Posts com Tag ‘Paolo Sorrentino’

youthYouth (2015 – ITA/FRA/SUI/RU) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Os últimos filmes de Paolo Sorrentino tem clara predileção pela terceira idade. O escritor de A Grande Beleza (que lhe rendeu o Oscar de Filme Estrangeiro), o roqueiro de Aqui é o Meu Lugar, até mesmo o político de Il Divo, estão todos passando pela crise da velhice. A diferença crucial entre estes filmes é a abordagem do cineasta italiano, que a cada vez flerta com o abstrato, o subjetivo. Isso, sem falar em quão pedantes eles se tornam.

Um hotel luxuoso abriga uma série de celebridades, em férias, que tentam se afastar dos holofotes da mídia. Atores e cineastas, músicos, jogadores de futebol, até a Miss Universo se hospeda ali. Os personagens que serão desenvolvidos orbitam a vida do regente Fred Ballinger (Michael Caine). Entre diálogos repletos de “experiências de vida” e imagens superlativas que provocam o contraste entre velhice e juventude, Sorrentino tenta estabelecer a melancolia da idade avançada, enquanto os jovens sofrem por outros tipos de mazelas e arrogâncias.

São tantas imagens plasticamente bonitas, tantas alucinações metafóricas, aliadas os discursos sobre passado ou bom-senso, é tanto que Sorrentino busca poetizar seus fotogramas, que a arrogância de discurso de seu cinema vai chegando a proporções em que ignorá-lo seja o melhor caminho. Parte do público poderá encontrar identificação, mas de modo geral Sorrentino coloca seus filmes num pedestal inalcançável como se assisti-los fosse uma experiência transcendental de clareza da vida.

rioeuteamoRio, Eu Te amo / Rio, I Love You (2014 – BRA) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

A versão para a Cidade Maravilhosa, da série Cities of Love, é um desserviço ao Rio de Janeiro e ao cinema nacional. Nenhum dos 10 curtas consegue, nem de forma ligeira, condensar qualquer traço do charme, beleza e encanto da cidade. Se o modelo de filme-coletivo sofre pela irregularidade, dessa vez, este se torna o menor dos problemas.

Primeiro que a cidade é colocada em segundo plano. Alguns dos curtas nem conseguem se identificar com a cidade, os demais praticamente tornam os cartões-postais em clichês hediondos. As visões são as mais simplistas possíveis, os roteiros almejam o natural, quando apenas encontram uma artificialidade de finais que desejavam representar grandes sacadas. Começa com Andrucha Waddington e a história do neto que encontra sua avó (Fernanda Montenegro) vivendo como mendiga, por opção.

Paolo Sorrentino vai ao limite dos clichês com a jovem ricaça (Emily Mortimer) e seu marido idoso, doente e podre de rico, que passam férias na cidade. Fernando Meirelles e Cesar Charlone não conseguem imprimir ritmo à história do escultor (Vincent Cassel) de areia que se apaixona por uma jovem, o curta não passa de uma ideia de trama.

Constrangedora é a história dirigida por Stephan Elliot, um astro do cinema (Ryan Kwanten) decide escalar o Pão de Açúcar, do nada, com a roupa do corpo, e carrega seu guia (Marcelo Serrado) nessa aventura pelo amor inesperado. Totalmente insosso, e que nada mostra além de dois takes do mar, é o curta dirigido por John Turturro, sobre um casal (ele e Vanessa Paradis) em tom de despedida. Guillermo Arriaga retoma parte do clima de Amores Brutos, troca a briga de cães por lutas clandestinas e desce fundo no poço das propostas indecentes (que só devem existir na cabeça de cineastas mesmo).

O morro do Vidigal é tomado por vampiros na visão de Im Sang-soo, com direito a samba, garçom estiloso e prostituta mulata. Carlos Saldanha até consegue um aspecto visual interessante na apresentação do casal de bailarinos (Rodrigo Santoro e Bruna Linzmeyer), mas o drama do casal e suas discussões durante a apresentação são de um melodrama que pouco acrescenta ao clima de amor à cidade. Wagner Moura é o instrutor de asa-delta frustrado que xinga o Cristo Redentor durante um voo, sabe-se lá as intenções de José Padilha, além de trazer seus temas críticos da cidade à tona.

