Posts com Tag ‘Rutger Hauer’

conquistasangrentaFresh+Blood (1985 – ESP/EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O fim da visão romântica da Idade Média, Paul Verhoeven filma o caos nas disputas bárbaras pela Europa. Ao mesmo tempo que explosões e catapultas atacam, prostitutas reclamam seu dinheiro e as pessoas andam como mulambos em trapos maltrapilhos. O desejo de todos é o mesmo: riqueza. Ouro e castelos são os alvos, enquanto os nobres tentam viver do luxo e dos romances.

Verhoeven realmente filma como se sentíssemos o cheiro de carne e osso, o temor pela chegada da peste, a falta de modos para se alimentar e o sexo como a mais libertária expressão do desejo individual em que a lei do mais forte impera. Estupros e promiscuidade lado-a-lado com o poder dos líderes e a ganância ignorante. Em sua transição ao cinema americano, o cineasta holandês oferece a barbárie como rotina costumeira.

paulverhoevenAntes de chegar a Hollywood e ao cinema mainstream, que popularizou seu nome mundialmente, o diretor Paul Verhoeven, teve uma extensa carreira em seu país natal, a Holanda. Uma rápida obervação desse período entre os anos 70 e meados dos 80, indicam um cinema de variações em alguns temas centrais, de uma estética que já antecipava os ano 80, e um cineasta obcecado por obsessões visuais intensas, como o escatológico, além de parcerias rotineiras com atores (principalmente Rutger Hauer e Monique Van de Ven). Mesmo o sucesso nos EUA, ele nunca se distanciou de aspectos do cinema mais vulgar, variando entre o controverso e o provocativo.

O sexo surge como o tema mais importante de sua fase holandesa. Nunca gratuito, em seus filmes o sexo determina poder e libertação. Os personagens com mais articulação de poder sob o sexo demonstram sempre influência, poder sob os demais, são dominadores. Como exemplo, seu segundo longa-metragem, Louca Paixão (Turks Fruit / Turkish Delight, 1973), considerado por alguns como o melhor filme holandês do século passado, o escultor (Rutger Hauer) vive de suas conquistas em seu ateliê vagabundo. Despreza mulheres após a conquista, mas se apaixona por aquela (Monique Van de Ven) que tem também um comportamento sexual libertário e dominador. A partir dali o filme trata desse amor de altos e baixos, de paixão avassaladora de forma intensa, são os tempos de libertação sexual. O sexo já era figura central em sua estreia, na comédia Negócio é Negócio (Wat Zien Ik / Business is Business, 1971), onde duas prostitutas vizinhas (Ronnie Bierman e Sylvia de Leur) vivem, no famoso distrito de Amsterdam, sob trapalhadas e fantasias de seus clientes.

A prostituição está de volta em no drama de época O Amante de Kathy Tippel (Keetje Tippel, 1975), adaptação do romance biográfico de Neel Doff sobre uma garota que chega a Amsterdam, no século XIX, e encontra o único caminho para sobreviver entre o amor e os preconceitos da alta sociedade. Novamente com a dupla Hauer e Van de Ven protagonizando o par romântico. Em Sem Controle (Spetters, 1980) que Paul Verhoeven volta seus olhos à juventude, como foco a história trágica de três amigos no mundo do motocross, que se apaixonam pela mesma garota (Renée Soutendijk, outro exemplo de mulher que domina a todos em sua volta pelo poder do sexo). Verhoeven reflete sob a juventude sonhadora e idealista, e ainda tão imatura e pervertida.

O outro grande tema de Verhoeven é a Segunda Guerra Mundial, o Nazimos e Facismo. Soldado de Laranja (Soldaat van Oranje / Soldier of Orange, 1977) é a referência mais óbvia sobre a dominação nazista na Holanda e o exílio da rainha em Londres. Através de um grupo de estudantes (entre eles Rutger Hauer), a narrativa acompanha os movimentos deles em espionagem, e feitos militares contra a expulsão dos alemães. Entre as ações de guerra, Verhoeven desenvolve romances, triângulos amorosos e o vazio de uma geração perdida pela falta de liberdade e o exílio. No filme para a TV, Tudo Passa (Voorbij, Voorbij / All Things Pass, 1981), resume a sede de vingança décadas após a Segunda Guerra Mundial. Ao reconhecer um torturador inimigo, o sexagenário Ab (André Van den Heuvel) parte em busca de reencontrar seus amigos de guerra e juntos cumprirem a promessa de matar aquele inimigo. É o primeiro filme em que o sexo é colocado de lado, seus personagens carregam a culpa, enquanto Verhoeven analisa o destino de cada um ao longo dos anos.

