Posts com Tag ‘Philippe Garrel’

L’Ombre des Femmes / In the Shadow of Women (2015 – FRA) 

Dentro da elegância do seu cinema pós Nouvelle Vague, o cineasta Philippe Garrel promove um interessante estudo da alma masculina, ou melhor da alma masculina ferida. No centro da trama temos o documentarista Pierre (Stanislas Merhar) e Manon (Clotilde Courau), esposa e companheira profissional. Juntos mal conseguem pagar o aluguel. Garrel parte para o desenvolvimento dos personagens, naquela fotografia branco e preto, e aquele charme narrativo que seu cinema nos convém.

A trama realmente se instala quando Pierre se apaixona por Elisabeth (Lena Paugam), e descobre que Manon também vive um caso. O orgulho ferido se torna um tormento para Pierre, consumido pela insegurança, apresenta suas fragilidades, perde o autocontrole. A partir dai, Garrel filme a descontrução de um homem, à sombra delas (como diz o título em português), num saboroso estudo do masculino fragilizado. Garrel é cinema para se acompanhar sempre.


Festival: Cannes 2015

Mostra: Quinzena dos Realizadores

O Amante para um Dia

Publicado: março 14, 2018 em Cinema
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L’amant d’un Jour / Lover for a Day (2017 – FRA) 

É novamente Philippe Garrel se enveredando por personagens que amam, sofrem e choram, captados pela beleza de preto e branco que só o cineasta francês sabe utilizar atualmente. A filha sofre com o fim de seu relacionamento, volta a morar com o pai, onde encontra uma nova namorada, que tem a mesma idade que ela. Garrel brinca com a amizade entre elas, enquanto demonstra as inúmeras diferenças comportamentais entre elas, além das questões existenciais do próprio pai, se relacionando com uma mulher tão mais jovem.

O apetite sexual, a amizade entre elas e a disputa pela atenção do único homem da casa, é tudo retratado pela maneira deliciosamente charmosa com que Garrel enquadra ambientes e personagens, seja numa mesa de café da manha na cozinha, seja saindo do metro ou andando pela rua. De seus filmes mais recentes, sem perder a sofisticação, é o mais preocupado com as emoções, sem tentar explorar um clima que possa soar pedante.


Festival: Cannes 2017

Mostra: Quinzena dos Realizadores

beijosdeemergenciaLes Baisers de Secours (1989 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Tantos não-cinéfilos taxam o cinema francês de chato, pedante e outros adjetivos. Assistindo a este filme de Philippe Garrel, consigo compreender essa interpretação, ainda que tão equivocada. É o típico filme onde esse tipo de classificação pode cair como uma luva, e o filme que me faz confirmar que tal comportamento é um equivoco.

Que belo filme, Garrel! Um cineasta independente (o próprio diretor) se prepara para um novo filme, meio autobiográfico, e escolhe uma atriz (Anémone) para interpretar sua esposa (Brigitte Sy), que se revolta por ser uma atriz em início de carreira, e queria ela participar do filme. E o filme não vai muito além deles, do filho pequeno (Louis Garrel), do pai do direto (Maurice Garrel), e das lamúrias e discussões do casal.

Em preto e branco, câmera sempre próxima dos personagens, faz lembrar uma daquelas canções de jazz, cheias de improviso e imersão pessoal do público. A separação, os sentimentos, as possíveis reconcialiações, a fúria feminina, é tudo tão belo, tão genuíno. Garrel equilibra esse jazz visual recheada de referências culturais, pessoais, que quase transforma seu coração num livro aberto, de curvas suntuosas, e imperfeições cinematográficas que o deixam ainda mais saboroso.

Nos últimos dias estava quebrando a cabeça, vasculhando nos filmes que entraram no circuito comercial, aqueles dez que seriam os meus preferidos do ano – doença de cinéfilo. E, simplesmente, não consigo fechar uma lista com dez merecedores-de-um-top-10. Talvez 5 ou 6, vá lá, mas o restante são apenas bons filmes, em que há outros 4 ou 5 que estão ali, no mesmo nível. Desse critério tão subjetivo (e maluco) que é classificar filmes. Conversando com meu amigo Superoito, realmente não parece haver sentido nessa lista, afinal, o circuito brasileiro vive atrasado. Se a oferta em quantidade tem crescido, ainda assim a quantidade de salas “alternativas” são tão restritas, que os filme permanecem nas prateleiras das distribuições, esperando melhor momento de estrear, muitas vezes perdendo seu “momento”.

