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La Villa (2017 – FRA) 

Robert Guédiguian é figura constante nas estreias de filmes franceses. Boa parte de seu cinema parece casar perfeitamente com um café para iniciar falando do filme, passar por política e acabar comentando sobre, algo como, seu gato. Tem constante tom de humanismo, diálogos bem redigidos e um sabor de tentar colocar reflexões brandas em seu público.

Aqui temos três irmãos que vem visitar o pai em estado catatônico. Mágoas do passado se confundem com a situação atual de cada um irmãos, que são enriquecidas com as características marcantes de cada um deles (o sarcástico, o que abdicou de tudo para seguir nas tradições e junto ao pai, a atriz deprimida. Guédiguian flerta com o resgate do passado, enquanto tenta trazer questões como velhice e o fim da vida, o tema dos refugiados, a vida burguesa e a nova juventude.

Seus filmes mais recentes não inspiram muito, alguns agradam mais, outros menos, mas todos tem essa sensação meio antiga de um ritual que seria ir ao cinema, e o passeio completo que pode proporcionar. Vai melhor nos temas mais próximos, e apenas arranha, de forma rasa, temas mais complicados como essa desenfreada imigração que a Europa tanto conflita.


Festival: Veneza 2017

Mostra: Competição

Les Neiges du Kilimandjaro (2011 – FRA)

O cineasta Robert Guédiguian foi beber na fonte do conto Os Pobres de Victor Hugo, a fim de expressar sua visão política da situação europeia atual. Seu retrato humanista, que se não chega a defender a violência, tenta ao menos justificá-la e até causar remorso nas vítimas, cria um interessante conto moral de pontos de vista antagônicos de uma “justiça” que pode ser enxergada de diversas maneiras.

Tão antagônico quanto discutível, essa visão do somos todos culpados soa falsa, e ainda assim capaz de levantar questionamentos pertinentes. O filme começa com a democracia como forma de escolher quais empregados serão os demitidos, tão justo e igualitário, não? O roteiro prova que não, por mais que ao invés de se discutir a política, preferes utilizar a violência e depois justifica-la pela discordância. Um dos demitidos democraticamente comete um assalto, acaba preso.

O grande mote da história surge pela situação dos irmãos do assaltante, duas crianças pequenas e ninguém a quem cuidar-lhes. Entramos com força no humanismo proposto por Guédiguian, afinal são crianças adoráveis e nossos corações estão prontos a nos derreter de consolo pelos dois. Sim, são escolhas picaretas e melodramáticas do roteiro, porém há questões em que o certo e o errado são colocados de lado, entre tantas vítimas e culpadas, há duas ali inocentes e a beleza da humanidade dos que sonhavam com a viagem ao Kilimanjaro reflete essa dignidade que vai muito além da culpa, do desemprego, da injustiça social ou da visão burguesa dentro de sua bolha da zona de conforto.