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The Square (2017 – SUE) 

Ruben Östlund está de volta, como nada mais, nada menos, que vencedor da Palma de Ouro. Metralhando criticas à futilidade e hipocrisia do mundo cultural. Christian (Claes Bang) é a marionete nas mãos do cineasta sueco para expor suas pseudo-metáforas e questionável escrotidão através de atos em sua vida particular que se contrapõe ao lado bom moço e humanitário de curador de um um museu de arte.

Provocar a burguesia europeia do champagne e caviar em festas de doação de fundos para arte é como ameaçar com estilingue uma vidraça de vidro. É um alvo fácil, frágil e facilmente provocativo. Östlund não fica só nele, e ao revelar mais da personalidade de Christian, tenta fazer esse retrato cínico de quem acha que está fazendo o bem, quando abusa dos marginalizados pela sociedade (imigrantes, mulher, funcionários).

Mais frágil que seus alvos são as próprias ideias de Östlund, como em todas as cenas com a dupla que faz um plano de marketing para a nova exposição do museu (The Square). O didatismo com que tenta provocar, como quem acredita que está banalizando a arte, quando talvez seja mais um que demonstre que ser incapaz de compreendê-la. Em tempos de tanta confusão e censura nos museus brasileiros, o filme dialoga muito com a visão conservadora daqueles que vendem a ideia de que arte é um bem supérfluo e desnecessário. Ataca o todo, e nunca a pobreza do público mais preocupado com checkin’s e selfies, do que a reflexão e novas perspectivas.


Festival: Cannes

Mostra: Competição Principal

Prêmios: Palma de Ouro

forcamaiorForce Majeure (2014 – SUE) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Um dos filmes mais comentados da temporada. Casal com dois filhos de férias numa estação de esqui, uma pequena avalanche causa alvoroço. O fato desencadeia percepções, reflexões. O diretor Ruben Öustlund abandona o mundo jovem irresponsável de Involuntário para abordar irresponsabilidades dos adultos. O casamento parece desmoronar naquelas férias, as máscaras das “aparências” caem porque o fato desencadeador retorna à tona, a todo instante, como um prego martelando incessantemente.

Öustlund filma as discussões, meio sem jeito, corta as discussões no meio, de forma estranha, quebra o clima resolvendo facilmente os conflitos (ou adiando). Há um ar do cinismo de alguns filmes de Lars von Trier, porém o sueco não tem o dom manipulador do dinamarquês. Precisa expor ao ridículo em alguns momentos, o choque gratuito quando o poder maior está na oratória, nas discussões incansáveis de Tomas (Johannes Kuhnke) e Ebba (Lisa Loven Kongsli), na insatisfação conflitante. E quando todas as cartas estão expostas à mesa, as feridas sangram de forma pulsante, eis que Öustlund resolve sua história com um epílogo, descabido, desnecessário, que comprova o quanto o diretor já estava desperdiçando em sua construção das tensões matrimoniais.

involuntarioDe Ofrivilliga (2008 – SUE) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Os elogios ao novo filme do sueco Ruben Östlund (Força Maior) no último festival de Cannes me levaram ao interesse de saber “qual é?” a do diretor, enquanto o filme não fica disponível para ser visto. Além do mais porque ele se tornou frequentador das mostras paralelas do festival francês, prova de que é uma aposta e está se destacando no cenário internacional.

Seu filme é uma tragicomédia, ácida por excelência, e narrada de forma rígida e destacada. Cinco histórias narradas de forma intercaladas, sempre sob um olhar clínico sob a sociedade sueca moderna. Todas as cenas são com câmera fixa, enquadramentos fora do comum (alguns deles nos pés, ou quase em esconderijos), e longos planos sem corte.

