Posts com Tag ‘Rachid Bouchareb’

simplesmente umamulherJust Like a Woman (2012 – EUA) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Rachid Bouchareb é mais um daqueles cineastas estrangeiros que se destaca e vai parar nos EUA. E, sabe-se lá porque, realiza um filme onde a sensação é de ter desaprendido a filmar. Uma mistura de Thelma e Louis com algo do gênero tragédia-pouca-é-bobagem. Típico filme feminista, de mulheres sofridas que buscam independência como forma de se reencontrar.

Só que, tudo é tosco, ruim mesmo. Começando pela trama, o desenrolar, passando pelo road movie das mulheres que largam tudo para dançar em restaurantes. É realmente deplorável não há traços do Bouchareb que o levou até aqui. A imigração sempre foi um de seus temas, é verdade, mas aqui está mais relacionado com os aspectos culturais do que a imigração em si. Fiasco retumbante.

Little Senegal

Publicado: janeiro 26, 2011 em Uncategorized
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Little Senegal (2001 – FRA/ARG)
 
Por mais que tenha sido o quarto longa-metragem dirigido por Rachid Bouchareb, fica a impressão de trabalho de iniciante, aquela coisa de pouco orçamento e muita vontade, além da irregularidade, beirando o amadorismo mesmo. Nesse quadro o filme segue o senegalês Alloune (Sotigui Kouyaté, aqui antecipando as feições melancolicas de London River, comove fácil qualquer um) saindo de sua terra natal numa jornada em busca de seu passado, de seus ancentrais. Alloune é um polo de transformações, da mulher da banca de jorna, à adolescente grávida, até seu sobrinho irritadiço, de alguma forma ele promove imensas mudanças na vida de cada um. Sempre com seu jeito calmo e honrado seus costumes e dogmas. Repleto de uma trilha sonora cafona, Bouchareb oferece um filme digno, porém torto, cheio dessa imensa vontade de unir temas corriqueiros e complexos como gravidez na juventude, pirataria e clandestinidade, a vida dos imigrantes na América…

Filmes de Rachid Bouchareb

Dias de Glória

London River

Fora da Lei

Hors La Loi (2010 – FRA)

Rachid Bouchareb traz uma versão gangster dos tempos de luta pela libertação da Argélia, dessa vez a linha narrativa é conduzida pela história de três irmãos que são levados de seu país natal para a França e seguem caminhos distintos. Um vai lutar pelo exercito frances na Indochina, outro militante convicto da FLN torna-se figura importante nos conflitos em terreno frances, e o terceiro envolve-se no mundo dos cabarets e lutas de boxe em Pigalle. Das favelas francesas onde vivem os africanos imigrantes dos países de colonização francesa, aos becos onde confrontos entre “gangues” opostas e a própria polícia digladia-se dentro de um ar estritamente suntuoso (o filme de Bouchareb é grandioso, faz referência a uma elegância da época dentro de um clima tão violentamente disputado), o filme transcorre por essa veia política de acontecimentos fundamentais para a independência argelina. As cenas de tiroteio ou no ringue de boxe são extremamente bem filmadas, elegantes e de alto impacto, a carga política e os ideais nacionalistas estão escondidos por entre cenas clássicas e formais (principalmente na primeira metade), talvez seja o primeiro filme desse tema onde o charme seja tão importante quanto a discussão política.

Diários da Mostra #11

Publicado: novembro 18, 2009 em Mostra SP
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Enfermaria Número 6 (Ward Number 6, 2009 – RUS)
Karen Chakhnazarov realizou aqui adaptação de um conto de Tchecov sobre um diretor de hospício terminando sua vida internado como paciente no próprio local que fora dirigido por ele durante tantos anos. Formado entre relatos com câmera fixa de pessoas que se relacionaram com ele e retratos de sua situação como internado o filme almeja traçar um perturbador cenário sobre a vida, nossos valores e principalmente nossas fragilidades. Falta ímpeto e resta boa-vontade em mais um exemplar de filme que funciona bem no papel e deixa muito a desejar em sua realização.

