Posts com Tag ‘Rotterdã 2018’

Ueta Raion / The Hungry Lion (2017 – JAP) 

A praga das Fake News! Expondo o sistema educacional japonês, o diretor Takaomi Ogata coloca em discussão o poder e a velocidade com que falsas noticias viralizam, causam polêmica e até se tornam verdades. No centro da trama, uma jovem estudante confundida num vídeo de sexo. A história ganha proporções maiores a cada dia, fogem do controle e o que era um simples negar, se torna uma perseguição com difamação e um nível de stress maior do que uma adolescente pode suportar.

O filme de Ogata é bem simples narrativamente, algumas cenas são quase documentais de tão verossímeis em diálogos e até na naturalidade das atuações, por mais que sem brilho ou grandes destaques. Porém, sua força está precisamente nos fins planejados pelo cineasta. Ogata leva a trama para além da resolução do caso polêmico, envolvendo mídia e até o rescaldo do que se torna verdade após a força das fake news.


Festival: Rotterdã 2018

Mostra: Voices

A Tiger in Winter (2017 – COR) 

Kwang-kuk Lee é uma espécie de discípulo de Hong Sang-soo, assistente de direção em Ha Ha Ha e Conto de Cinema, chega a seu quarto longa-metragem como diretor, trazendo muito do que aprendeu com o famoso sul-coreano. A forma como enquadra os diálogos de personagens que se encontram pela rua (plano americano, personagens se olham, sem olhar para a câmera que os focaliza em perfil), o consumo de álcool como parte importante da trama, o vai-e-vem dos relacionamentos amorosos. Até mesmo a veia artística, afinal, o protagonistas é um frustrado aspirante a escritor que de repente perde o emprego e a namorada. Fica sem receita e sem dinheiro.

O tom de narrativa de Kwang-kuk é mais típico de um cinema que flerte com o melodrama, sem perder essa veia de melancolia seca,. Ele reencontra uma antiga namorada e revivem o relacionamento num grau de dependência predatória, de interesses momentâneos e o filme tenta costurar tudo isso os dramas de uma terceira mulher. Dessa necessidade de dilemas morais que seu filme derrapa, bem mais tradicional na forma do que Sang-soo, resta a curiosidade das semelhanças e diferenças entre eles.


Festival: Rotterdã 2018

Mostra: Voices

Djon África (2018 – POR) 

O caminho reverso em busca de suas raízes, é essa a escolha de Miguel Moreira, vulgo Djon África. A procura por seu pai é também a procura pela autodescoberta. Nascido em Portugal, porém filhos de imigrantes cabo-verdianos, Miguel não tem sua documentação legalizada, coisas que só as burocracias internacionais podem explicar, afinal, de onde é Miguel?

A dupla Filipa Reis e João Miller Guerra estreia na direção de longa-metragens, e ao utilizar do formato do docudrama, permite o mergulho mais autêntico da paisagem e dos personagens (não-atores) que cruzam à frente de Miguel por esse road movie. As informações do pai são poucas, apenas o que se lembra dos relatos da avó, mas se encontrar o pai é o mote, o importante é mesmo o caminho e nisso o filme estabelece sua maior fortaleza. A figura do novo a cada local descoberto se contrapõe com a saudade “de casa”, da namorada, e esse conflito flui por entre as ruas pobres e os vilarejos com pessoas simples e gentis.

Tão português quanto cabo-verdiano, e ainda assim sem identidade, a procura de um porto seguro que o possa se estabelecer entre duas culturas que dialogam ao mesmo tempo em que são diametralmente opostas em tantos quesitos.


Festival: Rotterdã 2018

Mostra: Hivos Tiger Competition

Gutland (2017 – LUX) 

Num primeiro momento, a história nos faz lembrar de Western, com um solitário que chega da Alemanha a uma pequena cidade de Luxemburgo e faz amizades, arruma uma namorada e emprego, assim como causa estranhamento de outra parte da pequena sociedade. Sob direção de Govinda Van Maele, a narrativa bucólica e o quieto protagonista se misturam com a beleza da região e com os costumes. Quando, finalmente, a trama mostra a que veio, com plot twist e segredos vindo à tona, beira a banalidade com toques de violência numa história já visto por diversas vezes no cinema.


Festival: Rotterdã 2018

Mostra: Bright Future