Mesmo carregado de clichês, a simpatia da história criada por Nadine Labaki é a que mais se aproxima do que se esperava deste projeto. Um garoto de rua, gringos (ela e Harvey Keitel) encantados por seu jeito cativante, se passam por Jesus para realizar suas fantasias. E a cereja estragada do bolo são as transições, que ganharam vida própria, personagens próprios, e direção de Vicente Amorim. Primam pela artificialidade, e mais embaralham do que funcionam como conexão para os curtas. Além de intensificarem o padrão visual do filme que trafega entre um Globo Filmes e uma campanha publicitária de tv (aliás, marcas de patrocinadores quase se tornaram protagonistas das transições).

agrandebelezaLa Grande Bellezza (2013 – ITA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Na visão de Paolo Sorrentino, a cidade de Roma é um daqueles ecossistemas incompreensíveis, recheado das mais possíveis diversidades e bizarrices. Uma cidade de aristocracia falida e cafonice na moda, há décadas. É por esse habitat que sobrevive, à la bon-vivant, o escritor e jornalista Jep Gambardella (Toni Servillo). Entre festas da alta sociedade e uma lucidez ácida, Sorrentino faz de seu protagonista o provocador necessário para que ele próprio mostre como ama e odeia a cidade.

Com clara inspiração em Fellini, é daqueles filmes que o todo resulta meio deformado, enquanto alguns momentos isolados quase chegam ao brilhantismo (vide a cena em que Jep destrói a mulher que o adora provocar). Jep vive dessa sociedade decadente, como uma esponja se aproveita da futilidade, e alimenta sua zona de conforto de uma vida de excentricidades. Roma é o palco para essa pluralidade, o ferrugem que corrói cada esquina de um lugar que já viveu sua era de ouro, mas ainda sobrevive, aos trancos e barrancos, como toda a Itália.

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Michael Douglas chorando ao lembrar do câncer na garganta curado recentemente, Matt Damon dizendo que tem algo em comum com Sharon Stone e Demi Moore (ter beijado Douglas), fora Soderbergh voltando a falar em aposentadoria que promete a cada novo filme, coletiva de imprensa deve ter sido animada.

Outro filme com sua presença questionada na competição principal foi o de Valeria Bruna-Tedeschi, enquanto a ausencia de Claire Denis e Hany Abu-Assad, todo ano essa história, incompreensível em muitos casos.

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BEHIND THE CANDELABRA

behindthecameraSteven Soderbergh está em Cannes, com um filme produzido pela HBO, contando a vida do extravagante musico americano Liberace que escondeu sua luta contra a AIDS até o fim de seus dias. Michael Douglas encarna o pianista, enquanto Matt Damon assume o papel de namorado. Cenas de beijos e sexo entre os astros não vão faltar, Douglas cotado para o prêmio de melhor ator.

Críticas: Cine-VueTwitchUOL Cinema

Termômetro: morno

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LA GRANDE BELLEZZA

lagrandebellezzaChegou a vez de Paolo Sorrentino entrar na competição, muitos elogios (desconfio) para sua revisão do clássico A Doce Vida, de Fellini Novamente contando com Toni Servillo no personagem principal, dessa vez o cineasta italiano vislumbra a história da Itália, até sua decadência. Sabrina Ferilli surge como postulante ao prêmio de melhor atriz.

Críticas: Revista Continente – VarietyO Globo

Termômetro: morno

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UN CHATEAU EN ITALIE

un-chateau-en-italieO filme anterior de Valeria Bruni-Tedeschi foi Atrizes, e pelos comentários seu cinema segue a linha da “força nas interpretações”. No elenco Louis Garrel, Silvio Orlando, Filippo Timi e Xavier Beauvois. A própria diretora assume papel de uma atriz pertencente a uma familia de posses detentora de um castelo na Itália, cuja herança está sendo repartida, mas um dos familiares é contra o processo.