Em seu enfoque crítico Östlund vai desde a adolescência fútil de jovens bêbadas tirando fotos sensuais, à professora que testemunha outro professor agredido um aluno e acaba sofrendo do silêncio velado dos colegas. As demasi histórias seguem essas questões sobre o silêncio como proteção, do apego ao álcool conduzindo a falta de controle. Enfim, de uma sociedade repleta de hiprocisias.

festivaldecannes_2-650x400Em poucas horas começará a cerimônia de premiação da 67a edição do Festival de Cannes. Diferentemente dos últimos anos, este ano, este blog, não postou a repercussão diária das exibições, é muito trabalhoso e não deu tempo. Isso não quer dizer que o festival não tenha sido acompanhado, bem de pertinho. Agora que a imprensa já foi apresentada aos 18 filmes em competição e as mostras paralelas já conhecem seus premiados, podemos ter algumas expectivas, além dos favoritos que são apontados em diversas listas na internet.

Não parece ter sido uma edição de filmes que nos deixam ansiosos para conferir, mas há destaques bem interessantes entre monstros do cinema, ou novidades desconhecidas. Para quem gosta de quadro de cotações, vale uma olhada nesse link aqui, com críticos de muitos países, ou da revista francesa Le Film Français.

As frustrações começaram pelo filme de abertura, Grace de Monaco (Olivier Dahan) não agradou ninguém. The Search (Michel Hazanavicius) foi o mais vaiado com seu drama sobre a Chechenia, impressão de que o diretor de O Artista é realizador de um filme só. Captives (Atom Egoyan) foi outro que ninguém entendeu o que estava fazendo na competição (e eu não entendo porque ele sempre está lá), o filme é sobre sequestro infantil e pedofilia.

saint-laurent-cannes-2014No bloco dos que dividiram as opiniões estão: Saint Laurent (Bertrand Bonello) cinebiografia do estilista francês, com foco na relação com drogas e sexualidade. Jimmy Hall (Ken Loach) foi outro que passou quase batido, sobre um irlandês reabrindo um salão de dança, no meio de uma crise financeira-política, Loach e sua eterna visão socialista. A sensação é que erraram no argentino, Jauja (Lisando Alonso) acabou não premiado na Un Certain Regards, mas foi um dos filmes mais celebrados do festival, porém, na competição estava Relatos Salvajes (Damian Szifron), que até agradou, com suas 6 tramas cheia de atores argentinos conhecidos e humor negro.

Maps to the StarsAinda dividindo opiniões, mas já com alguns elogios que podem levar os filmes a serem lembrados na premiação ficaram: Foxcatcher (Bennet Miller), história real de um milionário e dois medalhistas olímpicos, e um assassinato. Os elogios as inesperadas grandes atuações de Channing Tatum e Steve Carrel foram entusiasmados (desde já um dos postulantes ao Oscar). Maps to the Star (David Cronenberg) ninguém aposta que a sátira sobre Hollywood será premiada, mas o filme agradou muita gente. The Homesman (Tommy Lee Jones) é outro western do diretor, dessa vez com foco em três mulheres cruzando o velho-oeste. O último dia de competição trouxe Clouds of Sils Maria (Olivier Assayas) e as reverências, inesperadas, a atuação de Kristen Stewart (crítico Guy Lodge acha que se ela ganhar a internet vai travar), e o filme também agradou, mas o último filme exibido é sempre carta fora do baralho.

Still-The-WaterAgora chegamos no pelotão da frente. Logo após a exibição, o japonês Still the Water (Naomi Kawase) parecia que ia passar em branco, mas vem crescendo no boca-a-boca, a história trata de dois irmãos numa pequena ilha no Japão. Há quem ame o cinema de Kawase, ela disse que este é seu melhor trabalho, mas muita gente questiona porque tanto ibope para seus filmes. Mommy (Xavier Dolan) é outro sempre questionado, aos 25 anos e com 5 filmes, Dolan é uma aposta dos festivais, muito prestigio (eu só vi o primeiro filme dele é gostaria de ficar bem longe). Se em seu primeiro trabalho ele queria matar sua mãe, este novo filme é uma espécie de vingança. A cinebiografia Mr. Turner (Mike Leigh) sobre o pintor e mulheres complexas a sua volta vem com força para uma possível premiação a Timothy Spall.

