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Paulo Autran – O Senhor dos Palcos (2017) 

Recordo de ver Paulo Autran três vezes, e em todas elas reinou uma sensação de fascínio e hipnose. Duas delas foram em peças de teatro (Visitando Sr. Green e O Avarento), ambos no fim da sua carreira. A outra vez foi no cinema, sentamos na mesma fileira, no Espaço Unibanco, para ver Longe do Paraíso. Precisei de uns dez minutos para conseguir me concentrar no filme sem lembrar que ele estava ali, com olhos atentos e admirados à tela.

O documentário produzido pelo canal Curta! É um típico produto televisivo. Cheio de entrevistas e fotos da carreira do “senhor dos palcos” e alguma inserções de atores atuando textos pessoais dele. Tal qual um programa de tv que faça homenagem a um personagem. Nessa colagem, dirigida por Marco Abujamra, fica clara a importância do teatro em sua vida e a relevância de sua figura para o próprio teatro brasileiro. É bonito de ver alguém tão encantado por sua profissão.

Enfim, o filme se encaminha para o seu final, muito mais com seu conteúdo jornalístico do que como experimentação cinematográfica. Eis que surge Fernanda Montenegro em cena e lê uma carta que Paulo Autran escreveu a ela, já em seus últimos dias e o momento se torna arrebatador. Tristeza e melancolia capazes de expressar bem uma vida dedicada à profissão.

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Terra_em_transeTerra em Transe (1967) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Acreditar que Eldorado é uma metáfora para o nosso país é injustiça com nossos vizinhos latino-americanos. Por isso, alguns nomes de personagens, e empresas, estão em espanhol. Esse é um filme sobre a América, de modo geral, todos os países do continente podem se sentir “homenageados” nesse contexto político-poético, cuja ferina câmera de Glauber Rocha teima em dilacerar, como uma metralhadora incisiva, de críticas diretas, objetivas e subjetivas. Sem meias palavras, ou mecanismo carregados de pomposo eufemismo.

Os personagens desdobram-se em monólogos teatrais. Mesmo em diálogos, olham diretamente para a câmera como se discursassem suas verdades. O poeta Paulo Martins (Jardel Filho), dentro de sua ilusória capacidade de fazer política, agoniza enquanto relembra sua trajetória na política, que está intimamente ligada a alguns figurões do governo. De um lado o senador Porfírio Diaz (Paulo Autran), melindroso político, usa Deus como arma para angariar votos, quando apenas idolatra seus escusos objetivos, normalmente ligados aos de uma poderosa empresa.

De outro lado Filipe Vieira (José Lewgoy), o governador populista, que prometeu mundos e fundos, ao povo, e depois os despreza como nos desfazemos das migalhas. Os líderes populares e suas retrógradas ideologias, teóricas e démodé. Há ainda a figura do multi-empresário Julio Fuentes (Paulo Gracindo), o próprio retrato da burguesia, dono de quase toda Eldorado, e incansável por mais dividendos. Conchavos são expedientes necessários quando se sente acuado.

É a luta do rico contra o mais rico. O poeta quer aliar suas palavras com a política, mas naufraga porque elas caminham em direções opostas. Assim como o povo que agoniza em suas pobres terras, e que sofre barbáries constantes. É desse transe que fala Glauber Rocha, seu filme pulsa urgente, línguas afiadas declamam textos ricos, sob tantos aspectos, que o mais difícil seria descrevê-los. É um cinema verborrágico como nunca se viu, delirantemente perturbador em sua essência, tal qual a realidade que aborda. Entusiasmado, em sua paixão, pela relação público/filme, e em tudo o que ela pode despertar. Glauber não via o futuro, apenas compreendia por demais o presente, pena que nada mudou nesse tempo todo, com ou sem ditadura.

 

Visitando o Sr. Green

Vale mencionar que ontem fui ao teatro para conferir Paulo Autran e Cássio Scapin nessa peça que há tempos gostaria de ver. Como é gostoso divertir-se com dois atores talentosos e um texto bem escrito, simples por sinal, mas que guarda além do humor alguma preocupação de plantar uma sementinha na cabeça das pessoas contra o preconceito (de todas as espécies).

Só para instigar a história trata de um executivo que quase atropela um velhinho judeu ranzinza e é condenado a prestar serviços sociais visitando o velhinho durante seis meses. A aversão da situação torna-se amizade, com divertidas risadas enquanto as diferenças são afloradas.