Posts com Tag ‘Penelope Cruz’

Todos Lo Saben (2018 – ESP)

Do glamour em ser o filme de abertura do Festival de Cannes ao esquecimento, inclusive no próprio festival, afinal, o iraniano Asghar Farhadi tão premiado e passou 2018 com seu filme nada lembrado. Agora que começou a ser lançado em alguns países, e é fácil notar esse ostracismo.

O estilo de diálogos e dramas familiares de Farhadi está lá,como sempre, mas falta sangue latino para esse enredo, e principalmente aos personagens. Na trama, um casamento marcando reencontros, uma tragédia “exasperante”, segredos do passado, e plot twists, que ajudariam a envolver o publico. Sem doses de melodrama, mas com personagens e diálogos apáticos, o filme trafega por surpresas telegrafadas e só se equilibra mesmo pelo dilema moral do personagem de Javier Bardem. O resto é tudo no piloto-automático, muito aquém da vividez que Farhadi já mostrou quando tratava de questões bem mais próximas a culturas que ele conhece bem.

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osamantespassageirosLos Amantes Pasajeros (2013 – ESP) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Muita gente torce o nariz, mas eu admiro Pedro Almodóvar e Woody Allen. Eles carregam essa carga de “cineastas-autores”, emplacaram seus filmes nas grandes redes exibidoras de cinema, onde imperam apenas os blockbusters. Respeito pelo status que alcançado. Mas quando chega um novo filme desse “peso-pesado”, e não consegue espaço em nenhum festival importante, vai parar no Festival de Los Angeles? É atestado de que o filme não deu certo. Acompanhar carreiras traz esse sabor de tentar entender, traçar um panorama, novos horizontes. No caso de Pedro Almodóvar, os sinais de desgaste de seu cinema são bem evidentes. Seus últimos filmes patinam entre momentos de brilhantismo, e repetições inferiores ao que ele já fez tão bem. A Pele que Hábito é o melhor caso, revisitando o bizarro e as mutações sexuais, porém o incremento financeiro não faz jus à maturidade, a nova visão sobre o que foi visto antes carrega pragmatismo.

Dessa vez ele resolveu voltar ainda mais longe na carreira, resgatar suas comédias de início de carreira. Elas eram escrachadas, exageradas, atrapalhadas até o limite. Foram o início de sua trajetória, cheias de imperfeições, mas divertidas. Sua nova aventura humorística traz o que Almodovar tinha de típico, sem que nunca consiga chegar a lugar algum. Um bando de gays afetados, o sexo transformado em vulgar, e os dramalhões exagerados, todos os tons passam dos limites que Almodovar já tinha esticado. O resultado final é constrangedor, a reunião de boa parte dos atores que formaram sua filmografia merecia um pouco mais de carinho, a despretensão disfarçada mostra o desgaste que Almodóvar não consegue se livrar. Apelando, e da forma mais triste possível.

To Rome, with Love (2012 – EUA/ITA/ESP)

Woody Allen peca pelo excesso de vontade. Já falei sobre isso, ele filma demais, tem ideias demais e dá tempo de menos para elaborar melhor cada uma delas, ou desistir das que fossem desnecesárias. Fora que essa fase “turística” pode cair no mundo dos videos institucionais em prol do turismo para os ricos de gosto médio.

Ele chega a Roma e parece ter lido o manual, escrito por um estrangeiro, dos costumes para se achar engraçado dos italianos. Em pequenas histórias que se passam em Roma, Allen brinca com a celebridade instantanea, com a dificuldade de se localizar pela cidade, com situações inusitadas (que só numa comédia desse tipo caberiam) como o casal que se desencontra e só entra em confusão. São ideias demais de possíveis piadas, para efetivaçao de menos em risos, e em requinte que ele encontrou tão bem em seu filme anterior (em Paris).

O próprio Woody Allen volta a interpretar, pega a piada pronta dos cantores de banheiro e leva a sério, e a repete tantas vezes que dá a sensação de que apenas ele poderiam estar se divertindo com aquilo. A beleza de Roma aparece, mas tão de lado, já que Allen está tão preocupado com suas piadas “nada geniais”.

abracospartidosLos Abrazos Rotos (2009 – ESP) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Mais um inegável filme de Pedro Almodóvar, sua assinatura estampada por cada uma das suas presentes obsessões (estéticas, estilo de trama, formato narrativo), sem demonstrar o brilho de outrora. Ainda assim, seja com brilho intenso, ou nem tanto, os filmes de Almodovar são sempre um deleite cinéfilo. A desenvoltura e capacidade de criar tramas tão complexas e bem resolvidas, sempre com pitadas de rocambolesco, sem que nada disso pareça pejorativo, isso é Almodóvar.

