Posts com Tag ‘Robert Pattinson’

Good Time (2017 – EUA) 

Herdeiros do bom cinema independente americano dos anos 70, os irmãos Benny e Josh Safdie consolidam, definitivamente, sua filmografia como uma das mais interessantes do cenário indie atual. Podemos chamar de herdeiros por pura opção ou bom gosto, afinal eles atualizam estilos notabilizados por Cassavetes e Scorsese para retratar personagens nova-iorquinos marginalizados, ainda que esperançosos, engolidos pela metrópole que não dorme.

A fotografia suja e granulada, visual perfeito para uma história que praticamente transcorre à noite, entre as luzes da cidade e a urgência do protagonista (Robert Pattinson), desesperado em levantar dinheiro para o pagamento da fiança do irmão (o próprio Benny Safdie), preso após o assalto a banco que os dois executaram. A câmera frenética, em ritmo e nos mais inusitados enquandramentos, oferece ao movimento constante de Pattinson, uma nova dimensão entre a coragem e a arrogância de ter tudo sob o seu controle. Seu ímpeto só não é maior que as fragilidades de seus planos.

Os Safdie saem do lugar comum e indicam um personagem sem pudores, ganancioso, mas com um carinho paternalista para seu irmão. Que se torna culpa, parte pela própria influência negativa que ele exerce sob o mais jovem, que aparenta sofrer algum tipo retardo mental. A explosividade, a violência, e principalmente a ingenuidade, reflexos do comportamento de um lar desequilibrado que o roteiro apenas deixa subentendido. O filme dos Safdie jorra pela tela, com pungência e a vibração de quem está sempre correndo do perigo, e se colocando ainda mais sob a roda-viva da marginalidade.

The Lost City of Z (2016 – EUA) 

O novo trabalho, de um dos queridinhos da cinefilia mundial, é o mais eloquente de seus filmes. Por mais que seja vendido como aventura para os públicos do multiplexes, é quase inclassificável pela conjunção de fatos históricos, grau de fascínio pelo novo, e diferente, mas também pelos arcas dramáticos que envolvem o protagonistas (Charlie Hunnan).

O explorador britânico sai numa expedição em busca de informações, novas descobertas, pela inexplorada região Amazônica (inexplorado pela Europa, já que os índios sempre estiveram por lá). Seu interesse real é outro, conquistar o prestígio e renome que até então não conseguira em sua profissão. A viagem pela selva se torna uma obsessão, principalmente em encontrar, e provar a existência, de uma cidade perdida, com sinais de uma civilização com avanços tecnológicos.

O filme de James Gray guarda semelhanças com sua filmografia, principalmente na manutenção do núcleo familiar ativo. Idas e vindas da América do Sul, e a cada retorno, um novo degrau dramático dentro do quadro familiar, seja com a esposa (Sienna Miller), ou com os filhos. A família segue importante no cinema de Gray, por outro lado, sua atenção aos detalhes é substituída pela grandiosidade das paisagens, das possibilidades que a floresta lhe permite. E seu filme se torna mais frio do que costumeiramente, talvez pela interpretação pouco inspirada de Hunnan, talvez pelas inúmeras possibilidades com que o estilo elegante de Fray podia retratar aquele espaço idíliaco.

O resultado final é de um filme saboroso de se admirar visualmente, porém incapaz de fazer o público penetrar em suas subtramas, em seus contextos mais íntimos. Sabemos que filmes na selva são difíceis, mas a opção de ter a ânsia do reconhecimento pelo homem comum, diminui a experiência que poderia ser hipinótica do explorador, e seu desconsolo com o mundo que vive.

kinopoisk.ruMaps to the Stars (2014 – CAN/EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Fico imaginando como teria sido recebido o novo filme de David Cronenberg nas mansões de Hollywood. Tanta gente da indústria citada nominalmente, ou representada, por esse veneno corrosivo do cineasta que traz as estranhices para próximo do público. Seu novo filme não perdoa nada da capital do cinema americano, da hipocrisia das relações sociais, aos devaneios emocionais e promiscuidades sexuais.

