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Três Verões

Publicado: setembro 16, 2020 em Cinema
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Três Verões (2019)

Sandra Kogut recoloca Regina Casé no personagem de empregada doméstica. Dessa vez no Rio de Janeiro, para retratar as transformações de uma família burguesa, envolvida na Lava Jato, e de seus empregados. O filme passa longe de questões políticas, ou jurídicas, dividindo-se em três partes (3 verões, na semana entre Natal e Ano Novo). A degradação da mansão vem conectada à situação financeira da família e a arte dos empregados em se reinventar para sobreviver. Essa artimanha é catapulta para mais espaço do alívio cômico que Regina Casé sabe como poucos usar, mas o encontro da critica social e humor popular parece distante de um encaixe perfeito aqui.

quehoraselavoltaQue Horas Ela Volta? (2015) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Interessante que, num curto espaço de tempo, tenhamos dois filmes abordando a classe média alta, de seus casarões antigos e costumes antiquados, e uma relação empregatícia tão arcaica. Se Casa Grande trata da crise financeira de parte dessa sociedade, o novo filme de Anna Muylaert explora o cotidiano minimalista, aproxima-se da vida dos empregados e da relação “umbilical” com os patrões.

Há outras camadas nessa história, desde uma visão feminina de conflitos, da sexualidade, e da fascinação irracional causada no sexo oposto, como também a questão da imigração (do nordeste para o sudeste), causando afastamento no âmbito familiar em busca do sustento que possa ajudar economicamente os que ficaram por lá. Mas, sem sombra de dúvida, é a relação patrão-empregado a grande válvula de desenvolvimento da história.

É um costume muito brasileiro essa relação com a empregada doméstica, ao ponto de morar na mesma casa que os patrões, e ter sua vida intimamente ligada a deles. O “quase” da família significa uma relação sem regalias, limites impostos pelo bom-senso de quem sabe exatamente onde fica o seu espaço. Discutir o tratamento imposto nessa relação patrão-empregado, é quebrar a zona de conforto da classe média, que vai trabalhar e tem sua casa e filhos sob cuidados de alguém que está abdicando de sua própria vida, em face da daquela família. É uma discussão complicada, porque o empregado tem seus ganhos e seus interesses econômicos, por outro lado acaba se colocando como um ser humano de segunda classe.

Na história da emprega Val (Regina Casé), e sua patroa (Karine Teles), tudo muda com a chegada temporária da filha (Camila Márdila), e seu comportamento invasivo a essa relação de limites imposta pela cartilha da sociedade. Ela causa atração do patriarca (Lourenço Mutarelli), rivaliza com o príncipe adolescente da casa (Michel Joelsas), e deixa a própria mãe louca com sua “insensibilidade” aos limites. Muylaert filma pela casa toda, causa pequenos eventos que se tornam uma bola de neve em todas as relações da casa. A chegada de uma estranha estremece os alicerces daquela micro-sociedade.

Todos os filmes da diretora Anna Muylaert guardam o tom popular, aliado a uma linguagem cinematográfica definida, tratando de maneira simples questões do cotidiano da classe-média. Um tipo de cinema carente dentro do universo nacional, nem televisivo, e nem artístico/experimental ao extremo. Se os três anteriores pareciam problemáticos (Durval Discos, É Proibido Fumar e Chamada a Cobrar) chegaram, uns mais, outros menos, seu novo trabalho finalmente caiu no gosto popular, já é sucesso comercial, e como a grande obsessão nacional é ganhar o Oscar de filme estrangeiro, já está bem cotado e cheio de expectativas ao seu entorno. A verdade é que esse jeito afável e popular de Regina Casé conquistou, não só o público nacional, já é sucesso em muitas partes do mundo.

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O Brasil dentro de um apartamento. O cineasta Arnaldo Jabor apertou aqui e ali, até colocar uma série de figuras que representariam grande parte da sociedade brasileira, um micro-ecossistema social. Jabor teve a capacidade de alojar, nessas quatro paredes, essa infinidade de personagens, numa ácida crítica social. Um filme que levanta a bandeira da diferença de classes sociais e traz dentro de um lar burguês as delicadezas problemáticas do povo.

Juarez Ramos Barata (Paulo Gracindo) divide seu tempo entre escrever cartas, a um editor de jornal, criticando a situação do país, e ouvir discos com músicas indígenas e sons de pássaros da Amazônia. Por seus três alter-ego percebemos ser um sujeito nacionalista, com ares de poeta, engajado politicamente em suas idéias, e ainda assim proprietário de ideários divagantes. São seus fantasmas que o fazem refletir, relembrar momentos da juventude, trazem a tona o saudosismo que o mantém vivo. Elvira (Fernanda Montenegro), sua esposa, remoe a idéia de que seu marido anda tendo um caso, ela própria inventa os encontros e as características físicas da amante.

Os filhos são a própria classe média, José Roberto (Luiz Fernando Guimarães) é diretor de relações públicas de uma multinacional, já Vera Lúcia (Regina Casé) acaba de tornar-se noiva de um executivo dos EUA. A invasão do Brasil, nessa família, começa pelos fundos. Uma das empregadas domésticas prostitui-se, à noite, para descolar uma grana. A outra caminha para as estradas espirituais dos orixás. A realidade do país realmente invade aqeual casa burguesa quando Juarez inicia reformas no apartamento. Os pedreiros trazem as mazelas de suas vidas para o ambiente, e aquele apartamento transforma-se num caos social.

A primeira seqüência já reprenta bem as intenções do filme, a apresentação de Juarez com seu nome completo funciona com a clara demonstração que se trata de um burguês. Sob a máquina de escrever, ele e suas três visões reclamam da situação econômica da carne, do estrangeirismo, da falta de uma política que apóie a indústria brasileira. Mas é só o começo, Stênio Garcia (no papel de um dos pedreiros) sugere que ao invés de demitir um dos serventes, que seja dispensado o capataz, já que eles conhecem o serviço e não precisariam dele. Seria uma escolha justa, os mais necessitados continuariam trabalhando, mas no capitalismo essa escolha é improvável, pois sem capataz não teria contratação da obra, no Brasil quem ganha mais é sempre o intermediário.

Em dado momento, as divagações vão se repetindo, monólogos fazem idéias abstratas fluírem, e o filme ganha contornos arrastados. A panela de pressão que se tornou o apartamento funciona eficiente para a proposta de sátira. Paulo César Peréiro entra em cena nos minutos finais, numa cena tão hilariante, que não poderia deixar de ficar marcada. No papel de um executivo norte-americano, ele dá a perfeita exemplificação do que chamamos em bom português popular de “embromation”.