Posts com Tag ‘Pen-Ek Ratanaruang’

Samui Song

Publicado: agosto 18, 2018 em Cinema
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Mai Mee Samrab Ter / Samui Song (2017 – TAI) 

O cinema de Pen-Ek Ratanaruang já fez bem mais interessante do que sua mais recente safra de filmes, os destaques Last Life in the Universe, Onda Invisíveis e Ploy lhe deram prestigiam como outro expoente do cinema tailandês. Aqui ele até flerta com o noir no início, em branco e preto um acidente de carro, que o filme revisitará outrasa vezes (só que com cores). Um dos envolvidos é a famosa atriz de novelas locais (Laila Boonyasak) que no hospital acaba conhecendo o misterioso Guy (David Asavanond). É o típico suspense com supresas e revelações, alguma carga de erotismo e doses de religiosidade através do marido, um milionário europeu, que agora vive obcecado por um líder espiritual local. Sobram elementos e falta atmosfera, o filme de Ratanaruang fica pelo caminho das intenções.


Festival: Veneza 2017

Mostra: Venice Days

Nymph

Publicado: outubro 9, 2012 em Cinema
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Nang Mai (2009 – TAI/HOL) 

A câmera trafega pela floresta, baila por entre galhos e folhas sem que haja foco em algo específico. Dessa forma testemunha uma mulher sendo violentada por dois homens, mas a imagem logo segue adentrando a vegetação e os sons daquele local bucólico e misterioso. Talvez ninguém filme corpos deitados com tanto significado como Pen-Ek Ratanaruang o faz. Seus filmes estão cercados por cenas assim, sempre com pesos diferentes em cada história (por exemplo, a esposa infiel pede ao marido para abraçá-la, pouco antes ela está deitada enquanto recebe carinhos do amante).

Mas é só após o desfecho (promissor e envolvente) da sequencia na floresta, com os dois corpos masculinos boiando num rio, que Pen-Ek volta-se ao perímetro urbano, o primeiro dos dois triângulos amorosos dessa história. Seu filme é todo de atmosfera, há o confronto natureza versus tecnologia, embora esteja longe de soar importante. Estamos diante de mais uma dessas crenças tailandesas envolvendo o sobrenatural na floresta (como no cinema de Apichatpong Weerasethkul), a existência de uma mulher-arvore-fantasma.

E aqui dá-se o segundo triangulo amoroso quando o fotógrafo e sua esposa executiva acampam por alguns dias e ele acaba desaparecendo. Pen-Ek mistura a fantasia folclórica com os problemas cotidianos contemporâneos (matrimonio, infidelidade, crise conjugal), e ao invés de buscar o poético (como se poderia esperar) ele segue a risca suas convicções de que um filme possa ser baseado unicamente no clima de mistério, no flerte com o terror, na atmosfera.

Last Life in the Universe (2003 – TAI) 

A imagem de um lagarto na parede, um livro infantil começando com “um dia o lagarto acordou e percebeu que estava sozinho nessa terra”, um bibliotecário japonês com mania de limpeza e pensamentos suicidas, e uma garota irritada com a prostituição de sua irmã.

Foi o filme que chamou a atenção do mundo ao trabalho do cineasta Pen-Ek Ratanaruang, um filme de posicionamento dúbio, de encontro com uma solução que não seja nem o “sim” e nem o “não”. Mas também de extravagancias e coincidências questionáveis (o clímax, com participação de Takashi Miike, é ingênuo).

Enquanto a tragédia aproxima Kenji (Tadanobu Asano) e Noi (Sinitta Boonyasak) em algo que não se pode identificar como amor ou amizade, a trama entrega parte das peças do quebra-cabeças que “explica” as razões desse bibliotecário ter se mudado a Bangcoc, sem falar a língua local.

Nessa estrutura enigmática e intimamente ligada ao livro infantil do lagarto Ratanaruang desenvolve esse jogo de dúvidas sem respostas claras, utilizando-se de seu estilo próprio de enquadramentos e planos longos, de elementos de fantasia inseridos a outros de doçura e violência. E ainda, ocasionalmente, revelando algumas cenas plasticamente belíssimas, com pitadas de afeto e desconsolo. Corpos deitados num sofá ou num banco de carro, gestos de carinho e o indecifrável teor romântico.