Desde a sequência inicial, quando o cego (Lluís Homar) pede, a uma loira maravilhosa que encontrou na rua, lhe acompanhar em casa, para ler o jornal (e terminam rapidamente numa transa no sofá), até nos momentos mais melodramático-românticos (exagerados por excelência) com a diva Penélope Cruz (ao qual Almodovar demonstra um dom inigualável em lhe deixar mais linda a cada plano, seja rindo ou chorando, usando peruca ou atuando no filme dentro do filme). Flashbacks e um filme dentro do filme. Relacionamentos calcados por ciúmes, abuso de poder, traição e culpa. Grandes revelações para o final, o jeito que Almodóvar gosta de lidar com seu público, o que temos é uma incrível capacidade do cineasta em absorver seu própria cinema e nos deliciar com o mais do mesmo de forma prazerosa.

 

 

Volver

Publicado: novembro 13, 2006 em Cinema
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volverVolver (2006 – ESP) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Este filme marca muitos retornos que remetem ao título: desde o próprio retorno que o filme trata, há ainda a volta de Pedro Almodóvar filmar na região por onde começou sua vida artística, além do resgate da parceria com algumas de suas atrizes). O mais indireto, porém mais significativo, talvez seja, a volta de Pedro Almodóvar a algumas características contidas em obras mais próximas do seu início. Volver transita com o melhor diálogo entre o início e a fase atual de sua carreira, provando que Almodóvar é o mesmo sujeito, apenas um humano e cineasta mais maduro. Um sublime observador da alma feminina, e a expressa com delicadeza, e humor, capazes de nos hipnotizar, a cada nova cor berrante em cena, a cada nova pequena reviravolta na trama, a cada doçura num olhar.

Estou aqui embasbacando por Penélope Cruz, não por sua beleza escultural e indiscutível, mas também pela naturalidade de sua atuação. É meio complicado de explicar, mas ela pareceu estar um degrau acima da beleza, como se estivesse tão a vontade, mas tão a vontade, que ser linda tornou-se um mero detalhe. Uma heroína e sua antítese, uma mulher comum com todas suas aflições,  dificuldades, medos, e ao mesmo tempo, praticidade, fibra, charme. Poderia gastar dezenas de adjetivos, ainda assim não seria possível expressar, porque Penélope Cruz está linda, linda demais para palavras.

Aí surge Carmem Maura, nesse momento você se esquece que está dentro de um cinema, porque a somatória dessas duas peso-pesados do cinema, nos remete a algo distante daquele espaço físico. Almodóvar praticamente encosta sua câmera nas atrizes, aquele mar de emoções fica enorme aos nossos olhos. Quantas vezes mãe e filha não têm inúmeras contas a acertar? Carmem Maura é quase uma entidade dentro do filme. Que dupla, que espetáculo!

Retornar é sempre complicado, porque o tempo abafa o passado de sentimentos e ressentimentos. O retorno os traz a tona, assim como a morte oferece um retorno imediato das lembranças. Em Volver, há o retorno dessa mãe (que morreu), a nova chance para um acerto de contas com resquícios que estavam hibernando. O voltar nos aproxima da verdade, e com ela a paz que faltava. E dentro disso tudo há a análise interior dessa alma feminina, tantas vezes remoída de frustrações e dores que, para os homens seria pesado demais carregar.

