Posts com Tag ‘Philip Baker Hall’

oshowdetrumanThe Truman Show (1998 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Essa ideia de reality show, de estar sendo observado o tempo todo, já vem desde George Orwell. Antes de sua disseminação como a grande praga do século, o roteirista Andrew Niccol (que dirigiu S1mone, pode-se perceber seu fascínio pelo tema) e o diretor Peter Weir, trouxeram ao cinema essa história do homem vivendo tracando em um programa de tv. Enganado por todos, tendo sua vida fabricada e planejada por um diretor de tv (Ed Harris).

A questão é interessante, a necessidade de libertação humana frente a curiosidade. Não há na trama nada além de alguém vivendo seus dramas corriqueiros, com o detalhe de ser observado (sem saber) por cameras de tv, 24h/dia. Porém, no fundo, seus dramas são o desejo de se libertar, de viver o desconhecido, de se apaixonar. Nada que a vida, natural, não tenha como desafios a todos. Jim Carrey não consegue se desprender de suas caras e bocas, é uma pena, seus filmes dificilmente escapam do estigma de “mais um filme de Jim Carrey”.

jogadaderiscojpgHard Eight (1996 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

A câmera segue num plano-seqüência, o plano vai fechando na porta de uma lanchonete, onde focaliza John (John C. Reilly) sentando à porta, no chão, desolado. A imagem representava o olhar, ao caminhar, de Sydney (Philip Baker Hall). Eles trocam uma breve conversa, até sentarem-se numa mesa. Estão em Las Vegas, John perdeu o pouco dinheiro que tinha, sua idéia era conseguir a quantia necessária para o funeral da avó. Sydney promete ajudá-lo com um pequeno truque no cassino.

Surge uma grande amizade. A narrativa pula para dois anos adiante, John é praticamente um seguidor do amigo, porém Paul Thomas Anderson guarda o segredo que os uniu nessa amizade. E este segredo é revelado pelas relações dos dois com a garçonete/prostituta Clementine (Gwyneth Paltrow) e o leão-de-chácara Jimmy (Samuel L. Jackson). Anderson estreava na direção de forma surpreendente, com roteiro enxuto, algumas tomadas lindas, e as primeiras mostras de todo o virtuosismo que estaria presente em seus próximos filmes. Uma história de paternalismo forçado, por um passado obscuro, acontecendo num ambiente onde tudo fede a dinheiro e interesses escusos.

Dogville (2003 – DIN/ING/ALE)  

Visualmente é diferente de tudo o que você já viu. Estruturalmente é uma crítica veemente, e vigorosa, a uma sociedade podre, que usa seu poder para dar as cartas, e conquistar seus objetivos, enquanto esconde suas fragilidades. O dinamarquês Lars von Trier filma num tablado negro de teatro, com riscas brancas demarcando casas, representando arbustos e animais. Poucos objetos em cena e a total ausência de muros. A câmera tremendo com grandes closes e cortes secos e bruscos. Nada de amadorismo, a obra é tecnicamente perfeita, com uma fotografia deslumbrante, e o filme tem seus propósitos para ser como está apresentando.

Dogville é uma pequena cidade no interior dos EUA, quase uma aldeia, onde poucas famílias sobrevivem pacatamente em meados da década de trinta. A jovem Grace (Nicole Kidman) aparece misteriosamente na cidade fugindo de gangsteres e é acolhida por Tom (Paul Bettany), que consegue convencer os habitantes da cidade a protegê-la, desde que ela demonstre ser confiável no prazo de duas semanas.

No início é tratada com muito apreço pelos moradores, mas gradativamente seus favores não são mais suficientes e a jovem passa a ser abusada, estuprada e humilhada por cada um dos seus novos amigos. Sem muros podemos acompanhar na mesma cena um estupro acontecendo enquanto pessoas lavam louça ou varrem seu quintal, em suas casas. Os homens sedentos por saciar seus desejos sexuais, as mulheres invejosas espezinham Grace, o que eram pequenos favores torna-se uma relação de vassalagem.

