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Raging Bull (1980 – EUA)

Tentando se livrar das drogas, enfrentando uma ferrenha crise conjugal, e logo após um retumbante fracasso nas bilheterias, Martin Scorsese não passava pelos melhores momentos de sua vida, porém Robert DeNiro insistiu, bateu o pé, queria Scorsese na direção dessa biografia do boxeador Jake La Motta, que acima de tudo, é um filme sobre ascensão e destruição de uma carreira e da própria vida. Resumindo, La Motta e Scorsese tinham muito mais em comum do que se poderia suspeitar.

O Touro do Bronx, como era chamado, agia instintivamente, quase como um animal (mesmo que em uma das cenas mais emblemáticas e dramáticas do filme, ele murra a parede dizendo não ser um). Teimoso e íntegro, ciumento, intempestivo, um prato cheio para Robert DeNiro triunfar com esse personagem tão cheio de nuances e momentos ora explosivos, ora românticos (dentro do que se poderia esperar de um boxeador nas décadas de 40-50).

A fotografia em preto e branco dando a impressão de suja e diminuindo o impacto dos rostos marcados por sangue e hematomas, o virtuosismo do diretor (marcantes as cenas do sangue pingando por entre as cordas, ou o plano-sequencia acompanhando o boxeador cruzar o corredor que liga os vestiários ao ringue), Scorsese busca a mesma violência com que La Motta explode em cada ciúmes absurdo, em cada comportamento explosivo que ecoa no fim inevitável de sua carreira e vida.

Mesmo com tudo isso, não nada além dessa vontade de fundir filme e personagem, as cenas de boxe e seus enquadramentos realistas parecem chupados do filme De Corpo e Alma de Robert Rossen. Fora isso temos a eterna luta do mocinho que tenta se desvencilhar dos braços da máfia, e a capacidade nata de destruir completamente uma vida por um comportamento exaustivamente insuportável. E ainda as atuações femininas apagadas, principalmente a passiva (em cena) Cathy Moriarthy que não vai além de um rosto bonito e uma presença física (mesmo que sem sex-appeal).

Já no fim, um monólogo, Jake La Motta gordo, sozinho, fala com o espelho relembrando Sindicato de Ladrões, sua vida está resumida ali e não nos duelos emocionantes contra Sugar Ray Robinson no ringue (um dos maiores boxeadores do mundo e que nunca o derrubou).

corpoealmaBody and Soul (1947 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Talvez o primeiro grande filme do mundo do boxe. O esporte radiografado pelo diretor Robert Rossen, abordando diferentes característica como a fama e o sucesso dos boxeadores, e principalmente a presença dos empresários, que ganham fortunas, enquanto os jovens brigam no ringue. A ganância e as farras que distanciam os deslumbrados jovens de suas famílias também são pontos de importante destaque. O protagonista é Charlie Davis (John Garfield), um boxeador amador campeão em sua categoria.

Jovem de família humilde, mas digna, vivem de uma pequena bombonière no bairro. Os sonhos idealistas de Charlie vão muito além do negócio dos pais, e incentivado por seu amigo Shorty (Joseph Pevney), ele tenta a sorte no boxe profissional. Seus pais sempre foram contrários a escolha do filho, mas após a morte do pai, num acidente, a mãe deixa de criticar sua escolha.

Seu talento desperta o interesse do empresário ganancioso (Lloyd Gough), e com sua ajuda Charlie consegue sagrar-se campeão. Durante toda sua trajetória, ele mantém o namoro com (Peg Lili Palmer), relacionamento desde sua época de amador. Eis a mudança de comportamento, aos poucos o dinheiro, a fama, o sucesso e o álcool transformam Charlie, seus valores já não são os mesmos. A ideia de casamento sempre adiada pelos treinamentos. A mãe, Peg e seu amigo Shorty não têm mais o mesmo peso em sua vida. A badalação e a perseguição de mulheres interesseiras fazem Charlie afastar-se de tudo e todos.

Lutas arranjadas, campeões forjados. O roteiro mira no mundo dos empresários, acusando até do descuido da integridade física dos lutadores. O formato revolucionário do filme revolucionário, foi copiado inúmeras vezes (por exemplo, no clássico de Scorsese, Touro Indomável), principalmente as cenas dentro do ringue, Rossen utilizou, em algumas cenas, os operadores de câmeras com patins para captar ângulos inusitados, criando assim um dinamismo absurdo à época.