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Whore’s Glory (2011 – ALE/AUT) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Em seu documentário, o cineasta Michael Glawogger retrata prostitutas na Tailândia, Bangladesh e México, prova que a prostituição não é igual em qualquer lugar do mundo, por mais que tudo se resuma a sexo e uma visão machista de mundo. O “aquário” tailandês onde as garotas ficam expostas até serem escolhidas pelos senhores engravatados, isso claro,  depois de baterem cartão, ao chegar ao trabalho. Em Bangladesh vivendo numa imúndice, sob responsabilidade de cafetinas, uma bagunça onde conseguem clientes entre empurrões. No México, uma rua cheia de casinhas de um quarto cuja porta dá direto para a rua e os carros apenas estacionam na porta das escolhidas.

Diferentes formas de atrair clientes, aproximando-se dessas mulheres, descobrimos fortes ligações religiosas (sejam quais forem as religiões), e da ingenuidade oriental à depravação latina de quem vive do crack e do vício. Essa é a prostituição que move o mundo, mulheres que fazem o que esposas e namoradas não fazem, vivendo da marginalidade profissional em submundos nojentos. Glawogger não traz novidades, mas expôs comparações de mundos idênticos em comportamentos antagônicos.

360 (2011 – ING/AUT/FRA/BRA)

O pecado é a obviedade, e ela está tão concentrada no roteiro de Peter Morgan (inspirado livremente numa peça teatral de Arthur Schnitzler) que realmente parece um filme de Morgan, com uns toquezinhos modernos do Fernando Meirelles e sua trupe. Enquanto o roteirista se mostra obcecado pela ideia de que “quando encontrar uma bifurcação, escolha um dos lados do caminho”, e contecta pessoas do mundo todo, sempre com o sexo como mote. Meirelles brinca de split-screen, de espertos movimentos de câmera, e cortes dinâmicos nos diálogos.

A fluidez de Meirelles até consegue tornar o tom palatável, já a história envolvendo prostituta eslovaca, traições, estuprador sofrendo tentação e uma série de outros percalços não vai além de uma eterna redundância que precisa ser justificada com diálogos e cenas que expliquem o que já está tão óbvio.

No fundo, nos tornarmos testemunhas de histórias que pouco nos interessam, clichês da vida moderna conectados para mostrar que estamos tão ligadas que o destino de um, depende do outro. É uma premissa frágil se não temos atração por aqueles personagens e seus dramas de cores tão pastéis. Vidas sem brilho, filme sem emoção, por mais que haja certo clímax na relação tensa criada no aeroporto (envolvendo Maria Flor e Ben Foster). Mas é pouco, e no final, ainda teremos mais doses desse mantro moral sobre tomar um caminho (e mudar o destino dos demais).

L’apollonide: Souvenirs de la Maison Close (2011 – FRA)

Bertrand Bonello sim conseguiu captar a melancolia e distanciar do glamour das casas de prostituição de luxo. Estamos em 1899-1900, num tom lento e penetrante o cineasta radiografa as bizarrices de clientes, o vazio daquelas moças que vivem sem esperança, porém precisam alegrar seus clientes a cada noite, transmitir-lhes entusiasmo.

A câmera se posiciona de forma cirúrgica, poucos movimentos, ainda assim penetra por entre corpos (nus, sem nunca demonstrar erotismo, a coisa fria de um filme de arte) e ambientes. Deflagra a solidão, a tristeza, o total desconsolo que tão lindas mulheres carregam ao se verem presas, dependentes quase como escravas, vendendo seus corpos sem perspectiva nenhuma de sair daquela casa.

A imagem quase o torna um convidado, a beber vinho naquele pinico dourado, mergulhar seu corpo na banheira de champagne, ou visualizar o sexo por espelhos, como numa casa de swing. O que faz Bonello com maestria é desvendar máscaras, é desmistificar o glamour daqueles sorrisos tão radiantes na sala de estar onde os homens de estirpe, burgueses adúlteros, que mal imaginam a frieza mecânica com que as mulheres contam com quantos estiveram aquela noite, ou se lavam com desprezo dos fluídos trocados.

(2010)

O universo dos documentários segue oxigenando o cinema nacional com criatividade, dinamismo e a inventividade de novos formatos e linguagens. Temos nos desenvolvido muito mais nesse universo frente a ficção, principalmente pelas facilidades financeiras, custos mais baixos dando espaço ao talento. O cineasta Sérgio Borges foi mais um a derrubar o muro entre ficção e documentário, ao escolher três personagens reais e transpor suas vidas à tela dividindo-se entre registros documentais e cenas roteirizadas do cotidiano de cada um deles (destaque para a polêmica cena de sexo).

Um membro de torcida organizada, uma transexual pós-graduada que leva a vida se prostituindo, e um escritor (com filho deficiente mental) que vive as custas da mãe. Recorrendo a uma linguagem pouco usual e bastante representativa e impactante, Borges aproxima a câmera dos personagens, vivendo seus momentos, são sequencias de silencio acompanhando o vento bater por entre as pernas, ou o pacato passeio de skate pela cidade. Nos tornamos íntimos, podemos entender (ou divergir) da complexidade de cada um deles. A imagem suja não os transforma em coitadinhos, nem os eleva a heróis, são retratados como pessoas de carne e osso, com seus problemas, sua solidão e inquietudes. Por mais que não haja um equilíbrio e o fanático torcedor do Galo termine como um personagem menor enquanto o “escritor” discorra livremente sobre suas verdades abstratas, ainda assim temos um filme uniforme e animador.

Sans Queue Ni Tête (2010 – FRA)

Isabelle Huppert vestindo-se como uma colegial para atender os desejos sexuais de um cliente é uma imagem quase surreal, a peruca, o ursinho, todos os elementos compõe um quadro elegante e assustador, e por mais irregular que seja o filme, essa mulher consegue deixar qualquer coisa agradável com suas atuações formidáveis. E o filme de Jeanne Labrune é sobre uma prostituta de luxo quarentona à procura de um terapeuta que a ajude a sair da profissão, do outro lado da história temos um terapeuta em crise com sua profissão e enfrentando o processo de término de seu casamento. Infelizmente é um filme que não se encontra, sua evolução é diminuta e seus personagens por demais subjetivos e que agem por uma complexidade que só mesmo muita terapia para compreendê-los.