por um estúdio, logo ele tão autoral, quase surta, tenta manter-se alheio à industria e ainda assim sente-se incapaz de tocar o projeto.

Ele acaba amigo de um vendedor de seguros (John Goodman), e seu mundo é aquele, as paredes com papel de parede verde musgo que teimam em descolar, o calor, a incapacidade, o estranho envolvimento com a secretária/amante do escritor que ele idolatra. Os Coen guardam um final surrealista, são os delírios, todos aqueles elementos praticamente fantasmagóricos culminam num desfecho exorbitante onde os meios se tornam muito mais interessantes que o fim.

 

Before Night Falls (2000 – EUA)

Biografia do poeta cubano Reynaldo Arenas (Javier Bardem) perseguido cruelmente pelo regime de Fidel Castro. Não podia ser diferente, o filme de Julian Schnabel é duro, Arenas lutou arduamente para não ser preso, para fugir de Cuba, para publicar suas obras, para viver sua opção sexual e só encontrou violência, preconceito, negação, repreensão, tanto no âmbito familiar como no regime do governo militar. Muita câmera na mão, grande preocupação num retrato mais documental, a vida de Arenas corta as décadas mais ativas do comunismo cubano, garotos na praia roubam suas coisas e ele ainda é acusado de tentativa de abuso sexual. Um país onde quem não está dentro da cartilha deve ser retirado de circulação e Arenas, definitivamente, não seguia nenhuma das cartilhas ditadas por Fidel. Nessa Cuba empolvorosa dos anos 50, 60, 70, a trajetória de Arenas é retrato marcante da vida cubana e das possibilidades limitadas dos intelectuais de se expressarem livremente, acima de tudo, e mesmo com sua estrutura clássica, é um filme sobre a luta pela liberdade de expressão.

Mia aiwniothta kai mia mera/Eternity and a Day (1998 – GRE)

Só a sinopse do filme de Theo Angelopoulos já oferece espaço para textos e mais textos, lindos, melodramáticos, e melancólicos. Um escritor num momento crucial da vida, sofrendo de uma doença terminal, resgatando através de uma carta o amor imensurável de sua falecida esposa, e assim por diante. No fundo, o que mais lhe dói, é a solidão, a distancia da filha que não entende o quão representativo algumas coisas são, valores que o dinheiro não compra. Nessa situação delicada, ele se depara com um pequeno garoto albanês refugiado na Grécia, uma boa ação motivada por um bom coração ou pela doçura do garoto. Pouco importa, por meio das recordações do escritor e de uma breve convivência com o imigrante, Angelopoulos traça não só um panorama dessa situação social deprimente, mas principalmente uma relação de ternura nos momentos em que eles brincam com a lenda do poeta grego que viveu na Itália muito tempo e ao retornar comprava palavras da população, para usá-las em seus poemas. Seu título óbvio é a completa tradução de seu ritmo vagaroso, que almeja, ao mesmo tempo, representar o hoje e a eternidade.

 

Underground (1995 – IUG)

Um triângulo amoroso, sempre ele, a causar intrigas entre dois amigos. Nos período efervescente da década de quarenta e a explosão da Segunda Guerra Mundial, Emir Kusturica narra sua fábula sobre uma micro-sociedade vivendo num abrigo subterrâneo durante e após a grande guerra. Blacky é ferido durante a guerra e levado por seu amigo Marko ao abrigo, ali abaixo da terra eles fabricavam armas e munições enquanto Marko e seu estilo político-diplomático faziam no crescer na vida política iugoslava. A guerra termina e Marko prefere esconder de todos a realidade, Kusturica brinca dentro de seu estilo surrealista e felliniano, com esse absurdo metafórico de um homem esconde de tantas pessoas o mundo, as verdades, enganando sobre bombardeios e etc. Duro é mergulhar na viagem proposta por Kusturica, acostumar-se com suas marcas registradas e grandes obsessões de uma cineasta-estadista de visão faraônica.

Antes da Chuva

Publicado: maio 10, 2011 em Uncategorized
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O Festival de Cannes começa amanha, aproveitando o momento nos próximos dias uma série de posts sobre alguns dos vencedores da Palma de Ouro

Before the Rain (1994 – MAC/FRA/ING)

De um lado muçulmanos albaneses, de outro macedônios ortodoxos, entre eles o ódio, a desconfiança, a violência tomando conta de um conflito sem limites. Milcho Manchevski conta três histórias circulares que unidas resumem, um pouco, dessa disputa desenfreada de povos que muitas vezes eram amigos, antes dessa guerra eclodir. Um monge esconde uma jovem albanesa procurada e acusada, um fotógrafo de guerra volta de seu trabalho e reencontra sua amante que segue casada e dividida entre estes dois homens, e por fim o mesmo fotografo volta à sua vila natal onde encontram ideais aflorados numa guerra velada e prestes a explodir naquele antigamente pacato vilarejo. Ambas as histórias são ligadas pela tragédia e violência, mas formam essa estrutura circular que funciona perfeitamente para dimensionar os absurdos vividos, a situação caótica, o fim da paz e harmonia que foram trocados por essa ignorância brutal e cega. Manchevski usa dessa parábola trágica um artifício poderoso para escancarar esse conflito de dor pungente.