Adolescentes dependentes químicos, pessoas desequilibradas e violentas, relacionamentos quebradiços, aspirantes da indústria de cinema que trabalham servindo aos ricaços. Cronenberg é incisivo, cruel. Seu filme é irregular, de formas geométricas imperfeitas. Obtuso e perturbado.

Julianne Moore vive a atriz em crise, desesperada por entrar no filme que sua mãe atuou (décadas atrás), e apresenta todos os desequilíbrios emocionais que podemos imaginar. John Cusack é o terapeuta das estrelas, seu filho (Evan Bird) é o problemático astro adolescente, alcoolatra, dependente químico. A família tem membros ainda mais transloucados. Nesse tabuleiro que Cronenberg brinca de relacionar os demais personagens, do motorista de limousines (Robert Pattison, novamente nesses carrões num filme de Cronenberg), a misteriosa garota de luvas (Mia Wasikowska), a mãe fragilizada (Olivia Williams).

É a desglamourização de Hollywood baseada em suas próprias necessidades de construção. Festas, vaidade, esquisitices, dinheiro farto, poder. Cronenberg não lida com os temas, ele os expõe impiedosamente, demonstrando podridão onde tenta se vender glamour. Loucura onde deveria ser o mundo dos sonhos. Nos entrega um mapa cruel, nefasto

theroverThe Rover (2014 – AUS) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O novo ícone do cinema australiano, o cineasta David Michôd, adora essa desconstrução da unidade, a manutenção da paz social. Seu filme anterior era sobre uma família fragmentada, de marginais. O novo vai ainda mais longe, cria uma Austrália que sofreu um colapso (econômico? Natural?), e 10 anos depois as pessoas sobrevivem como animais, com armas nas mãos e dólares americanos como moeda de troca.

Nesse mundo apocalíptico de sobrevivência três homens roubam um carro de Eric (Guy Pearce), que simplesmente parte atrás deles, pelas estradas australianas. Michôd apresenta personagens em decomposição, seja pelo calor, ou pela nova ordem social. No caminho encontra Rey (Robert Pattison), irmão de um dos que roubaram o carro.

Nitidamente há naquele carro algo de valor a Eric, Michôd não está muito preocupado com muitas histórias e detalhes, seu filme é um road movie de perseguição e de personagens suados e maltrapilhos, que apenas sobrevivem, sabe-se lá como e até quando. Michôd tenta se impor pelo estilo, pela câmera que filma a estrada ou o suor que escorre e se mistura a sangue, enquanto os disparos massacram. Michôd ainda tem um longo caminho a percorrer, sob seus filmes pesa uma urgência que o todo ainda não foi capaz de traduzir, ainda assim impressiona sua capacidade de movimentar a indústria australiana de cinema.

Cosmopolis (2012 – EUA)

Essa adaptação de David Cronenberg, do livro de Don DeLillo, me parece um ser estranho dentro da mais recente sequencia de filmes do cineasta canadense. A trama traz uma vontade alucinante de se colocar como uma feroz crítica ao capitalismo, não faltam movimentos e ideias a esse respeito (o protagonista aposta contra o Yuan, brincam em transformar o rato na nova moeda forte internacional, enquanto isso desfila de limusine por Manhattan).

Aliás, destino esse que parece inalcançável, será um dia na vida do multi-bilionário Eric Parker (Robert Pattinson, esforçado, mas tão fraco). O excêntrico ricaço vive do mercado de ações, quer cortar o cabelo enquanto a cidade está um caos, entre esse trajeto até o cabeleireiro se reúne com tipos, transa, discute mercado de capitais, vive atentados contra sua vida.

O problema está justamente no que o filme deveria guardar de melhor, os diálogos. A dose de filosofia barata, de discursos demagogos sobre a excentricidade do poder e a necessidade do novo, pelo novo, vem retocada por símbolos de luxuria e poder tão fortes e explícitos que não conseguem ir além de uma verborragia de futilidades elitistas.

Cronenberg aparece aqui e ali com enquadramentos fora do comum, com cenas esquizofrênicas na limusine, mas nada que dê a ele sua identidade, são diálogos furados e Pattison com cara de drogado em busca de alguma aventura que o cause adrenalina.