Posts com Tag ‘Robert DeNiro’

trapacaAmerican Hustle (2013 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Você dá uma olhada no trailer, nas fotos de divulgação e tem a sensação que David O. Russel realizou um filme cool. A pose ao andar de Christian Bale e Amy Adams (ótimos, mais uma vez), os figurinos lindíssimos, anos 70, a trilha sonora, tudo. Impressão cairá por terra em poucos minutos.

Russel não é Martin Scorsese, mas tenta ser (até DeNiro volta à tona para auxiliar nessa missão). A trama policial lembra, um pouco, os filmes de mafiosos de Scorsese. Entretanto, Russel é puritano, convencional ao extremo, não permite que a sexualidade desabroche naturalmente, ou que o universo golpista dos protagonistas seja romântico (ao menos). Ele julga, condena, e seus personagens estão lá, vivendo em crise com a mulher (Jennifer Lawrence histérica), e completamente amordaçados pelo envolvimento com a polícia (Bradley Cooper).

trapaca2Falta frescor, falta inspiração. É tudo muito lindo de se olhar, mas enfrentar as mais de 2 horas de filme parecem um martírio interminável com tantos diálogos frouxos e romances mal arranjados. Russel ainda tenta manter a verborragia de seus trabalhos anteriores, até a presença de uma família grande, com aquele bando de irmãos tontos é tímida. E por essa insistência que o diretor cria suas próprias amarras, cheio de papos chatos e pretensiosos de falsos falastrões.

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oladobomdavidaSilver Linings Playbook (2012 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

David O. Russel emplaca mais um filme com muitas indicações ao Oscar, mas as relações entre o trabalho anterior e este são tantas, que o que parece criativo e inventivo, na verdade, é apenas reciclagem com nova roupagem.  Comédia romântica com gente louca e diálogos metidos a espertos, com toques de paixão por futebol americano e a obsessão por reconstruir uma relação (que o próprio fato gerador mostra que andava fracassada).

O filme se esforça com cenas de diálogos explosivos e outros momentos engraçados. Russel consegue divertir o público, até que se possa refletir dois seguindos sobre tudo aquilo e perceber o quão impossível são discussões daquele tipo (ainda mais em se tratando de dois “desequilibrados em processo de tratamento psiquiátrico”). E quando os personagens começam a ser mais elaborados e as semelhanças com O Vencedor se tornam mais nítidas, é que pode-se perceber que não há nada novo ali, ele está refilmando seu trabalho anterior, com família problemática, e todos os elementos básicos de um filme do gênero.

Raging Bull (1980 – EUA)

Tentando se livrar das drogas, enfrentando uma ferrenha crise conjugal, e logo após um retumbante fracasso nas bilheterias, Martin Scorsese não passava pelos melhores momentos de sua vida, porém Robert DeNiro insistiu, bateu o pé, queria Scorsese na direção dessa biografia do boxeador Jake La Motta, que acima de tudo, é um filme sobre ascensão e destruição de uma carreira e da própria vida. Resumindo, La Motta e Scorsese tinham muito mais em comum do que se poderia suspeitar.

O Touro do Bronx, como era chamado, agia instintivamente, quase como um animal (mesmo que em uma das cenas mais emblemáticas e dramáticas do filme, ele murra a parede dizendo não ser um). Teimoso e íntegro, ciumento, intempestivo, um prato cheio para Robert DeNiro triunfar com esse personagem tão cheio de nuances e momentos ora explosivos, ora românticos (dentro do que se poderia esperar de um boxeador nas décadas de 40-50).

A fotografia em preto e branco dando a impressão de suja e diminuindo o impacto dos rostos marcados por sangue e hematomas, o virtuosismo do diretor (marcantes as cenas do sangue pingando por entre as cordas, ou o plano-sequencia acompanhando o boxeador cruzar o corredor que liga os vestiários ao ringue), Scorsese busca a mesma violência com que La Motta explode em cada ciúmes absurdo, em cada comportamento explosivo que ecoa no fim inevitável de sua carreira e vida.

