Neve Negra

Nieve Negra (2017 – ARG) 

Filme após filme, é impressionante a capacidade de Ricardo Darín em mobilizar público, dentro do circuito de cinema nacional, não importa seja um drama, um thriller, uma comédia ou um melodrama. Afinal, esse segundo filme do diretor Martín Hodara nem devesse ser digno de nota, pois não foge do esquema de uma “reviravolta” para mexer com o público, e claramente se estabelece como o grande mote do filme.

O irmão ermitão (Darín), que vive na Patagônia, é procura pelo outro irmão (Leonardo Sbaraglia) a fim de aceitar a venda de um negócio da família. Pouco a pouco, o roteiro tenta construir as razões do distanciamento, a tragédia do passado, e a aspereza com que o sujeito isolado do mundo age com qualquer ser humano. Mesma a coragem em tratar um assunto tabu, no grande momento da virada da trama, apresenta ser um OVNI dentro de uma narrativa tão sedimentada em suas bases de didatismo em tom de tragédia sulamericana.

Truman

trumanTruman (2015 – ESP/ARG)  estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Eis o grande vencedor da última edição dos prêmios Goya (filme, ator, ator coadjuvante e etc). Trata-se de outro filme bastante masculino do diretor Cesc Gay. O que os Homens Falam era uma comédia de costumes masculinos, bem ruim por sinal. E neste novo trabalho, Gaye repete parte da fórmula, e dois dos atores desse filme anterior (Ricardo Darín Jávier Cámara).

Eles são os dois amigos inseparáveis à procura de uma família adotiva para o cão de Julian (Darín) que está com câncer em estágio avançado. O mote das despedidas e outras crises sentimentais pessoais, ou de pessoas próximas, é bastante óbvio. É um filme carregado de melancolia, de olhares adocicados e trilha sonora tranquila, enquanto assiste a essas despedidas, pequenos acertos de contas, e comportamentos amáveis do galã de teatro que vem o fim próximo. O resultado é outro filme de pobreza cinematográfica, calcado apenas nesse contar uma história para emocionar.

Relatos Selvagens

relatosselvagensRelatos Salvajes (2014 – ARG) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Imensa maioria do público brasileiro quer mesmo saber do novo filme com Ricardo Darín, mas, além dele há muito mais na volta do diretor Damián Szifron. Uma comédia debochada, por oras tola (Tempo de Valentes e El Fondo Del Mar, suas comédias anteriores já pecavam pelo ingênuo), regada a sangue e violência. O tema é vingança, seis pequenas histórias que dialogam pelo tema, além carregado tom humorístico. Szifron busca situações do cotidiano, exemplo disso é a história em que Darín é o protagonista, e enlouquece pela burocracia e os desmandos do serviço de multas de trânsito de Buenos Aires.

Brigas de trânsito, provocações, ressentimentos do passado que explodem como um barril de pólvora. Szifron eleva as situações à máxima potência, extrai do público gargalhadas ao expor nossos comportamentos caricatos. É a nossa selvageria levada à última consequência, apenas com uma roupagem agradável para uma sessão de cinema (em grupo melhor ainda, as risadas contagiam), e nem nos damos conta do quanto de nós está representado naqueles personagens. A hilária festa de casamento que se torna um pesadelo, Szifrón extravasa pelo sádico, pelo humor negro, um diálogo fácil com o público, personagens vivem seus “dias de fúrias”. O diretor argentino joga fácil para a torcida.

O Mesmo Amor, a Mesma Chuva

omesmoamoramesmachuvaEl Mismo Amor, La Misma Lluvia (1999 – ARG) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Um ponto interessante da vida cinéfila é visitar trabalhos anteriores de cineastas que, de alguma forma, chamaram atenção. Juan José Campanella é um desses casos, se O Filho da Noiva o consagrou, e O Segredo dos Seus Olhos reafirmou seu talento com dramalhões eficientes e emocionantes, sempre tendo como pano de fundo momentos históricos argentinos emblemáticos, este filme foi o degrau anterior na escada de sua fama.

Campanella já colecionava outros longas e trabalhados prestigiados na tv, até contar essa história que percorre duas décadas da vida de Jorge (Ricardo Darín) e Laura (Soledad Villamil). Anos 80 e 90 argentinos, crises financeiras, golpes militares, Guerra das Malvinas, o governo Menem. Pela redação de uma revista se passam as mutações políticas, Campanella tenta tratar do drama (romântico e açucarado, ao seu jeito), euquanto resgata uma espécie de verdade Argentina que precisa ser divida co o mundo.

