De Canção em Canção

Song to Song (2017 – EUA) 

Atualmente, é possível observar que A Árvore da Vida era o prenuncio da nova fase da carreira de Terrence Malick. Fase esta que testa a paciência de seus fãs, e pouco se esforça em angariar novos. Os três filmes a seguir (Amor Pleno, Cavaleiro de Copas e este novo) quase formam uma obra única, fechada nesse cinema sensorial, de narração em off com frases edificantes, enquanto a câmera baila por enquadramentos que buscam a intimidade máxima e elegante de corpos que se encontram ou que refletem o vazio.

Amor Pleno tinha o triângulo amoroso e a dor, já o Cavaleiro de Copas é ainda mais próximo que esse novo filme, ali um escritor (Christian Bale) vivia de festas luxuosas, sexo farto e grandes vazios. Malick mergulha seus personagens em Austin, o berço da cultura indie americana. Todos os personagens ligados a festival de rock, formando dois triângulos amorosos. Mesmo com a tendência de explorar a classe artística, não se nota em Malick a preocupação sua critica sobre o vazio existencial, a vida de luxos e luxúrias. Não, Malick parece mesmo sensibilizado pelo amor, pelas relações pessoais vindas do amor e do sexo. Além da separação, a dor, a reconciliação, o desprezo e a dependência. E seus filmes flutuam, sempre com as narrações em off que traduzem sentimentos, enquanto tentam ensinar (elucidar) ao público. Em todo esse contexto, surgem algumas cenas lindas, mas não deixa de ser um cinema cansado e circular.

Anúncios

La La Land

lalalandLa La Land (2016 – EUA)  estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

De vez em quando um novo musical traz a sensação de frescor ao cinema, e a pergunta: será que os musicais podem voltar dessa vez? E o filme passa, o momento passa, e os que odeiam musicais respiram tranquilizados. Mais que qualquer outro gênero, o musical talvez tenha sido o que mais envelheceu, ou o que menos consegueu dialogar com o público moderno, ao mesmo tempo em que seja o que mais exige dos atores. É curiosa essa relação, e talvez por isso, alguns filmes sejam tão bem recebidos, de vez em quando.

Damien Chazelle já tinha a música como tema em seus dois trabalhos anteriores, Whiplash o mais conhecido. Agora, realiza uma brincadeira de trazer ao tempo presente, personagens que poderiam estar, facilmente, nos anos 50. Carregam seus celulares, mas se vestem como na época, combinam de ir ao cinema ver filme do James Dean. Ele (Ryan Gosling), então, ama o jazz, e tem como lema de vida, ser dono de um clube daqueles tempos.

Dividido por estações do ano, o filme conta a história do casal, poderia ser um filme de Woody Allen (Emma Stone como protagonista só corrobora com a semelhança) no espírito, mas a trama repete, em muito, o musical clássico francês Os Guarda-Chuvas do Amor. Não que isso seja problema algum, mas lhe escapa a orginalidade.  Ficar procurando problemas no filme talvez seja uma tarefa desnecessária, aparentemente Chazelle está tomado pelo clima romântico platônico (tal qual um musical deve repirar) e realiza um trabalho impecável tecnicamente, além de garantir bons sorrisos no rosto em qualquer um da plateia.

Planos-sequencias que dão ritmo à narrativa, aliados a detalhes que flertam com o sensível, e dois atores na crista da onda do cinema mundial. Eles cantam, em alguns momentos encantam, em outros nem tanto. Stone no típico papel que tem atuado, e Gosling com cara de um bronco-bonzinho, romântico enrustido. O que Chazelle não consegue tão bom é manter suas cenas além da mecânica planejada, é tudo tão bem ajeitadinho, mas no miolo essa tentativa de provar o amor infinito do casal, o nasceram-um-para-o-outro, está nas imagens, nem sempre no coração. Excesso de engenharia para um musical romântico.

Chega como favorito ao Oscar, nessa altura da temporada, e realmente vai estar entre os melhores filmes do ano, e todos estes senões citados acima podem ser excesso de rigor, mas La La Land não transforma em amor inflamado todo este romance, de altos e baixos, como todos os romances verdadeiramente são, que Chazelle tenta nos vender. Não se acanhe, entre romance e melancolia, o despertar desse relacionamento e o desfecho seminal, já fariam o filme valer muito a pena. Ainda vou me pegar, por um bom tempo, cantarolando City of Stars, assim, meio que de repente, a rat-tat-tat on my heart.

A Grande Aposta

agrandeapostaThe Big Short (2015 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Adam Mckay revisita a crise econômica de 2008, ocasionada pela bolha imobiliária americana que deixou milhares de pessoas sem casa, alguns chegaram a morar dentro do próprio carro. Num tom irônico dramático, o filme segue algumas pessoas-chave, que perceberam, anos antes, que o castelo de cartas desmoronaria, via o desenfreado crédito imobiliário e a podridão de alguns fundos. A ganância financeira doeu no bolso da classe média.

Com utilização contante de zoom e montagem picotada, trilha sonora marcante (Led Zeppellin e Nirvana), além de personagens conversando com a câmera para explicar ou ironizar o sistema, McKay acerta no tom explicativo-satírico, abordando esse universo financeiro que parece tão complicado e distante de tantas pessoas. Quando a conversa sobre swaps e subprimes se complica, surge um corte para Selena Gomez ou Margot Robbie explicarem fundamentos, sempre em tom irônico, e ambiente completamente avesso a aquele em que os engravatados falam em milhões e carregam, ou não, o peso do mundo sob as costas (personagem de Steve Carrel).

