Posts com Tag ‘Ridley Scott’

Alien: Covenant (2017 – EUA)

Realmente deve ser tentador ser o criador, ver seu filho (filme) explodir e tornar vida própria, e anos mais tarde retomar o projeto para contar as “origens”. Afinal, de onde surgiu o “oitavo passageiro” daquele Alien que, em 1979, arrepiou o público num dos melhores sci-fi horror do cinema? Prometheus marcou o retorno de Ridley Scott à franquia que catapultou seu nome, e Covenant é outra tentativa sua de retomar aquele sucesso arrebatador.

E não foi dessa vez, e talvez não ocorra mais. Ridley Scott mudou muito nesses quase quarenta anos, sua filmografia é bem eclética, mas se acostumou mesmo com os grandiosos e frágeis épicos de ação, como Robin Hood e Cruzada. Sua problematização sobre criador x criatura, máquina x humanidade, a perfeição, traz uma lenga-lenga muito aquém daquele show de suspense, imagens tão crus e ângulos de câmera tão inovadores (aspectos marcantes de Alien, o Oitavo Passageiro, que é seu segundo longa-metragem).

Temos de interessante a ideia de astronautas em casal, em busca de um planeta a colonizar. A intersecção com Prometheus se dá no planeta onde vão parar, exatamente onde estava o ciborgue interpretado por Michael Fassbender no capítulo anterior. O filme mais se parece com um Godzila ou Jurassic Park espacial, bem genérico, que carrega a áurea daquele Alien que causava tantos calafrios. Scott precisa tornar tudo grandioso, épico, dai sua necessidade de problematizar a questão da Criação, desembocando nos trinta minutos finais de tantas explicações e reviravoltas clichês.

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Êxodo: Deuses e Reis

Publicado: dezembro 24, 2014 em Cinema
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exodoExodus: Gods and Kings (2014– EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

De carona nas diversas versões, e discordâncias, da vida do personagem bíblico Moisés (Christian Bale), o cineasta Ridley Scott apresenta mais um de seus filmes épicos, de cenas majestosas e grandiosas. A primeira metade é enfadonha, a relação fraternal entre Moisés e o futuro faraó do Egito Ramsés (Joel Edgerton) carrega a narrativa de sequencias e diálogos que sofrem de uma dramaticidade emplastada.

O filme entra no ritmo quando Moisés descobre sua origem, vai viver como pastor numa zona rural, até Deus (na figura de um menino) lhe pedir que ele comande a libertação do povo Hebreu (escravos dos egípcios). Quando surgem as 10 pragas que o 3D mostra a que veio, a invasão de insetos, sapos, dá dimensão do horror, da fome, do desespero.

Por mais que Deus esteja nos diálogos, nas aparições, Scott e sua equipe suavizam sua presença, sua adaptação livro bíblico traz elementos da ciência, ou possibilidades menos “espetaculares” dos fatos. Principalmente na abertura do Mar Vermelho, o cajado é substituído pela espada, Moises como um verdadeiro soldado, maas é espetacular toda a sequencia de perserguição e cruze do Mar Vermelho. Seja na força das armas, na chegada das bigas egípcias, na abertura das águas.

É novamente a necessidade de tornar fatos históricos em filme de ação, ou personagens não necessariamente dessa estirpe, ainda assim Scott entrega um produto que utiliza bem todas suas escolhas, licenças poéticas, e se aproveita dos recursos técnicos em prol do cinema, mesmo que tudo isso fique concentrado na hora final desse filme quase interminável.

Prometheus (2012 – EUA)  

Depois de mais de 30 anos e uma saga de 4 filmes, Ridley Scott (que dirigiu apenas o primeiro) volta aos extra-terrestres cheios de gosmas e loucos para aniquilar com os humanos. Dessa vez ele traz um prelúdio, fatos que vieram antes do famoso Alien. O filme começa uma espécie de “teoria” de que os extra-terrestres criaram os humanos e tornaram o planeta Terra habitável. Uma expedição embarca na nave Prometheus em busca de respostas.

Estamos diante dos questionamentos filosóficos sobre a origem da vida (o filme também toca muito no tema sexo e maternidade), se bem que a balela “intelectual” fica guardada aos que desejem realmente mergulhar nas teorias. Scott está mesmo interessado em abrir mil portas que o filme não as feche, e assim, obter espaço para novas continuações. O clima de suspense que foi o diferencial de Alien volta a funcionar muito bem aqui, por mais que se possa ter milhões de perguntas a respeito (como, por exemplo, porque com tanto lugar naquele planeta para se conhecer eles foram parar exatamente naquela “caverna”?).

De fato, a primeira metade é bastante interessante, as pequenas descobertas, o medo pelo desconhecido, a curiosidade, Ridley Scott deixa o público no ponto certo, sedento por saber o que é aquele líquido preto ou quando apareceram os primeiros seres vivos naquele lugar? Logo a seguir tem início a fase de filme de ação, e nesse ponto, por mais que as cenas de apuro técnico sejam impecáveis, voltamos a cair na vala comum dos filmes de salvação do mundo. Personagens mal-desenvolvidos (o capitalismo de alguns deles é algo, no mínimo, desnecessário), uma nova heroína (Noomi Rapace) de lingerie, e cenas de uma maratona física que atletas de decathlon não sobreviveriam (se bem que a cena da cirurgia é sensacional).