A relação trabalhista, o espírito capitalista, a falsa ingenuidade, a democracia, a amizade de aparências, uma artificial vida harmônica, a inveja. Não caia no erro de olhar Dogville como uma história normal e tentar entender cada fato, julgando, condenando ou justificando cada ação, esse raciocínio simplista tira a razão de ser do filme. Todo o texto é composto de metáforas e ironias que dissecam de maneira direta a sociedade americana (não especificamente, mas com grande intensidade). Cada personagem representa uma parte dessa sociedade moralista, arrogante e gananciosa, que não pensa duas vezes em usar seu poder para impor regras e decisões, o centro do egoísmo.

A cena que marca a entrada de James Caan em cena é triunfal, Nicole Kidman mostra novamente seu talento, John Hurt é o narrador da história e tem o timming perfeito. Dividindo o filme em dez capítulos (sendo um deles o prólogo), Lars von Trier conta sua fábula sem diminuir a intensidade de suas críticas, o poder de chantagear, o egocentrismo e o alto grau de aceitação são armas fatais nas hábeis mãos do diretor. Dogville é corajoso, inquietante e em nenhum momento desvirtua-se de seus princípios, o nome Thomas Edison não está ali por acaso. Nunca mais escutarei Young Americans (David Bowie) sem lembrar-me daquelas fotos.

magnoliaMagnolia (1999 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Angustiante! Sensação de assistir minha primeira obra-prima do cinema moderno, um daqueles filmes que devo revisitar dezenas de vezes ao longo da vida (até porque, de tão complexo e multi-temas, o peso da idade deverá trazer novas experiências e percepções). Terceiro filme de Paul Thomas-Anderson, o segundo com esse formato de filme-moisaco, onde a narrativa tenta acompanhar, simultaneamente, tantos personagens, tantos acontecimentos, e criar algum tipo de vinculo entre eles.

A inspiração de P. T. Anderson veio das canções de Aime Mann, isso é tão subjetivo, abstrato, parece ter sido uma faísca de uma ideia que cresceu, e solidificou. O filme abre com um prólogo que, num primeiro momento, não parece ter relação nenhuma com aquelas histórias, O prólogo em resumo diz que coisas-estranhas-acontecem. Tem inicio a apresentação de personagens, e são muitos, e eles se entrecruzam e suas relações sociais criam a rede central dos arredores dessa rua chamada Magnolia, em Los Angeles.

Casamentos e traições, mágoas familiares, incesto, doenças terminais, homossexualismo, drogas, solidão, amor, os temas se sobrepõem. O desenvolvimento dessas pequenas histórias humanas se intensifica, os dramas tornam-se cada vez mais pesados, angustiantes, quanto mais os pormenores daquelas vidas se aproximam de nós, mais desesperadoras se tornam, o limite. P. T. Anderson espalha simbolismos que requerem meticulosa atenção aos detalhes, como os números 8 e 2 que aparecem perdidos durante o filme, uma menção à bíblia, e fatos inexplicáveis que colocam o filme em conexão com o prólogo do início.  Êxodo da Bíblia 8,2: “Se recusas, infestarei de rãs todo o teu território”.

E enquanto o cineasta criava essa legião de personagens e intricadas relações, há ainda espaço para ele seguir com seu estilo, desde a trilha sonora com presença inegável (o plano-sequencia no bar, ao som de Supertramp é coisa de louco), passando pelos planos-fechados nos rostos tensos, nos longos planos-sequencia em movimento que captam a urgência de personagens e o mundo à sua volta. Além disso, alguns atores em momentos de extravagância de seus talentos. Tom Cruise e seu energético instrutor de sexo, Julianne Moore em duas cenas (na farmácia e com o advogado) de alta dose dramática que podem deixar qualquer um em prantos. P. T. Anderson mostra diversas facetas da fragilidade e perturbação humana, de vidas repletas de amargura, de dramas que vão desde a ambição ao mau-caratismo. E quando o limite de todos é elevado a enésima potência, um toque bíblico para trazer a ordem, a esperança, ou pelo menos nos fazer respirar. Uma obra-prima!