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Bernie

Publicado: julho 18, 2013 em Cinema
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bernieBernie (2012 – EUA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Obcecado por filmes falados, discutidos, verborrágicos, Richard Linklater, vira e mexe, está se embrenhando por outros gêneros e tipos de filmes. Sua obra eclética flerta muito com o humor, e novamente trabalhando com Jack Black, ele parte a contar a história de um sinistro sujeito, com um tipo de humor tão delicado que nem pode ser notado.

Bernie é um “cdf” das funerárias. Mostra paixão por todo o processo de um funeral, tratando com carinho sem-igual cada detalhe da cerimônia de adeus. Rapidamente se torna o amor das velhinhas. Linklater e Black são cuidados na construção do personagem, os excessos de Black são mais que contidos, querem conquistar o público com a mesma devoção que a comunidade vibra com o comportamento perfeito de Bernie.

Isso tudo para justificar o que vem a seguir, descobriremos que se trata da história verídica desse sujeito que se envolveu com uma megera rica. Um pulo até o drama de tribunal, aquela figura chata de tão perfeita só vem ao cinema para levantar questionamentos e julgamentos de justiça, Linklater poderia ter ficado num telefilme com essa trama ingênua.

antes_da_meia_noiteBefore Midnight (2013 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Foram mais nove anos de espera sobre o “o que teria ocorrido em Paris com Celine (Julie Delpy) e Jesse (Ethaw Hawke)?” Na Grécia a resposta. O olhar de Richard Linklater continua leve sobre os personagens, acompanhando os dois em conversas durante caminhadas ou dentro de um carro (longa cena sem cortes).

Sobretudo um filme sobre o amor, de uma forma pé-no-chão, como se a maturidade tivesse finalmente chegado aos corações dos dois (nos outros filmes o amor era mais romântico, já os temas debatidos com certo grau de maturidade). Crises, inseguranças, dúvidas, todo o misto de choque de emoções estão presentes nessa longa história de idas e vindas, Celine e Jesse são como nós, um casal de altos e baixos. E adoram argumentar, defendem e atacam, e nisso o texto e o ritmo dos diálogos vão além do maravilhoso, atingem o real.

Nada pode ser mais real do que insinuações, divididas com questões do dia-a-dia, permeadas pela beleza de um local paradisíaco, enquanto falam de trabalho e sexo (e como falam de sexo).  Chega um ponto em que a relação de Celine e Jesse se dissocia de qualquer relação que o público já tenha vivido, por outro lado ela é cada vez mais possível e presente nas memórias e experiências de cada um. Porque eles não passam de pessoas, com individualidades, opiniões, e corações transbordando de emoção. Eles são de carne e osso, amam e brigam e tem dúvidas como nós, são a própria representação de um casal idealizado por uma geração, se filmarem 50 filmes nos emocionaremos 50 vezes.

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escoladerockSchool of Rock (2003 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Descontração, o que mais pode se querer de uma comédia? Qualquer filme que se preze, a fazer o público rir, deveria esbanjá-la. E o que não falta aqui é descontração orquestrado pelo camaleão do cinema americano atualmente, Richard Linklater. A história é bem batida, na verdade é a união de duas ou três velhas histórias, clichês mesmo. Um roqueiro fracassado é demitido da banda, sua vida é a música, e ele planeja montar uma nova banda, só que ninguém está interessado. Ao mesmo tempo, vivendo na pindaíba, precisa descolar uma grana, antes de ser expulso do apartamento que divide com um amigo.

Dewey Finn (Jack Black) finge então ser outra pessoa, e assume como professor substituto numa escola tradicionalíssima, com alunos da mais alta sociedade. Por sorte, Dewey percebe naquelas crianças de dez anos músicos talentosos e decide formar com eles sua nova banda. Ao invés de aulas, ensaios. Ao invés de geografia ou matemática, a história do rock. Durante semanas ensaiam, às escondidas, para que consigam participar de um concorrido concurso de novas bandas de rock.

