Posts com Tag ‘Pedro Costa’

Vitalina Varela

Publicado: dezembro 27, 2021 em Cinema
Tags:

Vitalina Varela (2019 – POR)

O novo filme de Pedro Costa é de cortar o coração de tanta tristeza. Imigrantes de Cabo Verde vivendo como fantasmas em Portugal, seria uma boa forma de resumir o grupo de personagens. No centro deles está Vitalina, que acaba de chegar para encontrar seu marido doente, mas chega tarde demais, ele faleceu. “A casa dele não é tua casa, volta para tua terra” avisa-lhe alguém. Os dias a seguir são de Vitalina, numa tristeza que nem lhe oferece lágrimas, vivendo seu luto e testemunhando as condições dos que eram vizinhos de seu marido. É um filme tão duro que não estabelece uma linha com melodrama, várias cenas são quase quadros de luto, onde o preto e a escuridão prevalecem e a desesperança estampada nos rostos dos ainda viventes.

Ossos

Publicado: setembro 19, 2015 em Cinema, Festivais no Radar
Tags:, ,

ossosOssos (1997 – POR) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Primeiro filme da chamada Trilogia de Fontainhas, Pedro Costa e sua mistura de ficção e documentário, expõe de forma seca drama de fragelos humanos. Nada mais brutal ao público do que um bebê escapando de várias mortes. Da mãe desesperada que tenta o suício abrindo o gás do fogão, ao pai tentado a vender o bebê como única esperança aos dois. São apenas exemplos das relações humanas excludentes e completamente desesperançadas daqueles sobreviventes da rotina do subúrbio de Lisboa.

As peripécias da criança são mero argumento, a força da proposta de Costa está no pai, no apego pela coerência da sobrevivência alheia, enquanto enfrenta o terror da fome, da marginalidade humana, da total descrença de qualquer perspectiva. É nessa desesperança que Costa desenvolve sua fotografia suja, a utilização massiva da luz natural (e sua ausência), e a forma crua com que expõe aquele pai e o grupo de personagens que vivem próximos a ele. A sombra do suicídio como única saída ao suplício humano, Ossos é duro, como se aquele fragelos humanos tivessem perdido suas almas, restando-lhes apenas os ossos como única fortaleza.

cavalodinheiroCavalo Dinheiro (2014 – POR) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

As fotos em preto e branco, que abrem o filme, antes da aparição de Ventura e o restante do elenco de não-atores cabo-verdianos, trazem qual tipo de conexão? Imigração e suas mazelas? Não consigo encontrar outra resposta, afinal, a imigração é tema que ecoa no cinema de Pedro Costa. O bairro de Fontainhas (em Lisboa), que não existe mais, era o local de concentração dos imigrantes de Cabo Verde. Restam sobreviventes do bairro.

Delírios, esse filme-ensaio é formado por delírios do pedreiro aposentado (Ventura) que já confunde sua idade (chega a dizer ter 19 anos e alguns meses), mistura comentários de pessoas vivas e mortas, perdeu-se no tempo. Sombras rigorosas diminuem ainda mais o campo de visão (exibido em 4:3 que já encolhe a tela bastante), e esse negro forte traz brilho e profundidade intensos. Olhares dispersos e falas desconexas, o sofrimento nas rugas, nos olhares. Costa é profundo e surreal. O filme é de pequenos fragmentos desses delírios. Pessoas doentes, internadas num manicômio, que se lembram da chegada a Portugal, de seus casamentos, de amores, com pesar e ternura. Ventura preso e perdido na floresta de sua mente, recordações de seus cavalos (entre eles o que se chama Dinheiro).

Costa ainda retorna ao terror do elevador em que Ventura e um soldado ficaram “presos” em seu segmento do filme Centro Histórico. A situação se repete, o claustrofóbico também, as falas sobre a ditadura são substituídas por outros delírios de Ventura. Costa faz de Cavalo Dinheiro uma experiência, abandonamos os roteiros e partimos para um cinema de imersão entre memórias e angústias, entre a pureza e a decadência (física, mental, social).

centrohistoricoCentro Histórico (2012 – POR) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Outro filme-coletivo em homenagem a cidade de Guimarães e as comemorações como a Capital da Cultura Européia em 2012. Nostalgia é a palavra de ordem em O Tasqueiro, onde Aki Kaurismäki fala sobre uma tasca (espécie de restaurante local) que anda às moscas, longe da modernidade. Já Pedro Costa retorna com seu personagem-fetiche (Ventura), trazendo um horror claustrofóbico e política em Sweet Exorcist. Ventura em momento de loucura, num diálogo com uma estátua, dentro deum elevador do manicômio, falando sobre os horrores da ditadura de 1974.

O tom de Victor Erice é documental, depoimentos sobre uma fábrica que durou mais de um século, e acabou fechada em 2002. Inúmeros personagens rememorando seus tempos de trabalho, o dia-a-dia, o refeitório, as amizades. Enquanto Manoel de Oliveira faz uma ácida e leve crítica ao turismo descabido. As pessoas que viajam o mundo, tiram fotos desesperadamente, e perdem os significados, os momentos, a real importância do que está sendo fotografado. Guimarães foi a cidade do primeiro rei de Portugal, e diante de sua estátua que Oliveira tece sua doce acidez.

O Quarto da Vanda

Publicado: setembro 9, 2010 em Uncategorized
Tags:,

noquartodavandaO Quarto da Vanda (2000 – POR) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Se você mensurar, as três horas de duração, ao roteiro praticamente inexistente de tão curto, parece milagre o que um realizador como Pedro Costa consegue obter com quase nada. Num pequeno cortiço, num bairro pobre de Portugal, vive Vanda e sua família. Aquelas paredes sem reboco, aquele aspecto cinza sujo, os móveis precários, a mistura de cores sem qualquer padrão de escolha, o fétido está por toda a parte. E Pedro Costa filma com câmera fixa, longos diálogos, e eles praticamente se repetem tal qual a rotina da nossa vida. Vanda se droga no quarto com uma amiga, ou vende alface e couve na vizinhança, aquela vida miserável.

Enquanto isso um vizinho tenta arrumar a casa, muda os móveis do lugar, parece recém-chegado. Está chegando porquê: A cada dia que passa tratores e marretas derrubam outra casa no cortiço, vem por aí alguma obra e os moradores aguardam até o último minuto para deixar suas habitações precárias, sem dúvidas não tem para onde ir, aquele ambiente fétido, asqueroso, é o teto que os abriga e Pedro Costa retira dos diálogos a natureza da pobreza daquela gente, pessoas sem esperança, vivendo das migalhas, num retrato cru de uma foto que viramos os olhos para não enxergar. O filme cansa, nos deixa exausto, pelo tema doído e pelas opções do cineasta em prolongar e repetir, em nos levar sem firulas aos aposentos onde o desgosto e a desesperança reinam absolutos.