The Tragedy of Othello: The Moor of Venice (1952 – EUA/ITA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Um grande funeral, antes dos créditos iniciais, dá sinais da tragédia anunciada. Orson Welles dirige e interpreta esta adaptação da obra de William Shakespeare. O dramaturgo britânico discute a ingenuidade provocada pelo o amor, a insegurança desperta pela traição, a cegueira do cíumes, e a ânsia de poder.

Othello (Orson Welles) casa às escondidas com sua amada Desdêmona (Suzanne Cloutier), ele é general do exército de Veneza, mas por ser mouro é renegado pelo pai de sua esposa. Após a vitoriosa guerra no Chipre contra os Turcos, Othello entra num jogo articulado por Iago (Micheál MacLiammóir) – seu porta-bandeiras e preterido a um cargo de tenente – insinuando suposta infidelidade de sua esposa, com Cássio (Michael Laurence), outro oficial do exército.

Iago cria uma rede de acontecimentos para ludibriar Otelo, com provas irrefutáveis do suposto adultério que o ciúme deixa este homem cego e completamente vulnerável aos meandros proporcionados por Iago. A felicidade do casamento desmorona, contaminada pelas artimanhas de um exímio manipulador. O mais impressionante da trama é como o ciúmes corrosivo desestabiliza um general tão imponente.

Orson Welles se pintou de negro para interpretar Othello, Iago é o grande personagem dessa trama, responsável por todo o direcionamento da história, manipulando a todos em prol de suas metas. Welles filma de maneira bem tradicional, com enquadramentos privilegiando os close’s-up e narrativa direta caprichando nos cenários faraônicos, repletos de imensas salas e de uma trilha sonora contundente. Boa maneira de mascarar as dificuldades que consumiram três anos até a confecção do filme e são evidentes no resultado final.

Les Quatre Cents Coups (1959 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

De crítico da Cahiers du Cinema a um dos cineastas precursores daquele que talvez seja o maior movimento cinematográfico da história, a Nouvelle Vague, François Truffaut surgia definitivamente como diretor de cinema aqui, com um filme tão autobiográfico e que causou furor no Festival de Cannes. Nascia a saga de Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud), que nesse filme resumia a própria vida do jovem ator, assim como a do diretor. Duas vidas coincidentes se encontrando ao acaso do destino.

O filme caminha suntuosamente pela perda da inocência, a deliberada vontade de impor-se, a autoafirmação tão pertinente à juventude. Truffat caminha pelo labirinto da idade, parece conhecer seus atalhos, abstraindo a inconstância pueril, os acessos rebeldes e a maneira jovial e imatura de uma personalidade em processo de formação. Doinel vive em seus treze anos a vontade de descoberta, a certeza de já poder caminhar por suas próprias pernas.

Porém a liberdade desejada esbarra no autoritarismo do professor, seu seguido implacável, ou no desprezo da mãe e a fraca presença do padrasto. Como toda criança num casamento esfacelado, ele se torna um peso, foge de casa, prefere viver ao esmo nas ruas de Paris sob a guarida de seu fiel amigo René (Patrick Auffay).

De pequenos delitos ao reformatório, Doinel é a figura da força da libertação pelo próprio espírito libertário. Parece incorrigível, quando é apenas carente, perdido, marginalizado pela falta de estrutura a sua volta que o apoiasse. Na cena da entrevista ele se apresenta sem máscaras, a verdade de uma criança exposta de maneira crua, totalmente nua, Truffaut alcança o ápice de seu cinema logo em seu primeiro filme.

osincompreendidos2Jean-Pierre Léaud possui um desejo de revolta enrustido, um ar infante, mistura com sapiência essas explosivas e peculiares formas de se expressar alcançando com maestria a onipresença de um garoto dessa idade. Truffaut faz de seu filme de estreia um acontecimento atemporal, que nunca perde-se pelo tempo, sentimentos vivenciados por jovens de todas as partes, de todas as localidades. Problemas rotineiros que permeiam gerações, a falta ou não de tato dos familiares provoca a predisposição para as escolhas dos filhos. Truffaut enlaça seu roteiro com um humor leve, tolo, em imagens de profunda poesia, a chegada ao mar, a citada entrevista com a psicóloga, enveredamos por respostas para compreendermos parte das causas, nunca a solução.