Mesmo com tudo isso, não nada além dessa vontade de fundir filme e personagem, as cenas de boxe e seus enquadramentos realistas parecem chupados do filme De Corpo e Alma de Robert Rossen. Fora isso temos a eterna luta do mocinho que tenta se desvencilhar dos braços da máfia, e a capacidade nata de destruir completamente uma vida por um comportamento exaustivamente insuportável. E ainda as atuações femininas apagadas, principalmente a passiva (em cena) Cathy Moriarthy que não vai além de um rosto bonito e uma presença física (mesmo que sem sex-appeal).

Já no fim, um monólogo, Jake La Motta gordo, sozinho, fala com o espelho relembrando Sindicato de Ladrões, sua vida está resumida ali e não nos duelos emocionantes contra Sugar Ray Robinson no ringue (um dos maiores boxeadores do mundo e que nunca o derrubou).

Não sou o maior fã do filme, nem está no meu Top 5 dos filmes de Martin Scorsese, mas Taxi Driver é Taxi Driver, um clássico cult, filme que marcou época. E com cópia restaurada, sessão que não daria para perder… afinal esse é Travis Bickle, o cara que convida uma loira estonteante ao cinema e escolhe um filme pornô sueco. “You talkin’ to me?”

Travis Bickle: [Travis is trying his guns on the mirror]
Huh? Huh?

[Draws]

Travis Bickle: Faster than you, fucking son of a…
Saw you coming you fucking… shitheel.

[Reholsters]

Travis Bickle: I’m standing here; you make the move.
You make the move. It’s your move…

[Draws]

Travis Bickle: Don’t try it you fuck.

[Reholsters]

Travis Bickle: You talkin’ to me? You talkin’ to me?
You talkin’ to me? Then who the hell else are you talking… you talking to me?
Well I’m the only one here. Who the fuck do you think you’re talking to? Oh yeah? OK.

[Draws]


Iris: God, you’re square.

Travis Bickle: Hey, I’m not square, you’re the one
that’s square. You’re full of shit, man. What are you talking about? You walk
out with those fuckin’ creeps and low-lifes and degenerates out on the streets
and you sell your little pussy for peanuts? For some low-life pimp who stands
in the hall? And I’m square? You’re the one that’s square, man. I don’t go
screwing fuck with a bunch of killers and junkies like you do. You call that
bein’ hip? What world are you from?


Travis Bickle: You’re a young girl, you should be at home. You
should be dressed up, going out with boys, going to school, you know, that kind
of stuff.


Travis Bickle: I think someone should just take this city and
just… just flush it down the fuckin’ toilet.


Travis Bickle: The days go on and on… they don’t end. All my life
needed was a sense of someplace to go. I don’t believe that one should devote
his life to morbid self-attention, I believe that one should become a person
like other people.


Personnel Officer: How’s your driving record? Clean?

Travis Bickle: It’s clean, real clean. Like my
conscience.


Travis Bickle: All the animals come out at night – whores, skunk
pussies, buggers, queens, fairies, dopers, junkies, sick, venal. Someday a real
rain will come and wash all this scum off the streets. I go all over. I take
people to the Bronx, Brooklyn, I take ‘em to Harlem. I don’t care. Don’t make
no difference to me. It does to some. Some won’t even take spooks. Don’t make
no difference to me.


Wizard: Look at it this way. A man takes a job, you know? And that job – I mean,
like that – That becomes what he is. You know, like – You do a thing and that’s
what you are. Like I’ve been a cabbie for thirteen years. Ten years at night. I
still don’t own my own cab. You know why? Because I don’t want to. That must be
what I want. To be on the night shift drivin’ somebody else’s cab. You
understand? I mean, you become – You get a job, you become the job. One guy
lives in Brooklyn. One guy lives in Sutton Place. You got a lawyer. Another
guy’s a doctor. Another guy dies. Another guy gets well. People are born,
y’know? I envy you, your youth. Go on, get laid, get drunk. Do anything. You
got no choice, anyway. I mean, we’re all fucked. More or less, ya know.

Travis Bickle: I don’t know. That’s about the dumbest
thing I ever heard.

Wizard: It’s not Bertrand Russell. But what do
you want? I’m a cabbie. What do I know? I don’t even know what the fuck you’re
talking about.

Travis Bickle: Maybe I don’t know either.


Personnel Officer: So what is it? Why do you want to be a
taxi driver? Do you need a second job? Are you moonlighting?

Travis Bickle: I… I just want to work long hours. What’s moonlighting?