 

Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo (2009)
Um geólogo, funcionário público, parte numa viagem de uns trinta dias por rincões do nordeste, seu trabalho solitário de cruzar cidades e vilarejos estudando a viabilidade da construção de uma estrada casa completamente com os sentimentos conflitantes que perturbam seu coração. Narração em off, protagonista nunca focalizado pela câmera (a imagem representa exatamente o que os olhos do viajante enxergam), um misto de ficção e documentário repleto da pureza dos desabafos de amor em sua mais sublime limpidez. Um filme genuinamente brasileiro, resumindo a maioria do nosso povo, que ama e xinga o ser amado, que ouve música brega e fica na fossa e depois se entrega a qualquer artimanha barata de prazer desqualificável. Estão lá algumas marcantes características que puderam ser vistas em filmes anteriores dos diretores Marcelo Gomes e Karim Ainouz, que aqui dividem a direção concatenando suas obsessões num amplo trabalho harmônico. “Eu quero uma vida lazer” proferido por uma prostituta de uma cidadela qualquer parece ecoar como hit de adoração, eclipsado quando a simplicidade de sua sabedoria popular resume brilhantemente “A gente tem que dar lazer quem dá lazer a gente”, enquanto isso o ator Irandhir Santos demonstra toda a amargura e amor de seu coração apenas por suas palavras, com seu tom de voz carregado de emoção, em desabafos de boca-cheia como “que saudade da porra” ouvindo o brega do brega que esse país já produziu. E dentro do contexto músicas como Sonhos do compositor Peninha fazem o complemente perfeito para o lindo retrato da dor de um coração partido, de um amor que não cabe dentro de um pobre coração.

London River (London River, 2009 – ING)
O filme de Rachid Bouchareb é simples, de cara limpa, recria (como pano de fundo) o trágico ataque terrorista em Londres. A tragédia é fato gerador, toda a trama se desenvolve com fundo social, a desmistificação do preconceito, a obsessão dos pais em “proteger” seus filhos, e também sob a predominância da bondade e solidariedade. O trágico acaso leva um imigrante negro e uma caipira inglesa ao encontro em Londres, solitários em sua busca desesperadora os dois são regidos pela preocupação com o paradeiro dos seus respectivos filhos após os atentados. Compartilham da mesma dor, da mesma esperança, da vida posta de lado até esclarecer o sumiço de sua cria. Mesma na meia-idade Elisabeth (Brenda Blethyn) amadurece com as descobertas que a metrópole lhe proporciona, já Ousmane (Sotigui Kouyaté) é dono de um olhar de desolação inimitável e de uma paciência inestimável. Dois adultos unidos pela dor, mitigados pela incapacidade de esclarecer, de mudar a realidade que surge melancólica sob seus olhos.

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Alga Doce (Tatarak / Sweet Rush, 2009 – POL)
Seria um corriqueiro drama de época sobre uma mulher madura e casada vivendo um romance com um garoto jovem. Cenas tórridas de amor, as amarras de uma mulher reprimida e diagnosticada com uma doença terminal soltas por suas descobertas aventureiras, e todo o clichê do gênero. O golpe de mestre teria ocorrido antes, durante ou até depois das filmagens, quando? Pergunta que não saberei responder, mas afirmo tratar-se de um golpe de mestre, assim como uma das maiores demonstrações de entrega emocional a um personagem. Krystyna Janda divide-se entre o adultério de sua personagem e seu drama pessoal com o falecimento do marido. Num ato de coragem imensurável ela derrama sua melancolia dolorosa num quarto de hotel (câmera fixa focalizando todo o espectro do quarto enquanto ela dilacera-se em memórias olhando para uma parede, caminhando até a janela, fumando), fala do marido, das filmagens, a dor sentida em cada sílaba, a cada comentário. A junção do “documentário” com as cenas do filme em que ela representa Marta, nas mãos do diretor Andrjez Wazda ganham uma força impressionante e uma ressonância de uma história na outra quase hipnótica. A relação entre elas é sensitiva, nunca direta, a invasão nos (res) sentimentos de Krystyna refletem sob a morte que configura-se mais eminente do que parece, provando que a vida é extremamente frágil.
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I Love You Philip Morris (I Love You Philip Morris, 2009 – EUA)
A sensação de Dejá-vu é causada pela proximidade com o sucesso de Prenda-me se for Capaz, a história baseada em fatos reais de um malandro capaz de mentir e enganar não só amigos, como todo um país já foi narrada de forma divertida por Steven Spielberg. Claro que a vida de Steven Russel é extremamente cinematográfica, e s não fosse um sujeito gay que deixou sua vida marcada por um amor platônico, o tal Philip Morris interpretado por um Ewan McGregor afeminado como uma menina indefesa, teria chances de alcançar uma audiência ainda maior. O que pesa no filme é a escolha de Jim Carrey pare encabeçar o elenco, a sensação de assistir a O Mentiroso numa proposta gay é mais que nítida, é presente. Carrey não consegue desvinciliar-se das caras e bocas que o marcaram como humorista e seu personagem ganha uma conotação divertida (e exagerada) que primeiro não parece condizente com o personagem real. E segundo, contamina toda a história. Claro que se consegue boas piadas, que o romance entre os presidiários está sendo vivido pelos atores de forma totalmente entregue (e até comovente), porém o filme dos diretores John Requa e Glenn Ficarra não vai além de um passatempo de piadas divertidas nas mãos do talento desgastado e repetitivo de Carrey. Rodrigo Santoro tem papel importante, e assume também alguns trejeitos gays com desenvoltura exemplar.

