Posts com Tag ‘Robert De Niro’

caminhosperigososMean Streets (1973 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

E assim surgia a faceta de Martin Scorsese que mais conheceríamos, o cineasta da máfia, das gangues de Nova York. Conhecia Little Italy como ninguém, foi lá que Scorsese cresceu, e foi sob suas lembranças que ele criou o filme que impulsionou seu nome à indústria do cinema. Repleto de malandos, deboches, violência, pequenos golpes. Religião, família, os pilares da sociedade são os grandes dilemas vividos pelo mafioso Charlie (Harvey Keitel). Namoro escondido, as visitas à Igreja, e o trabalho como coletor para o tio (chefão da máfia).

Foi a primeira parceria de Robert De Niro e Scorsese, ele faz o garoto problema que atrapalha ainda mais a vida de Charlie, mas a alma do filme é Keitel e a vida noturna de Little Italy. Os letreiros luminosos, cigarros, ternos, cédulas de dólares amassadas, e a urgência com que Scorsese explora a vida notuna. São morcegos elegantes, sanguessugas desequilibrados, que ainda carregam os pilares aprendidos dos antepassados italianos. O roteiro leva os personagens pelos tais “caminhos perigosos”, Scorsese dá sinais de um estilo vibrantes prestes a nascer, personagens tortuosos, brigas marginais, cortes bruscos entre planos-sequencias vivos e closes rápidos. E o humor escroto de quem está prestes a sacar sua arma e disparar no primeiro engraçadinho que cruzar à sua frente.

joyJoy (2015 – EUA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

E lá vem David O. Russel novamente. E com ele, as famílias disfuncionais e as discussões extravagantes, e o mar de problemas e intolerâncias que só a total dependência familiar mantém todos unidos, no mesmo teto. E também a trilha sonora pop e empolgante, e os planos-sequencias de personagens caminhando com estilo, aquela combinação que atrai empatia imediata do público. E tantos outros cacoetes de um cinema sub-Scorsese. O diretor continua contando variações da mesma história, com seu grupinho de atores que só diferenciam cortes de cabelo e figurinos estilosos.

Ultimamente, todos os filmes com assinatura de Russel já surgem como grande favoritismo ao Oscar, aos filmes mais esperados do ano. E dessa vez, a reação geral foi de fracasso, emplacando apenas indicação para Jennifer Lawrence. E é quem carrega todo o peso do mundo sob as costas, o cerne da tragédia pouca é bobagem. Afinal, são tantos dramas familiares, entre crises financeiras e brigas recorrentes, que o leitor precisaria de um lenço para ler toda a sinopse.

Joy é joguete perfeito para vender a América das oportunidades, e Russel vende perfeitamente este estereótipo. Primeiro a joga na lama, para despois, a partir de sua própria capacidade e simplicidade, colocaria novamente no ringue, pronta para briga rumo ao sucesso. É uma artimanha bem barata para conquistar o público, e em algum momento você também será conquistado por essa “ coitada lutadora”. Trilha incidental emocionante, frases de efeito como “eles são o melhor casal divorciado da América”, está cada vez mais difícil de engolir seus fimes.

oreidacomediaThe King of Comedy (1982 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Histeria, multidão se debatendo, o desespero por um autógrafo. Fãs desesperados aguardando a passagem do comediante Jerry Langford (Jerry Lewis) pela saído do teatro. Martin Scorsese prepara sua s átira ao mundo do showbizz e do culto aos famosos. É um novo Taxi Driver, outro personagem com seu quê violento, mas dessa vez muito mais racional e meticuloso. E outra parceria entre Scorsese e Robert De Niro, na fase mais prolífica da dupla.

Rupert Pupkin (Robert De Niro) decidiu que tem talento para ser o rei da comédia, e com sua persistência irritante parte em busca de seu sonho. Scorsese e De Niro mantém Pupkin ultrapassando o limite do irritante, ingênuo e tímido, mas nada que o impeça de passar como um rolo compressor por seus obstáculos. O roteiro é meticuloso em construir relações e situações que correspondam perfeitamente ao grand-finale, o monólogo onde finalmente descobrimos o tipo de humor de Pupkin. Até lá, ele tem suas frustrações amorosas, a invasão de privacidade de seu ídolo, a amizade com a maluca Masha (Sandra Bernhard), e o fortalecimento de sua obsessão capaz de leva-lo ao sequestro de Jerry.