Os cinéfilos que realmente acompanham a cena internacional de cinema, o que está sendo filmado, as novas tendências, novos limites que os cineastas quebram. Estes cinéfilos buscam os filmes por outras plataformas, de outras maneiras que não exclusivamente o circuito. Nesse ponto, os festivais tem ajudado muito, não só o Indie, Festival do Rio, e Mostra SP, como outros festivais menores, tem trazido grande parte da produção atualizada, cobrindo parte expressiva dessa produção. O resto chega através de outros formatos, viagens, Netflix, internet e etc. Estamos quase em 2015, hora de mudança.

Portanto, trabalhar numa lista de melhores, tendo o circuito comercial como critério, me parece abster-se do cinema que o próprio cinéfilo acompanha, discute, vive. Não, não vou esconder meus 10 preferidos, vou apenas deixá-los no final, apenas como referência, afinal eles serão meus votos para o Alfred da Liga dos Blogues Cinematográficos.

A lista mais importante é a que vem logo a seguir (comentada), são filmes que foram vistos em 2014, com produção de até 2 anos (que finalmente foram vistos, ou ficaram acessíveis). Eles formatam melhor o panorama do ano do cinema, os principais festivais, o que a imprensa especializada ou os grupos de cinéfilos discutiram, veneraram, xingaram, amaram. Há ausências, como toda lista, afinal, ela é subjetiva. Alguns filmes não foram vistos (a Godard a mais sentida, mais a versão em 3D precisa ser vista em tela grande), outros não agradaram tanto, mas ela indica caminhos, preferências, e, acima de tudo, é coerente com esse cinema atual.

O Top 10

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  1. Do que Vem Antes, de Lav Diaz
  2. A Imagem que Falta, de Rithy Panh
  3. A Princesa da França, de Matias Piñeiro
  4. Redemption, de Miguel Gomes
  5. Era Uma Vez em Nova York, de James Gray
  6. E Agora? Lembra-me, de Joaquim Pinto
  7. O Conto da Princesa Kaguya, de Isao Takahata
  8. A Pele de Vênus, de Roman Polanski
  9. Acima das Nuvens, de Olivier Assayas
  10. Winter Sleep, de Nuri Bilge Ceylan / Dois Dias, Uma Noite, de Jean-Pierre e Luc Dardenne

Olhando para essa pequena amostragem percebo que é uma lista heterogênea, grande parte dela da seleção dos dois últimos festivais de Cannes. Quase todos diretores consagrados, que apontam para dois caminhos: filmes grandiosos em temas e pretensões; ou pequeninos na pretensão, porém grandes na arte de filmar. São dois lados de uma mesma moeda, cineastas que enxergam suas próprias carreiras e tentam escapar dos caminhos fáceis do piloto automático.

Alguns destes filmes tem o aspecto moral como excelência, o perturbado conto de Ceylan ganhou a Palma de Ouro. O dos Irmãos Dardenne traz um melodrama nunca antes visto na carreira dos belgas. São filmes antagônicos na forma, ligados por essa questão da vida em sociedade, dos princípios. James Gray continua com poucos e fiéis fãs. Ele até flerta com o melodrama, mas seu estilo sofisticado deixa tudo tão chamuscado e charmoso que esse melodrama fica chique entre tão belos planos.

Há o lado teatral forte, é o segundo trabalho seguido de Polanski que remete ao teatro filmado, dois de seus melhores filmes em anos. O argentino Matias Piñeiro surge como uma descoberta, tardia deste blog, com uma construção irrepreensível, uma espécie de poesia teatral filmada. Assayas mergulha em seus filmes anteriores, e em Bergman, trilha novo caminho via metalinguagem.

De Portugal duas pérolas, o documentário autobiográfico de Joaquim Pinto e as biografias escondidas por Miguel Gomes num curta sobre doces fluxos de memórias. O cinema português segue produzindo pouco, mas muito bem. O japonês Isao Takahata promete ter entregue seu último trabalho, e o resultado é um primor ao refletir as tradições culturais orientais com leveza e sofisticação.