A despedida de Verhoeven da Holanda vem com o ótimo O Quarto Homem (The Fourth Man, 1983), thriller sobre o homem atormentado por visões (Heroen Krabbé, que esteve em Sem Controle) que se apaixona pela sedutora viuva (novamente Renée Soutendijk) e depois passa a desconfiar que ela pode ser uma seria killer de maridos. É outro exemplar da mulher que domina tudo a sua volta com o sexo, e o filme retoma esse aspecto sujo visual e o sexo como algo mecanizado (pela ausencia do glamour), mesmo que calcado totalmente na libido.

Sua chegada ao cinema dos EUA se dá filmando na Espanha uma história no século XIV na Europa (post amanha), guerras e sexo novamente unidos. Já no mundo mainstream, Verhoeven filma o facismo claramente em Tropas Estelares, e até mesmo em Robocop e O Vingador do Futuro. A dominação por vias do sexo estão em Showgirls, Traição (outro de sua volta à Europa) e até O Homem Sem Sombra, mas o auge é o furacão Sharon Stone em Instinto Selvagem, e agora com o maravilhoso Elle (e Isabelle Huppert). De volta a Holanda, e a Segunda Guerra, o lindo A Espiã, mas esses filmes ficam para um outro papo.

Ranking dos Filmes de Paul Verhoeven

Blade Runner

Publicado: dezembro 3, 2005 em Cinema
Tags:, , ,

Blade Runner (1982 – EUA) 

Engraçado como se pode criar uma imagem sobre um filme na cabeça, e ela ser tão diferente da realidade. Foi o meu caso com relação a esse clássico da ficção científica, filme cult dos anos 80. Expectativa de um filme frenético, de cenas alucinantes de perseguição e caça aos androides. Que nada, é um filme lento para os padrões do gênero, e que cultua questões filosóficas do tipo: quem somos, de onde viemos? Ridley Scott vinha do sucesso de Alien, mas naufragou nas bilheterias com essa adaptação de um livro de Phillip K. Dick. O tempo o tornaria um filme tão cultuado.

Influências estéticas e previsões futuristas, Deckard (Harrison Ford) é um caçador de androides, uma espécie de policial. Seu estilo de se vestir, referência aos filmes noir da década de 50, rivaliza com o aspecto underground, de submundo, da Los Angeles em 2019. A decadência total das metrópoles superpopuladas, um mundo quase apocalíptico. A chuva torrencial e incessante, moradias esquizofrênicas, a referência a Metrópolis de Fritz Lang é fácil.

A grande sacada, talvez o motivo da adoração ao filme, não está no clima futurista, nem no blade runner quase emotivo de Ford, nem nos efeitos especiais.  O clima sombrio, o pessimismo, ainda que venham amenizados por uma narração em off bem didática, auxiliam no clima que levanta as tantas questões filosóficas. Os androides sobrevivem apenas quatro anos e é isso que eles buscam, aumentar seu tempo de vida. São robôs extremamente humanizados, com sentimentos, sensações e até recordações de infâncias que não viveram. Eles lutam para viver mais, discutem as questões filosóficas já citadas, e aí Rutger Hauer dando seu show, e roubando complementa a cena. No ápice, a câmera é centrada em Hauer, seus olhos azuis, sua cara de desilusão, seu discurso no melhor estilo “penso, logo existo”, é nesse momento que o filme deixa de ser uma simples ficção científica. Não seria certo afirmar entusiasmo pelo filme, mas há em Blade Runner algo mais do que as atuais sci-fi que não passam de meros filmes de ação camuflados por ideias futuristas.