Os vinte minutos finais são sensacionais, quando filnalmente Scorsese coloca em prática tudo que havia preparado. Do longo plano-sequencia de Pupkin nos bastidores da tv à efetivação da brilhante sátira aos interesses corruptos do mundo do entretenimento. Mas antes, Scorsese já brincava com a montagem, com passado e presente, não escondendo os fins, uma forma de dar ainda mais relevância a essa reta final.

fogocontrafogoHeat (1995 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Tenho essa leitura de que o gênero “filme policial” veio ocupar a lacuna deixada pelo Western. Espécie de atualização do gênero para esse novo ambiente urbano que se formou com o desenvolvimento. Eles continuam durões, empunhando armas, normalmente em caçadas entre vilões e o mocinho. Nesse critério de western atualizado, Fogo Contra Fogo nasceu clássico. Michael demorou anos entre o primeiro roteiro que escreveu, e finalmente filmá-lo a contento. Tentou que outro diretor encabeçasse o projeto (quando seu nome ainda não tinha o peso), tentou tranformá-lo numa série de tv (dessa ideia saiu L.A Takedown), e finalmente voltou ao proeto, com orçamento e dois dos maiores astros: Al Pacino e Rober DeNiro.

A trama foi baseada numa história real, um policial de Chicago, nos anos 60, que viveu uma caçada contra um criminoso meticuloso. Em quase três horas, Michael Mann é meticuloso em construir a relação de rivalidade/admiração entre policial (Pacino) e chefe da quadrilha (DeNiro). Lados opostos, personagens que se assemelham, seja na solidão, seja na adrenalina de perigo que os contamina, ou na integridade de sua integridade.

fogocontrafogo2Como uma panela com água no fogo, a fervura com que o policial aproxima-se na caçada de seu alvo torna o filme um labirinto que encurrala a quadrilha, enquanto isso, suas vidas seguem. Cada um deles tem seus laços afetivos: mulheres, filhos, família. As vidas não param no tempo, seguem simultaneamente, e Mann dá cabo dessa teia de relações complexas e problemática com alguns destes personagens. Dessa forma desenvolve frentes, constrói camadas e mais camadas, são mágoas e frustrações. Casamentos se acabando, outros em crise, amores surgindo. A vida náo para, as inventigações seguem, os planos de um novo assalto também.

A elegância com que filma a cidade: noturna, as luzes. A explosão que o policial carrega em sua vida (a cena em que ele leva a tv embora, por exemplo), são pequenos peticos deixados por Mann, enquanto prepara o público para as grandes cenas, tiroteios e perseguições em que o cineasta destila seu estilo, alucina com essa elegância transformada numa violência romântica. Cenas de tirar o fôlego, e ainda tão plasticamente bem planejadas, O embate num café, o plano e contra-plano, cada um desvendando seu oponente, o assalto ao banco e as perseguição nos minutos finais. O novo western, um clássico desde sua concepção.

ofrancoatiradorThe Deer Hunter (1978 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

A brutalidade da antológica sequencia de roleta russa, com vietnamitas se divertindo com soldados americanos capturados, é um dos momentos mais aterrorizantes que carrego na memória, desde criança. Inesquecível como Michael Cimino costura toda a cena com Michael (Robert de Niro) e Nick (Christopher Walken) à flor da pele, entre a loucura e a paura de enfrentar a morte, de frente. São momentos atordoantes, enlouquecedores, é a guerra diante de nossos olhos, sem glamour, em sua mais pura violência.

O roteiro da cabo do antes, durante e depois da Guerra do Vietña, praticamente um glossário das mutações causadas nos sobreviventes. Amizade, reconstrução de vida, infidelidade, instinto de sobrevivência, culpa, loucura. Sob a ótica de um grupo de amigos, Cimino constrói a irregularidade desses jovens que se divertem em casamentos e bebedeiras, divertem-se caçando na mata como numa terapia masculina, carregam o nacionalismo reluzente e o orgulho de servir o exército, enquanto deixam namoradas/esposas em casa. São dilemas, dúvidas, Cimino captando todas as inconsistências humanas.

No foco Nick, Michael, e Steven (John Savage), além de Linda (Meryl Streep), os caminhose seguidos por cada um, no pós guerra, traçam o retrato dos fragmentos dessa geração americana totalmente influenciada pelos horrores vividos. O emblemático reencontro de Michael numa caçada é a tradução precisa da irregularidade que ficará marcada em cada um daqueles meros trabalhadores de indústrias siderúrgicas.