No topo da lista Pahn e Diaz, os dois revivendo cicatrizes dolorosas de seus países. Seja pelos bonecos do Cambodja, ou pelas florestas filipinas, os horrores das ditaduras sem que a violência precise ser exposta. Seus filmes são registros hipnóticos de um cinema rigoroso, que usa da simplicidade para aproximar-se de seus próprios personagens, e do virtuosismo de seus diretores para cativar os que enxergam novos rumos para o cinema. A conjunção exata entre fazer arte e contar histórias.

No Letterboxd deixo a lista mais completa com meus 25 filmes favoritos do ano.

O Top 10 do Circuito Comercial

  1. A Imagem de Falta, de Rithy Pahn
  2. Era uma Vez em Nova York, de James Gray
  3. Cães Errantes, de Tsai Ming-Liang
  4. Bem-Vindo a Nova York, de Abel Ferrara
  5. Mais um Ano, de Mike Leigh
  6. Amar, Beber e Cantar, de Alain Resnais
  7. Boyhood – Da Infância à Juventude, de Richard Linklater
  8. Vic + Flo Viram um Urso, de Denis Côté
  9. O Abutre, de Dan Gilroy
  10. O Ciúme, de Phillipe Garrel

O Ciúme

Publicado: outubro 7, 2014 em Cinema
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ociumeLa Jalouise (2013 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Philippe Garrel mantém viva a Nouvelle Vague. Ainda em capaz de realizar filmes pequenos, singelos, agradáveis, que trazem à arte ao seio da vida comum. Filmado em preto e branco, num tom de simplicidade que camufla as doses de ciúme (transferido entre os personagens, no decorrer da trama), Garrel adapta a infidelidade seu próprio pai, aqui interpretado por seu filho (Louis Garrel).

Atores de carreiras frustradas, casamentos encerrados, encontros e desencontros amorosos, ciúme. As doses de angústia e dissabor, o choro, o sofrimento, estes lados negativos da vida são representados de forma contida. Ainda assim vívidas. Entre traições e desesperanças de corações apertados em vidas profissionais frustradas, apartamentos minúsculos, e um desejo de acreditar no amor, ou simplesmente no sexo estão alguns planos de beleza exemplar (como o choro da cena incial, visto pela fechadura), por mais que o filme tenha a pretensão de não soar pretensioso, e, seguramente, é muito mais importante para o clã Garrel do que a seu público.

Un Été Brûlant (2011 – FRA/ITA/SUI)

Philippe Garrel colabora em ratificar a mítica de um universo isolado aos artistas. Pintores, atores, músicos, vivendo alheios à realidade da maioria, entre minutos de filosofia e genialidade. Como se fossem incapazes de um momento comum, até as tarefas mais simples diárias precisam de um quê de extravagante, cool, ou intelectual. A dor deles é diferente da nossa, as conexões amorosas também, e a vida, com uma liberdade que outrora nem poderíamos imaginar.

Nesse universo de puro endeusamento do mundo artístico, surge um pintor francês (Louis Garrel) despreocupado com o mundo, e sua estonteante esposa, uma atriz italiana (Monica Bellucci que aparece completamente nua na segunda cena do filme, obrigado Garrel pai). Na casa do casal, num verão em Roma, recebem um casal de atores, amigo do pintor. Os quatro passam ali semanas juntos, um relacionamento que se constrói enquanto outro se deteriora.

Cada cena, cada construção, cada detalhe, é hermeticamente projetado numa atmosfera blasé, como se houvesse arte em cada suspiro. As conversas versam sobre filosofia, tem tempo certo para reflexão antes de um próximo questionamento, a fluencia verbal é complexa, quase como se sentissem o ar que respiram, antes de seguir adiante. Pouco importa os caminhos que farão causar as ruinas do pintor (o filme começa com ele causando um acidente de carro), estamos tratando de dois assuntos, uma amizade que nasce e um relacionamento que morre, e dentro dessas duas perspectivas tantos assuntos envolvidos, como: amor e dor, respeito e infidelidade, desejo e ciumes, hospitalidade e intimidade, convivência.