Posts com Tag ‘Philip Seymour Hoffman’

Luto

Publicado: fevereiro 2, 2014 em Cinema
Tags:,

eduardo-coutinhophilip seymour hoffman

O domingo da tragédia. 

Com Eduardo Coutinho aprendi a admirar a simplicidade que faz a beleza, sem falar na obra-prima Jogo de Cena, ele me faz rir, chorar, cantar e aplaudir dentro do cinema.

Com Philip Seymour Hoffman meu estômago ficou amargo algumas vezes, tamanha sua capacidade de criar personagens monstruosamente inesquecíveis.

Domigo de lamentações, de não querer acreditar. Um que fugia dos clichês morreu pela overdose, o clichê das mortes prematuras no meio artístico. O outro de uma forma tão inesperada quanto a reação de seus entrevistados, a brutalidade do filho.

 

 

omestreThe Master (EUA – 2012) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Paul Thomas Anderson coloca-se, definitivamente, num estágio de cinema em que não se permite filmes fáceis. Filma com a grandiosidade de épicos (usa 70mm dessa vez), mas está sempre privilegiando relações pessoais (pai e filho em Sangue Negro, amorosa em Embriagado de Amor, de todos os tipos em Magnolia) complicadas, confrontos rigorosos. Aqui ele tomou emprestado os primórdios da Cientologia, a similaridade é óbvia, indiscutível, basta ler poucas linhas sobre o homem que criou a polêmica religião. Mas o diretor prefere fugir da biografia. Está interessado em desenvolver um tipo de relacionamento, uma espécie de confronto entre um homem tão vazio e outro tão absurdamente vaidoso.

Coloca, lado a lado, o desmiolado, problemático, alcoólatra e violento, Freddie (Joaquin Phoenix), uma espécie de veterano de guerra zé-ninguém. E o escritor, físico nuclear, entre outras atividades, mas acima de tudo, manipulador, Lancaster (Philip Seymour Hoffman). O poder de persuasão de Lancaster é tamanho que praticamente catequisa o eterno desinteressado em tudo que não seja sexo e embriaguez. A Causa (como PTA rebatizou a Cientologia) cresce, ganha adeptos, o mentor é questionado, e responde tão agressivamente quanto seu “animalzinho” Freddie. São esses os momentos em que Thomas Anderson critica abertamente a seita religiosa, as elucubrações cientificas, as regressões e histórias de vidas passadas, o cineasta não é sutil em cutucar, mas sempre mostra que seu tema central é outro, o confronto Freddie e Lancaster.

Porque um deseja “domesticar”, o outro ser “domesticado”, mas tente fazer isso com alguém tão vazio que é incapaz de ter fé. O filme é todo moldado nessa cumplicidade inexplicável, alimentada pela empatia, e nisso a trilha sonora de Jonny Greenwood é fundamental. Sem falar nas atuações monstruosas da dupla principal, o errático e o mestre, personagens tão complexos e tão bestiais, fora Amy Adams e suas aparições felinas, carregadas de opinião. Onde Paul Thomas Anderson não conseguiu chegar? No grande público por suas opções estéticas e narrativa não convencional, isso é óbvio e até ponto positivo, mas falta um toque de obra-prima, aquilo que transforma o bem-feito em mágico, que te agarra pelo estômago.

Moneyball (2011 – EUA)

Beisebol é um jogo muito chato de se assistir, já fui ao estádio e foram 3 horas modorrentas enquanto o Chicago Cubs perdia, de alguém, em casa. Um jogo coletivo, e ainda assim, extretamente individual. Demorasse uma eternidade até uma jogada que pode durar enquanto segundos? 2, 5, 10 segundos? O cineasta Bennett Miller traz a história verídica de um sujeito que tentou mudar o jogo, Billy Beane (Brad Pitt) sacou que as estatísticas, que tanto os americanos amam no mundo dos esportes, faziam sentido, e era possível montar uma equipe, mais que competitiva, baseando-se nos desempenhos, e não no charme, fama, e relacionamento dos jogadores.