Dias de Glória

Publicado: fevereiro 1, 2007 em Uncategorized
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Desde já afirmou que esse filme estará no meu top 10 de 2007, tenho certeza.

Indigènes (2006 – FRA)

A maioria dos textos deverá ser clássico, tal qual a narrativa desse cinemão caprichado e calcado em sua história. Pode-se divergir opiniões, mas os temas, discussões, e estruturas seguirão a mesma cartilha. Se pensarmos na atual disposição (espalhada pelas ruas da França) em se discutir (eufemismo, eu sei) sobre xenofobia, o filme de Rachid Bouchareb torna-se mais que atualizado, diria obrigatório. Estamos falando sim de um filme de guerra, porém acima das lutas e batalhas está a discussão do preconceito racial (e a forma como a França lida e principalmente sempre lidou com suas ex-colônias africanas). Sem falar de um estranho amor a uma pátria que nem é a sua, mas que de tão acostumados a respeitar (a força) desde crianças, passa a invariavelmente ser.

No finalzinho do filme, chegam à Aldeia da Alsácia, uns poucos gatos pingados (soldados). Cansados, exauridos, marcados pela trajetória desgastante da guerra, amigos que se foram, o inimigo que pode estar a espreita quando menos se espera. Aquela não será a única batalha, apenas a que Rachid Bouchareb privilegiará com precisão cirúrgica. Os enquadramentos nos inserem naquelas construções parcialmente demolidas, estamos à espera do exército inimigo que está prestes a atacar, a munição escassa, a quantidade de soldados irrisória, nos resta o medo de não resistir a mais aquele ataque. O suor, o corpo cansado, apreensão, uma seqüência hipnótica, tiros, bazuca, estamos dentro da guerra e ela não é nada gloriosa. Segunda Guerra Mundial, mais de cento e trinta mil soldados são garimpados na Tunísia, Argélia e demais colônias francesas, para lutarem pela libertação da metrópole frente a dominação Nazista (e o governo colaboracionista de Vichy). Esses soldados enfrentam duas batalhas, uma delas é no front, diante dos inimigos armados; a outra é dentro do próprio exército, contra a discriminação dos soldados (e superiores) franceses, contra as diferenças impostas, lutam pela França, porém renegados a uma posição inferior, sofrendo injustiças em todas as esferas, desde a não promoção por merecimento chegando até serem servidos com comida diferenciada.

Não estamos falando dos escravos do século XIX, mas do ano de 1943 e de nativos de países ainda dependentes da França. Tratados com total diferença, lutando por uma causa que não é deles, morrendo pela França. Há uma cena especial de causar frio na espinha, no navio todos os soldados (não importa a nacionalidade) cantando A Marselhesa com fervor, entoando aqueles versos com toda sua garra e fibra, injustiçados e ainda assim dominados por uma estranha fascinação. O elenco é indiscutivelmente fantástico, Abdelkader destaca-se pela rebeldia, pela luta contra injustiças, as discussões por direitos iguais a todos os soldados. Messaoud se apaixona por uma francesa e sonha em casar-se e morar na pátria-mãe. O tolo Said encontra uma chance de se tornar algo melhor do que o inútil que todos pensam ser. Apenas uma pequena mostra da micro-sociedade criada por Bouchareb. Chamados de muçulmanos (num tom de demérito), sempre expostos aos momentos mais delicados das batalhas. E o desfecho disso tudo vem para deixar qualquer um estarrecido (muitos podem achar piegas, eu fiquei completamente arrepiado). Seja pelo gênero, seja pela discussão pertinente, pouca importa o que atrair-te, filmaço imperdível!

Abdelkader (Sami Bouajila) Yassir (Samy Naceri) Said (Jamel Debbouze) Messaoud (Roschdy Zem)