Críticas: Roger Ebert.com – El País – RTP-Cinemax

Termômetro: pé atrás

This Must Be the Place (2011 – ITA/FRA/IRL) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

E o início prometia um delicioso filme, sobre astros do rock enfrentando idades avançadas. Como aquelas figuras envelheceram e estariam lidando após anos de sucesso, extravagâncias químicas e abuso de álcool? Como envelheceram? Sean Penn constrói Cheyenne num visual gótico, um Robert Smith (vocalista do The Cure) cinquentão que fala e anda lentamente, pinta as unhas e se maquia, e mantém um casamento de 35 anos.

Paolo Sorrentino começa flertando com essa cultura do cinema indie americano, personagens cheios de esquisitices, alheios à sociedade, vivendo sua própria solidão ou incapacidade de relacionamento social (o garoto nerd é exemplo típico do quão desnecessária se torna essa afirmação de gênero).

A primeira parte se esforça em afirmar o quanto esse pequeno clube de personagens se coloca à margem do que se poderia chamar de “normal”. Eles causam estranheza por onde andam, chamam a atenção por mais que queiram passar despercebidos. Preferem utilizar a piscina como espaço para praticar um esporte inusitado, que não tenha água, são artimanhas utilizadas por Sorrentino para seguir afirmando essa condição de cinema indie.

Mais adiante o filme parte para um road movie pelos EUA, outros temas “mais importantes” como a relação pai-filho ou caça nazista aos judeus ganha enfoque (é Sorrentino querendo trazer o peso do político). A referência a Wim Wenders, em Estrela Solitária é automática. Mas aqui, o cineasta vai perdendo o controle da situação de uma forma em que expor é a única maneira encontrada de buscar contundência.

O filme já perdeu sua essência, a graça de Cheyenne ficou pelo caminho, essa busca por satisfazer as necessidades do pai (numa forma de consertar os anos de distancia entre eles) evoca a inconsistência. Resta Sorrentino testando seus maneirismos, abusando dos travellings e da necessidade de explorar os ambientes. Ou buscando o cult nessa brincadeira de mostrar o quanto a juventude olha apenas ao seu umbigo, como na sequencia (picotada) da canção que dá título ao filme.

ildivoIl Divo (2008 – ITA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Há biografias, histórias, ou situações marcantes que não podem passar despercebidas. E este era um daqueles filmes considerados “necessários”. Mais cedo ou mais tarde, alguém teria que contar a trajetória de Giulio Andreotti, personagem cuja carreira política, entre a relação com Aldo Moro, e os sete mandatos como primeiro-ministro, ocuparam mais de quarenta anos ativamente na vida pública da Itália.

A construção de personagem orquestrada por Toni Servillo é qualquer coisa de excepcional, fora-de-série. Andreotti sempre mostrou-se um sujeito singular, uma figura estranhíssima cujos trejeitos físicos destacam-se largamente. De estilo antagonicamente pacato e implacável, sua forma de fazer política (acordos, negociatas, “amizades”) o mantinham blindado de tantos escândalos de corrupção (olhando a política brasileira percebe-se que ele fez escola), envolvimento com a máfia e assim por diante.

Por outro lado, manter-se no poder tanto tempo e não sofrer acusações parece impraticável, não é? Pena que Paolo Sorrentino só se interesse pelos anos 90, pelo período de decadência de Il Divo, e numa chuva de fatos, nomes e escândalos (tão distantes de nossa realidade). O público seja afogado por esse mundaréu de informações pautadas num estilo classudo e aristocrático de cinema, disfarçado por algum maneirismo tecnológico. Trata-se de um filme burocrático, rebuscado de moderninho. Um filme que se atem a narrar fatos mantendo-se distante de uma dramaturgia. Um filme poderoso, de conteúdo histórico inegável. E nessa enxurrada de escândalos e fatos pequenos detalhes interessantes sobressaim-se, como a excelente seqüência da votação indireta para escolha do presidente, a briga entre os membros do congresso é algo espetacularmente italiano.