O filme é sobre a sacada de Billy, sua gana de se tornar um vencedor (já que como jogou, não conseguiu), e claro, sobre suas manias, que misturadas a sua garra, o tornavam, um sujeito, quase intragável. Bennett Miller é mais um dos que não conseguiram deixar o esporte interessante no cinema, não tem jeito, por mais que não seja um roteiro que apele à superação, a trilha sonora para causar emoção está lá. Assim como, a ausencia de profundidade, e a falta de interação entre linguagem cinematográfica e cinema (e olha que Miller fez um bom trabalho em Capote, e prepara outra história verídica, a de um esquizofrênico que assassinou um atleta olímpico de luta greca-romana e nunca se entendeu as razões para isso, o assassino será Steve Carrel). Provavelmente, a atuação mais insignificante na carreira de Philip Seymour Hoffman.

The Ides of March (2011 – EUA)

Não tente entender como funciona a estrutural eleitoral nos EUA, quanto mais os anos passam, mais voce descobre que a complexidade é muito maior do que um simples leitor de notícias possa compreender. Tendo isso em mente, viajemos com o sempre engajado politicamente, George Clooney, em alguns dos meandros políticos. Aqui partimos das prévias para se escolher o candidato Democrata ao governo do país, o próprio Clooney é um desses candidatos, mas a trama está nos bastidores, nos assessores que fazem toda essa estrutura andar.

Negociatas, acordos, jogo de interesses, vazamento de informações à imprensa, as cartas são as mesmas, joga quem melhor souber utilizá-las, o foco surge do assessor de imprensa novato (Ryan Gosling), um idealista que acredita que pode fazer política apenas por princípios, mesmo entre raposas (como os personagens de Philip Seymour Hoffman e Paul Giamatti). Clooney mira diretamente em seu alvo (sem deixar de realizar um belo trabalho de direção, com uso de muitos planos-fechados, de sensualidade em algumas cenas), critica a política de forma geral, no caso dos Republicanos é contundente, mas não evita os escândalos entre seus queridos Democratas (é o ruim com eles, pior sem eles). Sua visão, parcialmente, otimista traz astucia a seu personagem, faz o público vibrar com artimanhas e estratégias, até mesmo com a manutenção de princípios (meio porcos), é filme para lotar salas de cinema, com elenco de peso, com força de tema universal e vitória garantida, mesmo que haja peso excessivo na pele desse coiote.

Capote (2005 – CAN/EUA)

“Algo entre quarenta e cinqüenta dólares”, antes mesmo de ouvir a resposta, à pergunta feita por Truman Capote, já achei aquele questionamento pedante. Ao ouvir a módica resposta citada acima, um inevitável arrepio correu pelo corpo. Por mais obviedade que viesse carregada na pergunta, ela provou que se fazia necessária, nós gostamos de sentir na pele a dor, que diferença faria o valor respondido? Nenhuma, mas ouvi-lo é dolorido.

Chamar de biografia é quase um insulto ao filme, não, honestamente não se trata de uma biografia. É verdade que Capote resgata sua infância, fala dos problemas infantis, da mãe e seu alcoolismo, das tias que o criaram. Porém, isso faz parte, de meu modo de entrevistar, de sua maneira de fazer pesquisa, o filme é sobre a confecção de um livro e sobre o mergulho de corpo e alma de um escritor (com todas suas crenças, seu egocentrismo, seu sofrimento e seu envolvimento).

Uma família é assassinada numa fazenda em Kansas, todos os repórteres queriam uma reportagem, Capote transformou aquilo num livro e revolucionou a literatura de seu país com um novo modo de se fazer literatura de não ficção. Falamos do best-seller À Sangue-Frio. O que mais se encontra de novo é a proposta do roteiro de Dan Futterman em não dar contornos definitivos, sob os temas que o filme aborda, mergulhando nessa maneira pessoal de Capote pesquisar sobre os fatos de seu livro. Muito se especula sobre uma possível paixão desperta pelo homossexual Capote após tantos encontros com um dos condenados (Perry Smith – Clifton Collins Jr), outro tema controverso seria uma luta velada do escritor para mantê-los vivos até que terminasse seu livro e por fim o desejo final de que a sentença fosse logo executada para que ele obtivesse o final de seu livro e se livrasse daquela tortura.