Quando o filme mergulha no desconhecido, na mística, sempre que há conteúdo, o caldo da sopa fica bem mais apetitoso.  Quando ele está apenas reciclando ideias velhas (suas ou de outros filmes, de 2001 a Independence Day), não passa de entretenimento puro e simples como qualquer outro filme menos grandioso. Michael Fassbender, o ator do momento, já que ele está em todas, interpreta um não-humano, na fase final do filme ele guarda uma interpretação inusitada, se antes ele já abusava com uma interpretação-homenagem a Peter O`Toole (citações de Lawrence das Arábias), dali em diante temos um a prova de um ator que pode trabalhar com “poucos recursos”.

Blade Runner

Publicado: dezembro 3, 2005 em Cinema
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Blade Runner (1982 – EUA) 

Engraçado como se pode criar uma imagem sobre um filme na cabeça, e ela ser tão diferente da realidade. Foi o meu caso com relação a esse clássico da ficção científica, filme cult dos anos 80. Expectativa de um filme frenético, de cenas alucinantes de perseguição e caça aos androides. Que nada, é um filme lento para os padrões do gênero, e que cultua questões filosóficas do tipo: quem somos, de onde viemos? Ridley Scott vinha do sucesso de Alien, mas naufragou nas bilheterias com essa adaptação de um livro de Phillip K. Dick. O tempo o tornaria um filme tão cultuado.

Influências estéticas e previsões futuristas, Deckard (Harrison Ford) é um caçador de androides, uma espécie de policial. Seu estilo de se vestir, referência aos filmes noir da década de 50, rivaliza com o aspecto underground, de submundo, da Los Angeles em 2019. A decadência total das metrópoles superpopuladas, um mundo quase apocalíptico. A chuva torrencial e incessante, moradias esquizofrênicas, a referência a Metrópolis de Fritz Lang é fácil.

A grande sacada, talvez o motivo da adoração ao filme, não está no clima futurista, nem no blade runner quase emotivo de Ford, nem nos efeitos especiais.  O clima sombrio, o pessimismo, ainda que venham amenizados por uma narração em off bem didática, auxiliam no clima que levanta as tantas questões filosóficas. Os androides sobrevivem apenas quatro anos e é isso que eles buscam, aumentar seu tempo de vida. São robôs extremamente humanizados, com sentimentos, sensações e até recordações de infâncias que não viveram. Eles lutam para viver mais, discutem as questões filosóficas já citadas, e aí Rutger Hauer dando seu show, e roubando complementa a cena. No ápice, a câmera é centrada em Hauer, seus olhos azuis, sua cara de desilusão, seu discurso no melhor estilo “penso, logo existo”, é nesse momento que o filme deixa de ser uma simples ficção científica. Não seria certo afirmar entusiasmo pelo filme, mas há em Blade Runner algo mais do que as atuais sci-fi que não passam de meros filmes de ação camuflados por ideias futuristas.

Alien (1979 – ING) 

Veja o olhar penetrante, assustado e concentrado de Sigourney Weaver. Sem dúvida, umas das características mais marcantes da franquia, e que transformou Ripley nessa heroína de carne, osso e determinação. Era apenas o segundo longa-metragem de Ridley Scott, mas o bastante para torna-lo um dos nomes mais conhecidos do cinema nas últimas décadas.

Uma nave-cargueira carregando toneladas de minérios de ferro, o aspecto sujo, a predominância dos tons escuros, tudo auxilia para o clima de horror espacial que o cineasta articula com precisão. Da aterrisagem num planeta desconhecida, os sete tripulantes ganham a visita de alienígena hostil. A primeira sequencia em que o alien sai da barriga de um dos membros da tripulação já dá a medida correta do que se pode esperar do restante do filme. A luta pela sobrevivência contra o desconhecido.

Scott combina a mistura de ficção científica com horror em sequencias de tirar o folêgo, que se tornam ainda mais contundentes sejam pelos close-up’s ou nos enquadramentos em plano aberto (como no laboratório) com a perspectiva desde o chão da nave. Fica tudo maior, mais tenso, além desse aspecto rustico, a edição ágil e cru. Ripley realmente inesquecível de uma obra-prima que não envelhecerá jamais.

falcaonegroemperigoBlack Hawk Down (2001 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Ridley Scott parte para o cinema verdade. O exército americano intervindo durante a Guerra Civil na Somália. Uma operação preparada para prender dois líderes da guerrilha, toda a operação não deveria durar mais que uma hora. A resistência acaba sendo mais eficiente do que se esperava, dois helicópteros são abatidos e a luta para salvar os soldados dura mais de quinze horas pelas ruas da cidade. Saldo de dezenove americanos e centenas de somalis mortos. Scott gravou seu filme como um documentário in loco, acompanhando a guerra real. As cenas são duras e sangrentas, a fotografia escura e os uniformes confundem um pouco os soldados, o ritmo alucinante vem da câmera na mão, tremendo sem parar. Pequenos becos, o medo do ataque inimigo.

Há os toques de sentimentalismo e patriotismo americano, afinal é um filme de Ridley Scott. O elenco, uma constelação de promissores astros (Eric Bana, Josh Hartnett, Ewan McGregor, Orlando Bloom). Soldados encurralados enquanto os somalis lutam por um pouco de comida, pela situação tão precária de seu país. Os três soldados perdidos até trazem um ar cômico, mas o ritmo é mesmo de metralhadoras disparando, e ferimentos que doem no público de tão “reais”.