Ao construir personagens além da simples relação deles com o mundo financeiro, o roteiro (favorito na disputa do Oscar) ajuda na quebra desse paradigma das complicações financeiras, o excêntrico com olho de vidro (Christian Bale), ou banqueiro feroz (Ryan Gosling), ou os qu esse aproveitam do sistema mesmo enxergando a podridão (Brad Pitt), dessa forma dando vida a esse mundo de números e cifras milionárias e crimes sem empunhar armas.

Apenas Deus Perdoa

onlygodforgivesOnly God Forgives (2013 – FRA/TAI/EUA/SUE) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Nicolas Winding Refn utiliza a força das cores como poucas vezes se viu no cinema, são berrantes, sólidas, praticamente perfeitas. Causam um vislumbre visual único, poderoso, impactante. Refn segue seu trabalho estilístico que já fora celebrado em Drive, seu cinema é violento, e puro estilo.

Mas esse estilo é tão soberbo que não permite espaço para o restante, Refn praticamente se coloca como um Tarantino sem grandes diálogos ou o espaguete que faz de Quentin o sucesso pop. Não, Refn faz mais o papel do estiloso autoral, aquele que não deixa espaço para discussão, e faz questão de vir à tona com uma história, no mínimo, não digestiva.

É a vingança, como em Kill Bill, há também uma loira capitaneando (no caso, Kristin Scott Thomas), mas estamos na Tailândia, entre boxeadores, o tráfico e um código de ética de marginais. Refn trabalha com a violência em câmera lenta, aliás com cada cena como se fosse definitiva, tenta fazer do timing seu trunfo, mas há tão pouco para preencher esse timing (além das cores tão preponderantes), que qualquer passo dessa vingança só parece com história contada por uma criança bem mimada.

Links da Semana

sofia_coppola_• Entrevista interessante com Sofia Coppola, enquanto seu novo filme não estreia em Cannes [Hollywood Reporter]

• Parece que Ryan Gosling não gosta muito de cereal. Veja o divertido video que bombou na net essa semana [Youtube]

• Copa do Mundo chegando e o cinema não ficará fora dessa, Messi e Pelé ganharão biografias para o ano quevem, agora é aguardar se finalmente vão fazer um bom filme sobre futebol [AdoroCinema]

• Cannes não é só mostrar filmes, mas principalmente vendê-los. Lista dos 20 Hot Market do Hollywood Reporter

• O próximo presidente do juri em Veneza será um italiano, Bernardo Bertolucci foi o escolhido [Screen Daily]

Por fim um interessante artigo sobre o modelo MUBI de ver filmes [Otros Cines]

Caça aos Gangsteres

cacaaosgangsteresGanster Squad (2013 – EUA)

Los Angeles Cidade Proibida se tornou quase um clássico (mais recente) dos filmes de gangsteres, e desde então ninguém conseguiu superá-lo na guerra policia versus mafiosos. Até mesmo na quantidade de atores renomados (Sean Penn, Josh Brolin, Ryan Gosling, Emma Stone, Nick Nolte), o filme de Ruben Fleischer se assemelha. Pena que as coincidências parem por ai. Uma trama tossida rapidamente, personagens caricatos e atuações rasas, e a completa ausência de charme.

Realizar um filme na década de 40 e não resgatar o charme (da música, dos trajes, de tudo), é um pecado mortal e Fleischer nunca passa perto de acertar no tom. O que lhe resta? Um mero filme policial de tiros, escutas, e mocinhos tentando pegar os bandidos, baseando no livro de Paul Lieberman, sobre um mafioso de Los Angeles (Sean Penn) e um esquadrão da polícia, planejado para prendê-lo, fugindo dos métodos convencionais.

Tudo pelo Poder – 35ª Mostra SP

The Ides of March (2011 – EUA)

Não tente entender como funciona a estrutural eleitoral nos EUA, quanto mais os anos passam, mais voce descobre que a complexidade é muito maior do que um simples leitor de notícias possa compreender. Tendo isso em mente, viajemos com o sempre engajado politicamente, George Clooney, em alguns dos meandros políticos. Aqui partimos das prévias para se escolher o candidato Democrata ao governo do país, o próprio Clooney é um desses candidatos, mas a trama está nos bastidores, nos assessores que fazem toda essa estrutura andar.

Negociatas, acordos, jogo de interesses, vazamento de informações à imprensa, as cartas são as mesmas, joga quem melhor souber utilizá-las, o foco surge do assessor de imprensa novato (Ryan Gosling), um idealista que acredita que pode fazer política apenas por princípios, mesmo entre raposas (como os personagens de Philip Seymour Hoffman e Paul Giamatti). Clooney mira diretamente em seu alvo (sem deixar de realizar um belo trabalho de direção, com uso de muitos planos-fechados, de sensualidade em algumas cenas), critica a política de forma geral, no caso dos Republicanos é contundente, mas não evita os escândalos entre seus queridos Democratas (é o ruim com eles, pior sem eles). Sua visão, parcialmente, otimista traz astucia a seu personagem, faz o público vibrar com artimanhas e estratégias, até mesmo com a manutenção de princípios (meio porcos), é filme para lotar salas de cinema, com elenco de peso, com força de tema universal e vitória garantida, mesmo que haja peso excessivo na pele desse coiote.