O filme não esconde e não opta por nenhuma dessas verdades, fica tudo exposto ao julgamento de cada um. O que o cineasta Bennett Miller não esconde é sua competência em recriar a época, o momento, em dar condições de Philip Seymour Hoffman resgatar a complexidade dessa figura única, um sujeito orgulhoso, sensível, arrogante e matreiro. Até busquei algum adjetivo, mas meu vocabulário é incapaz de explicitar algo que se aproxima da mágica interpretação de Philip Seymour Hoffman, portanto imaginem o melhor elogio que se possa fazer, não passou nem perto do que esse rapaz merece. Falar das semelhanças com alteração da voz e dos trejeitos é pouco, praticamente nada. Tenho costume de dizer que um ator com uma impecável interpretação representa a alma do filme, nesse caso ele é a alma, o corpo, a áurea…

Não há discussão sobre a brutalidade ou as razões dos crimes, em dado momento Capote se compara a Perry, pelos dois terem tido os mesmos problemas de abandono e alcoolismo materno na infância, e sutilmente mostra o caminho oposto que seguiram. Depois Capote fala sobre duas Américas existentes dentro de seu país, uma cercada de segurança e outra dos subterrâneos, da violência. Concluiu, profetizando, que naquele 14 de Novembro de 1959, aquelas duas Américas confluíram. Capote era um prepotente, um arrogante, divertidíssimo em reuniões sociais, um solitário com seus sofrimentos e medos, um homem trancado no calabouço de suas angústias.

embriagadodeamorPunch-Drunk Love (2002 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Tímido e solitário, com sete irmãs buzinando ao seu ouvido, a vida não deve ser fácil. Alguns acessos explosivos de violência seriam, no mínimo, de se esperar, mas ele vai além, vive de suas manias. Desse modo que Barry Egan (Adam Sandler) convive com sua família, pressão por todos os lados, mulheres dando pitacos e mandando em tudo.

Uma misteriosa harmônica deixada no meio da rua, uma equivocada promoção de uma marca de produtos alimentícios, que troca embalagens, por milhagens aos clientes, um serviço de tele-sexo que chantageia seus usuários. O diretor Paul Thomas Anderson se aventura pelo universo das comédias românticas, equilibrando entre o puro e o singelo, e toques particulares de seu cinema, realizando assim algo completamente não classificável no gênero. Uma fábula do amor idealizado.

embriagadodeamor2

A constante presença do azul e vermelho, a forma de trabalhar com o preto cobrindo os personagens em planos abertos, a guerra meteórica entre Adam Sandler e Philip Seymour Hoffman, a musicalidade presente de forma contagiante, as sutilezas visuais e humorísticas, do diretor, aliadas a um clima havaiano formam um espetáculo dissonante.

Um cara sofrendo com as pressões da sociedade, e quando embriagado de amor por Lena (Emily Watson), se vê obrigado a transpor barreiras intransponíveis, criadas por si. Em certo momento Barry Egan diz: “Eu tenho um amor. Isso me fortalece mais do que você imagina.”, Anderson em outro momento brilhante.

boogienightsBoogie Nights (1997 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O submundo mais profundo do cinema é a indústria pornográfica, o patinho feio a se esconder. Em seu primeiro filme-mosaico (no melhor estilo Robert Altman), o diretor Paul Thomas Anderson faz um pequeno raio-X dessa indústria underground, e milionária, de Hollywood. Atores, diretores, produtores, técnicos, mansões, festas regadas a tudo que se possa imaginar, o foco se divide, a câmera tenta acompanhar a todos. São os anos 70, a era pré e pós VHS, a indústria se solidifica, cria seus astros, muitos tentam encontrar seu espaço. A trama dramática é cheia de ramificações e personagens, a narrativa explora suas facetas, enquanto Anderson investe em seus longos planos-sequencia que alternam o protagonismo dos personagens, além de oferecer dimensão eloquente da multidão que povoa os bastidores.

Se há um foco central é no tripé: estrela promissora (Mark Wahlberg), diretor (Burt Reynolds) e estrela consagrada (Julianne Moore). Deles surgem as ramificações, os caminhos que se cruzam para depois se afastarem, ou não. A maneira como Anderson amarra tantas variações é notável, vai do humor esculachado da paródia pornô de Bonnie & Clyde, ao drama da jovem atriz pornô (Heather Graham) que tenta cursar faculdade. Festas, drogas, prepotência do poder. E também, a solidão, o ostracismo, Anderson mergulha profundamente em tantos personagens, sempre no clima disco, no tom de comédia sacana, nas possibilidades que o gênero dos filmes escondidos nas locadoras pode oferecer. Nitidamente traz muito de si, ou do que aguçou sua curiosidade quando jovem, filma no bairro onde cresceu, por mais que exagere no terço final, seu filme é um retrato delicioso e cruel de como se faz dinheiro nessa indústria “proibida”.