Lembre-se que Almodóvar está dialogando com elementos do início de carreira, então há o suspense, há muito humor (aquele marca-registrada). Há também visões berrantes (principalmente relacionadas a cores e roupas). Delicado, de fino trato com as imagens e com os enquadramentos (alguns fantásticos vistos por cima dos personagens). Almodóvar está por todos os cantos, e a trama e suas reviravoltas apenas servem para explodir com a panela-de-pressão de emoções contidas nessas fabulosas mulheres. E Penélope Cruz canta Carlos Gardel, e aquilo tudo me deixa em nocaute.

carnetremulaCarne Trémula (1997 – ESP) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Nova cara, nova fase de Pedro Almodóvar. O primeiro de seus filmes que prima pela sensibilidade, uma grande guinada em sua carreira. O roteiro continua arquitetado milimetricamente, repleto de ramificações, mas a comédia dá lugar ao drama, ou melhor, ao melodrama. Interessante como Almodóvar inverte mocinhos e vilões, desmascara  personagens, e ainda assim trabalha, sutilmente, temas tabus, como inserção de ex-detentos à sociedade, ou a vida ativa de deficientes físicos. A grande gama de temas apenas enriquece o que realmente o cineasta quer tratar, o amor em algumas de suas facetas.

A Madri da década de setenta é oportunidade para Almodóvar recordar ao mundo a época em que a Espanha vivia sob rígida ditadura, direitos de liberdade cerceados, medo, tensão. Tudo começa com a prostituta que dá a luz dentro do um ônibus, mas a história se desenrola vinte anos a seguir. Com Victor (Liberto Rabal), o filho, que se apaixona por uma desconhecida (Francesca Neri), com quem transou num banheiro. Corre atrás de sua amada, ultrapassa limites. A confusão acaba com presença de policiais, um tiro acidental. O resultado é de um preso, um deficiente físico (Javier Bardem), e outro com casamento em crise (José Sancho). Esses são os homens da trama. Adicione ainda a esposa infeliz (Angelina Molina), e os anos de pena cumprida, e coloque todos os personagens num cemitério.

A trama não poderia ser mais rocambolesca, adaptação do livro de Ruth Rendell. Almodóvar trata da obsessão compulsiva, o preso apaixonado é liberado e volta a correr atrás de seu obsessivo sentimento. Os destinos de 5 personagens se entrecruzam entre o rocambolesco e a delicada sensibilidade. A belíssima cena em que dois corpos nus, deitados lado a lado, encaixam-se perfeitamente, demonstrando a perfeição do corpo humano, e um alto grau de envolvimento físico, funciona com efeito plástico fabuloso. Mas há outros momentos dramáticos, que pela delicadeza, e importância, podem se tornar até mais belos. Exemplo disso é a cena seguinte, quando Elena (Francesca Neri) sente o cheiro do suor que está impregnado em seu corpo, após a longa noite de amor. Do martírio à redenção, dos exageros ao melodrama piegas, Almodóvar entrega uma saborosa novela latina de emoções fortes.

tudosobreminhamaeTodo Sobre Mi Madre (1999 – ESP) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Um desses momentos raros do cinema, a carreira de Pedro Almodóvar chega a plenitude. O casamento perfeito entre o bizarro, o feio, o kitsch, com o peso da sensibilidade. A dor, o desconsolo, a ressurreição. A dolorosa perda do filho adolescente, um road movie à procura do pai do garoto, numa busca desesperar em se reconciliar com a vida.

Almodoóvar vai buscar em Um Bonde Chamado Desejo parte da inspiração, é a peça encenada que funciona como a faísca que ascende a fogueira da vida dessa mãe (Cecilia Roth). Enfermeira que coordena o departamento de doação de órgãos num hospital em Madri, segue os passos do coração do filho, não consegue lidar com essa aflição, larga tudo e vai rumo à Barcelona.

Pelo caminho reencontros, sempre personagens bizarros (travestis, viciados), cada um deles partindo em novos rumos, carregados por suas angústias. Antes do reencontro com o pai, ela reencontra-se com a peça Um Bonde Chamado Desejo, a rendeção se dá numa nova guinada pela vida. Mulheres desestruturadas que se unem. O diretor Pedro Almodóvar cria uma teia de personagens, ligados a uma mulher com um passado conturbado, e uma perda pessoal irreparável. Vidas em momentos caóticos, e nesse turbilhão que a enfermeira encontra forças para ajudar e se reerguer.

Usando seu olhar ímpar sob os sentimentos humanos, o diretor nos mantém embabacados no desfecho das histórias pessoas que cada personage. Cecilia Roth emociona a cada cena em que fala da perda do filho, está nela enraizada a mística figura da mãe absoluta. A grande obra-prima do cineasta espanhol.