Posts com Tag ‘religião’

Nattvardsgästerna (1963 – SUE)

Segunda parte da Trilogia do Silêncio, é nesse capítulo em que Ingmar Bergman mergulha mais profundamente no silencio de Deus, e nos questionamentos dos humanos sobre sua existência. A missa se realiza numa pequena paróquia numa vila de pescadores na Suécia, são poucos os presentes, serão eles os personagens orbitando em torno do pastor cuja vida passa pelos questionamentos de sua fé.

Questionamentos estes que começaram após a morte de sua esposa, em discussões com sua amante, os dois se embatem por essa frieza do pastor após perda irrecuperável. Na sacristia a esposa do pescador pede para o pastor ter uma conversa com seu marido que anda em depressão após os jornais terem noticiado a possibilidade da China criar sua bomba atômica. Enquanto isso um sacristão dificiente julga que o sofrimento de Jesus não foi tão grande assim, durou apenas 4 horas, o dele é muito mais sentido e longo.

Poucos diálogos de planos longos e fechados no personagem que tem a palavra, o filme praticamente se desenvolve dentro da igreja, um universo claustrofóbico, o pastor questiona sua vida e sua fé, mas não consegue um segundo de paz interior com tantos problemas dos outros que ele precisa (mesmo que não se sinta capaz de) lidar e “resolver”. Bergman é contudente em seus questionamentos, a dor e o silêncio estão tão presentes quando a fraqueza da fé e o peso da necessidade de acalmar tantas almas aflitas. O filme abre e fecha com uma missa, demonstra a hipocrisia de um homem que passa todo o intervalo entre as duas celebrações perguntando e duvidando de sua fé

Hors Satan / Outside Satan (2011 – FRA)

O cinema de Bruno Dumont está todo ali, uma contemplação enraizada com o rural, abordagem recorrente de temas religiosos, planos-abertos/planos-fechados de natureza-morta e dessa relação promíscua com o ambiente, o sexo como ato mecânico e primitivo, e um silencio que tende ao reflexivo quando na verdade é apenas um silencio (talvez, por não ter o que dizer). Um filme de mau-gosto por excelência, partindo de uma adolescente gótica numa região francesa pacata e esquecida. Ela nutre uma grande paixão por um sujeito enigmático, diabólico, alguém que faz sua própria lei (resumindo Dumont traz o personagem de À Espera de um Milagre para esse universo onde ele pode brincar de Deus e escolher quem merece ou não os destinos), uma espécie de Escolhido, que preza pelo asqueroso e ainda consegue causar uma estranha atração feminina. Uma repetição exaustiva de crueldades entre caminhadas pela vegetação local, o vazio pelo vazio.