Almost Famous (2000 – EUA) 

É tão claro o quanto de carinho, o quanto de pessoal há nesse filme de Cameron Crowe. William Miller (Patrick Fugit) é seu alter-ego, revivendo um Crowe que, assim como tantos jovens, queria ser jornalista de rock n’roll, influencia das coleções de LP’s da mãe (The Who, Led Zeppelin). Mas, no caso dele, na raça e na cara de pau, consegueu espaço numa famosa revista do gênero e cai dentro da turnê de uma banda bastante promissora.

Mergulhamos numa deliciosa viagem pelos bastidores do mundo do rock na década de 70, longe da profundidade dramática de tentar compreender ídolos, conflitos de bandas e dependências mais graves de drogas, o filme carrega mesmo esse clima feel good, entre paixões e emoções de quem tem a chance de viver sua paixão. É o momento “está acontecendo” eclipsado na vida de um jovem atrevido que foi lá e nos representa. E nesse clima, o destaque é todo da tiete Penny Lane (Kate Hudson) com sua graciosidade intrigante. Isso, sem falar em Frances McDormand, na pele da mãezona que persegue os passos do filho, e dispara aquele jargão velho conhecido “Não use drogas”. Filme par estar sempre perto, no alcance das mãos.

magnoliaMagnolia (1999 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Angustiante! Sensação de assistir minha primeira obra-prima do cinema moderno, um daqueles filmes que devo revisitar dezenas de vezes ao longo da vida (até porque, de tão complexo e multi-temas, o peso da idade deverá trazer novas experiências e percepções). Terceiro filme de Paul Thomas-Anderson, o segundo com esse formato de filme-moisaco, onde a narrativa tenta acompanhar, simultaneamente, tantos personagens, tantos acontecimentos, e criar algum tipo de vinculo entre eles.

A inspiração de P. T. Anderson veio das canções de Aime Mann, isso é tão subjetivo, abstrato, parece ter sido uma faísca de uma ideia que cresceu, e solidificou. O filme abre com um prólogo que, num primeiro momento, não parece ter relação nenhuma com aquelas histórias, O prólogo em resumo diz que coisas-estranhas-acontecem. Tem inicio a apresentação de personagens, e são muitos, e eles se entrecruzam e suas relações sociais criam a rede central dos arredores dessa rua chamada Magnolia, em Los Angeles.

Casamentos e traições, mágoas familiares, incesto, doenças terminais, homossexualismo, drogas, solidão, amor, os temas se sobrepõem. O desenvolvimento dessas pequenas histórias humanas se intensifica, os dramas tornam-se cada vez mais pesados, angustiantes, quanto mais os pormenores daquelas vidas se aproximam de nós, mais desesperadoras se tornam, o limite. P. T. Anderson espalha simbolismos que requerem meticulosa atenção aos detalhes, como os números 8 e 2 que aparecem perdidos durante o filme, uma menção à bíblia, e fatos inexplicáveis que colocam o filme em conexão com o prólogo do início.  Êxodo da Bíblia 8,2: “Se recusas, infestarei de rãs todo o teu território”.

E enquanto o cineasta criava essa legião de personagens e intricadas relações, há ainda espaço para ele seguir com seu estilo, desde a trilha sonora com presença inegável (o plano-sequencia no bar, ao som de Supertramp é coisa de louco), passando pelos planos-fechados nos rostos tensos, nos longos planos-sequencia em movimento que captam a urgência de personagens e o mundo à sua volta. Além disso, alguns atores em momentos de extravagância de seus talentos. Tom Cruise e seu energético instrutor de sexo, Julianne Moore em duas cenas (na farmácia e com o advogado) de alta dose dramática que podem deixar qualquer um em prantos. P. T. Anderson mostra diversas facetas da fragilidade e perturbação humana, de vidas repletas de amargura, de dramas que vão desde a ambição ao mau-caratismo. E quando o limite de todos é elevado a enésima potência, um toque bíblico para trazer a ordem, a esperança, ou pelo menos nos fazer respirar. Uma obra-prima!