Travis Bickle: Loneliness has followed me my whole life,
everywhere. In bars, in cars, sidewalks, stores, everywhere. There’s no escape.
I’m God’s lonely man.


Passenger: [to Travis] You see that window with the light? The one closet
to the edge of the building? you know who lives there? Of course you don’t know
who lives there, but I’m saying “Do you know who lives there?” A
Nigger lives there, and that isn’t my apartment. My wife is in there and… I’m
gonna kill her.

[laughs]

Passenger: I’m gonna kill her with a .44 Magnum.

Cape Fear (1991 – EUA) 

Max Cady (Robert De Niro) foi preso por estupro e agressão, passou quatorze anos num e lá, autodidata, se tornou culto e seu próprio advogado. Na época em que foi julgado, o defensor público de seu caso foi Sam Bowden (Nick Nolte), cujo comportamento não foi exatamente condizente ao seu juramento, uma espécie de pré-julgamento de seu cliente. Sedento por vingança, Max dá início a um jogo psicótico de perseguição e ameaça à Sam e sua familia (esposa e filha adolescente.

Era um projeto bem pessoal de Robert DeNiro, que Steven Spielberg iria dirigir, mas por conflitos na agenda, a dupla convenceu a Martin Scorsese a encabeçar esse remake de Círculo do Medo. Scorsese imprime seu jeito autoral, com apreço pela violência, enquanto busca recriar a narrativa e o clima do cinema de gênero dos anos 60. É curioso a linguagem, os cortes secos nos close-ups, a trilha sonora. Por outro lado, o suspense que transforma o vilão num supervilão indestrutível, sempre um passo à frente, chega até ultrapassar o exagero (que o dia a sequencia no barco).

Ainda assim, há muitos destaque no filme, da interpretação visceral de DeNiro, passando pela estreia de Juliette Lewis no cinema como a Lolita que entra no jogo erótico com o estuprador, mas também essa construção do advogado que busca em atitudes nada ortodoxas uma maneira de se defender, um lado vilão despertado que coloca em discussão o quanto somos corretos sob pressão.

opoderosochefao2The Godfather: Part II (1974 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Lealdade é a palavra de ordem da saga dos Corleone. Ela está acima dos interesses comerciais, dos sentimentos. É a lealdade que move as decisões, dá credibilidade e camufla outros erros. Tudo pode ser perdoado, exceto a falta dela. O segundo capítulo da saga marca a consolidação de Michael (Al Pacino) como o chefe da família Corleone, colocando sua maturidade à prova entre tantos interesses individuais, dentro e fora do clã. O diretor Francis Ford Coppola materializa a lealdade como figura máxima, partindo de duas frentes: a nova configuração da família Corleone, sem o pai; e o flashback da migração de Vito (Robert De Niro) para os EUA, e seu início no mundo do crime.

Cassinos e hotéis, investimentos em Cuba (concomitantemente com a revolução de Fidel prestes a explodir), as insatisfações dos aliados que querem mais poder, novas conspirações do mundo máfia e o governo investigando os negócios da família Corleone. Michael enfrenta crises, sua liderança com pulso firme é contestada. As crises matrimoniais com Kay (Diane Keaton). Coppola não se cansa de planos fechados no rosto de Pacino, no auge o ator corresponde com o peso do amargor e a necessidade de ser firme. É um filme com menos sangue, porém muito mais sentido.

De outro lado, a ascensão de Vito Corleone, a fuga da Itália, os tempos difíceis em Nova York, os primeiros assaltos, até outra antológica cena: a morte de Fanucci (Gastone Moschin), com a arma enrolada numa toalha, a vingança que corre pelas veias. Novamente a lealdade de pé, à família, à honra, lealdade aos seus, mas principalmente aos princípios que regem as famílias italianas.

A segunda obra-prima de Coppola é de uma densidade nebulosa, a abertura, com a cadeira marcada pelo uso, após um respeitoso beijo na mão do Padrinho, são detalhes, cenas que representam pela força do silêncio, pelo peso que Coppola sabiamente carrega. O beijo de Michael em Fredo (John Cazale), o filme pede envolvimento total do público para distinguir nuances, compreender o peso da lealdade. Não se trata de meras histórias de mafiosos, o Poderoso Chefão é sobre o poder, sob as dificuldades de tomar decisões, tudo isso elevado ao limite extremo.