Ploy

Publicado: janeiro 25, 2011 em Cinema
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Ploy (2007 – TAI) 

Pen-Ek Ratanaruang (Ondas Invisíveis) apresenta-se como um explorador nato, o quarto de hotel onde o casal, Wit (Pornwut Sarasin) e sua esposa Daeng (Lalita Panyopas), passam a noite nesse retorno inesperado a Bangkok, devido a um funeral, é explorado minuciosamente, num processo gradativo. A câmera começa com alguns enquadramentos que se repetem, e a medida que a crise do casal invade noite a dentro, os enquadramentos tornam-se mais e mais intimistas, cuidadosos, lentamente teremos uma visão 360º desse ambiente pesado de um relacionamento saturado.

Só que explorar aquele casal e o quarto em si é pouco. Ratanaruang explora o grau de facilidade entre as relações. Um casal, vivendo sete anos de matrimônio, possui inúmeras dificuldades em expressar o desconforto, em colocar pingos nos “i”s, já com uma garota que se conheceu no bar há minutos é muito mais fácil de se abrir, expor seus sentimentos. Ploy (Apinya Sakukljaroensuk) será motivo de ciúmes, de briga do casal, levando a história a um ponto desagradável, diria desnecessário. O interessante é a intimidade absurda entre um adulto e uma garota desconhecida. Wit declara que relacionamentos têm prazo de validade, eles simplesmente expiram. E não tem razão? Uma visão sábia, mesmo de alguém que não esteja convivendo sete anos num relacionamento, mas de uma lucidez absurda percebendo que relacionamentos são assim, uns duram mais, outros menos, mas todos têm seu prazo de validade.

Engraçado como no fundo é um filme romântico em sua excelência, enquanto Wit e Daeng apresentam-se em cacos, uma camareira realiza fantasias sexuais com seu namorado barman, situações opostas, a forma como Tum (Porntip Papanai) transpira todo o desejo e prazer chega ao exasperante de tão real, não há diálogo algum, apenas dois corpos em momento de entrega absoluta, daí à cena final que resume tão bem tantos e tantos casamentos por aí, temos a verdadeira noção da visão precisa e racional do amor por Pen-Ek Ratanaruang, um filme de sensações e verdades ditas em poucas palavras ou veladas em sentimentos intrínsecos.

Ondas Invisíveis

Publicado: junho 22, 2009 em Cinema
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Invisible Waves (2006 – TAI/HOL/HK/COR) 

Assassinos no cinema são celebrados com glamour chamuscado e certo charme místico, deixam a tutela de vilões para um staff de assassino. Pen-Ek Ratanaruang vem com a desglamourização, renegando a posição de assassino ao rudimentar, algo totalmente fora da rota de vida fácil, do conforto. O cozinheiro Kyoji (Tadanobu Asano) assassinou sua amante (a mando do chefe que era casado com a vítima). O processo é lento, um jantar silencioso, banhado a sexo, até a vítima sentir os efeitos do envenenamento. Ratanaruang filma com exímia delicadeza e prazer, jamais foca o rosto da vítima, e a paciência do assassino é exemplar.

Eis a faísca, a verdadeira trama é a relação do cozinheiro (agora fugitivo sob patrocínio do mandante) com a morte (exceção à sinuca de bico que se meteu na posição de amante, ele apresenta-se como um sujeito de respeito, atencioso), e principalmente com seu chefe. A fuga num cruzeiro oferece apenas uma escotilha onde nada funciona (cama que não fica na horizontal, fechadura quebrada, chuveiro disparando duchos de água em momentos inoportunos), num tom de bege capaz de enjoar o mais experiente dos marinheiros (os enquadramentos me fizeram lembrar Liverpool do Lisando Alonso). Uma viagem para apagar da memória, e Ratanaruang batendo na tecla que só na ficção cinematográfica que a culpa e conforto andam unidos. Os planos de quem tem coragem de contratar para matar são torpes, pode-se confiar em alguém tão leviano?

O desenrolar não poderia ser mais humano e ingênuo, os desdobramentos na Tailândia que aproximaram novamente os dois envolvidos serão mera formalidade dentro da proposta elaborada e bem executada de Ratanaruang, o anti-suspense vem de encontro às perspectivas de Kyoji e à vingança que planeja ao sentir-se encurralado.