Nesse mesmo pelotão ainda estão: o italiano Le Meraviglie (Alice Rohrwacher), a segunda mulher em competição ganhou elogios crescentes com sua história de uma familia cuidando de uma fazenda de mel. A diretora, novamente, foca na adolescencia feminina. Timbutktu (Abderrahmane Sissako) foi exibido logo no começo, nunca foi considerado favorito, mas sempre elogiado por seu drama contudente sobre todas as mazelas religiosas que vive o norte da África, corre por fora em muitos prêmios.

Cannes2014DeuxjoursunenuitFavoritos, chegamos a eles. Pelo que tenho apurado são 4. Porém, um deles com chances nulas de tão reduzidas. Deux Jours, Une Nuit (Jean-Pierre e Luc Dardenne), os irmãos belgas já ganharam a Palma duas vezes. Nunca alguém ganhou uma terceira. A regularidade deles é impressionante, desde A Promessa que eles lançam um filme a cada 3 anos, e sempre estão entre os premiados. Não deve ser diferente, Marion Cotilard é a principal favorita (mas há muitas competidoras) ao premio de atriz. O filme é um fábula moral, um final de semana e uma mulher tentando mendigar seu emprego aos colegas de trabalho.

winter-sleep-cannes-2014-3Winter Sleep (Nuri Bilge Ceylan), o turco é um daqueles que está cada vez mais próximo da Palma, ontem ganhou melhor filme pela Fipresci (ano passado quebrou-se a maldição, mas normalmente quem ganha o Fipresci não leva a Palma). Desde que saiu o lineup eu já considerava ele, e o russo, como os favoritos, e os dois realmente encabeçam a lista. São 3 horas na Capadócia, ao estilo de Ceylan, poucos diálogos, tom poético, cavernas, pequenas tramas com um ator aposentado (Haluk Bilginer, outro com chances) no centro delas.

adieuAdieu au Langage (Jean-Luc Godard), seus filmes estão sempre em Cannes, em mostras paralelas, sua presença na competição significava alguma coisa. Desde os anos 80 que seu cinema chegou a um ponto de agradar a um seleto público (bota seleto nisso), cada vez mais resmungão e de narrativa fragmentada. Dessa vez ele vez com um 3D, e a crítica saiu estarrecida. A sensação que dá é que ele acertou no tom do que vem fazendo há anos, e se aproveitando da nova tecnologia. Seria uma decisão corajosa dar a Palma a Godard, ele nunca ganhou, é um ícone do cinema de autor e uma quebra com todo o cinema tradicional. Mesmo não gostando de seus filmes mais recentes (exceção ao belo Elogio ao Amor), gostaria de ver Godard ganhando para dar essa quebrada com o formalismo protocolar.

Leviathan 1Mas, se eu tivesse que colocar meu rico dinheirinho em alguma bolsa de aposta, ele iria para o russo Leviathan (Andrey Zvyagintsev). Muita gente torce o nariz, eu, particularmente, gosto de seus filmes. Começou com O Retorno (Leão de Ouro em Veneza), depois The Banishment passou batido, e o último, Elena foi premiado na Un Certain Regard (há quem reclame que devia ter passado na competição, naquele ano). Sua exibição de gala na quinta-feira é sinal de prestígio dentro da competição. E, se não é unanimidade, a proporção de admiradores é muito superior, não foram poucos os que pediram a Palma após sua primeira exibição. Poderia ganhar ator, roteiro, direção, mas a aposta é mesmo para ser a Palma de Ouro. Veremos. O filme é ambicioso, com um título desses não era para menos. O filme parece ser um contundente drama sobre a vida russa contemporanea, a corrupção política, a presença da igreja Ortodoxa, o poder, a polícia.

Fora da Competição, além de Jauja, destaques para Welcome to New York (Abel Ferrara) contando o escandaloso caso de Dominik-Strauss. Force Majeure (Ruben Ostlund) sobre o poder de avalanche. O polêmico, e eleito melhor filme na Un Certain Regard, White God (Kornél Mundruczó) e os ucranianos The Tribe (Myroslav Slaboshpytskiy) sem falas, personagens surdos-mudos, e o documentário Maidan (Sergei Loznitsa) sobre os recentes acontecimentos políticos na Ucrânia.