Seus personagens riem e choram, amam e odeiam, se entusiasmam por causas ou aagem de acordo com seus escrúpulos. O resultado é bastante irregular, realmente torto, Campanella não consegue costurar esse emaranhado de temas complexos. Sua visão de amor romântico é ingênua e doce, em contrapartida as críticas políticas parecem quase entusiasmadas. Nesse desequilíbrio de caráteres e confortos financeiros, Campanella tenta decifrar a vida e as imperfeições humanas que geram reações capazes de aproximar ou afastar, sejam amigos, sejam amores.

O que os Homens Falam

oquefalamoshomens

Una Pistola en Cada Mano (2012 – ESP) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Como é ser homem, atualmente, e viver na faixa dos 40 anos? Que tipos de aflições e medos, dramas e dúvidas, qual o conforto financeiro e as relações amorosas que vivem? Aquele clima de filme coletivo, estilo Paris, Te Amo, com histórias curtas, um quê de comédia, e um elenco de chamar a atenção.  Se o filme não sofre da uniformidade resultante da mão de vários diretores, o cineasta Cesc Gay pouco de interessante consegue agregar, seja pelas histórias banais e nada inspiradas, seja pela abordagem primária.

oquefalamoshomens2Dos que voltaram a morar com os pais, aos que tentam uma escapadinha fora do casamento, ficamos mais atentos apenas à aparição de Javier Cámara na agridoce história do homem que se divorciou e tenta reatar com sua esposa. E, principalmente, ao encontro de Ricardo Darín e Luis Tosar, o traído que seguiu a esposa à casa do amante e o amigo que confunde o nome das namoradas e do cachorro. As demais são muito apagadas, e pecam por um grau de veracidade sem brilho, como se fossem histórias que sequer merecessem serem contadas. Os 8 homens não representam a gama masculina dessa faixa etária, e nem conseguem trazer vidas pitorescas ao público.

Elefante Branco

Elefante Blanco (2012 – ARG)

O prédio, abandonado há décadas, se tornou o elefante branco invadido por sem-tetos. Ao seu redor nasceu uma favela, e como sabemos, onde há favela, normalmente há marginalização, tráfico, problemas sociais. Sob a ótica de dois padres e uma assistente social, o filme resgata não só o cotidiano dessa região de Buenos Aires, como a relação entre pessoas engajadas na melhoria da situação dos que ali vivem e as dificuldades do caminho.

É um Cidade de Deus sem a pegada pop e o virtuosismo estético, os padres (Ricardo Darín e Jérémie Renier) vivem dilemas pessoais e profissionais. A construção patrocinada pelo episcopado não vai, os funcionários nunca recebem salários. Alguns personagens coadjuvantes mostram bem a guerra do tráfico, como os jovens acabam no mundo marginal. Trapero aparece aqui e ali com alguns plano-sequencias belos, os padres cruzando a favela e conversando sobre a situação do local, a câmera os acompanha, num trabalho cirurgico.

Porém, o filme se apega demais a todos os seus temas, qual a importação de um padre europeu que se envolve de forma “carnal” com uma mulher? Nenhuma para o funcionamento da favela, ou, até mesmo, para o grande tema que seria essa relação entre Igreja e o social, os mecanismos e a vagarosidade da corrupção. O filme tenta provar que mergulhado naquele submundo, qualquer um cria sua própria ética, no final, todos estão em busca de cumprir suas metas, seja o governo, seja a Igreja, seja o traficante protegendo o seu negócio.

Kamchatka

Kamchatka (2002 – ARG)

Visto atualmente, após uma leva de filmes sobre ditaduras militares sul-americanas, inclusive alguns sob os olhos de crianças (como Machuca no Chile e O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias no Brasil) não parece nada fundamental. O tema está gasto, as histórias que sempre merecem ser contadas, até para não nos deixar esquecer dos absurdos hediondos que governos e poder causaram em feridas incicatrizáveis por nossos países, realmente cansaram o gosto do público.

Tentando deixar de lado o desgaste, o filme de Marcelo Piñeyro é apenas corretinho e seguro. Uma história bem contada, sem muitos detalhes, um casal (Cecila Roth e Ricardo Darín) que precisou se esconder da ditadura argentina por ser contra a tomada de poder, e a convivência com os filhos pequenos num lugar escondido, mudando os nomes e vivendo com o medo. Em busca de alguma poesia, o título faz referência ao jogo de tabuleiro War, fica na boa intenção.