O clima auto-astral proporcionado por Jack Black e a molecada que o acompanha é o principal ingrediente dessa comédia descompromissada e cativante. A irrealidade da trama é posta de lado, Linklater não nega os clichês. E, por não tentar ludibriar o público, na tentativa de forçar como possível aquilo que não é, o cineasta consegue trabalhar com os clichês a seu favor fazendo deles elementos imprescindíveis no filme, como a configuração da sala de aula com alunos dotados de características específicas e bem pertinentes.

A construção do personagem Dewey é de uma riqueza impressionante, em se tratando de uma comédia desse naipe, passa por leves transformações na história, pequenas coisas que o relacionamento com essas crianças lhe traz. São mudanças palpáveis, possíveis, de egocêntrico e orgulhoso, Dewey passa a integrante de uma equipe, onde usa sua experiência para buscar em cada um o melhor de si. A menina gordinha que se sente envergonhada, o pianista solitário que gostaria de ser “maneiro”, o guitarrista que não consegue extrapolar sua veia musical por ser recriminado pelo pai. Em cada momento desses Dewey doa sua sensibilidade, perdendo aos poucos aquele egocentrismo de sua vida.

Não é de grandes momentos ou risadas incontroláveis, mas com uma trilha sonora recheada de grandes clássicos do rock, músicas da banda com clima gostoso e um Jack Black inspirado em cada segundo, Escola de Rock é diversão garantida do começo ao fim, descontração absoluta.

antesdopordosolBefore Sunset (2004 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Dessa vez Paris é o palco para o reencontro de Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy). O casal que encantou plateias, num romance de um único dia, em Antes do Amanhecer volta às telas após nove anos. Ávidos questionamentos não faltam: o que houve após esses nove anos? Houve o reencontro após 6 meses? Estão juntos ou não? Foram feitos um para o outro? Finalmente as lacunas podem ser preenchidas nesse novo capítulo de um dos casais mais carismáticos do cinema americano.

Richard Linklater e os dois protagonistas se trancaram num hotel por duas semanas, o roteiro foi escrito a seis mãos, tamanho o envolvimento e grau de conhecimento de Hawke e Delpy sobre seus personagens. O clima de amor romântico adolescente é substituído por algo mais maduro. O peso dos anos está inserido em cada diálogo, isso não quer dizer que sedução, desejo, e aquela coisa do coração bater acelerado não façam parte de um conjunto de emoções em plena erupção. Celine e Jesse caminham por Paris, no final de tarde, a cidade se mistura com o diálogo de quase noventa minutos. Os nove anos resumidos em poucos minutos, o maior mérito é trazer maturidade à história, saber pincelar o confronto verbal onde tudo deve parecer real e ao mesmo tempo envolvente. Trabalho, política, desilusões amorosas, o amor tão fugaz e traiçoeiro. Celine e Jesse são politizados, cheios de opinião, tipicamente francesa e americano (respectivamente), mas com uma congruência fundamental que vai do humor até a sensação reconfortante de ter ao lado quem se admira.

antesdopordosol2Uma explosão de emoção dentro de um carro, o pôr do sol navegando pelo rio Sena, um gato fofo e um apartamento irresistível, uma valsa e uma imitação de Nina Simone. Está posta uma das mais fabulosas e românticas sequencias da história do cinema. O coração parece bater junto com o deles, Hawke e Delpy são insubstituíveis, não haveria filme sem eles. Parecem vibrar o que os personagens vivem. O avião está prestes a partir, mas há momentos únicos na vida, que devem ser apreciados a seu tempo, e Linklater foi capaz de nos oferecer um, como se tivéssemos vivido. Normalmente nos sentimentos tão pequenos como plateia, mas nesse filme a sensação é de sermos tão grandes, testemunhas oculares de momentos tão íntimos e deliciosos. Rever esse filme é uma missão obrigatória, um capricho exuberante.