Tudo pelo Poder – 35ª Mostra SP

The Ides of March (2011 – EUA)

Não tente entender como funciona a estrutural eleitoral nos EUA, quanto mais os anos passam, mais voce descobre que a complexidade é muito maior do que um simples leitor de notícias possa compreender. Tendo isso em mente, viajemos com o sempre engajado politicamente, George Clooney, em alguns dos meandros políticos. Aqui partimos das prévias para se escolher o candidato Democrata ao governo do país, o próprio Clooney é um desses candidatos, mas a trama está nos bastidores, nos assessores que fazem toda essa estrutura andar.

Negociatas, acordos, jogo de interesses, vazamento de informações à imprensa, as cartas são as mesmas, joga quem melhor souber utilizá-las, o foco surge do assessor de imprensa novato (Ryan Gosling), um idealista que acredita que pode fazer política apenas por princípios, mesmo entre raposas (como os personagens de Philip Seymour Hoffman e Paul Giamatti). Clooney mira diretamente em seu alvo (sem deixar de realizar um belo trabalho de direção, com uso de muitos planos-fechados, de sensualidade em algumas cenas), critica a política de forma geral, no caso dos Republicanos é contundente, mas não evita os escândalos entre seus queridos Democratas (é o ruim com eles, pior sem eles). Sua visão, parcialmente, otimista traz astucia a seu personagem, faz o público vibrar com artimanhas e estratégias, até mesmo com a manutenção de princípios (meio porcos), é filme para lotar salas de cinema, com elenco de peso, com força de tema universal e vitória garantida, mesmo que haja peso excessivo na pele desse coiote.

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Drive – Festival do Rio 2011

Drive (2011 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O solitário-caladão (Ryan Gosling) divide sua vida entre o trabalho de piloto-dublê, em produções em Hollywood, e os “bicos” como piloto de fuga em assaltos planejados pela máfia. O filme faz questão de identificá-lo como um sujeito que parece não ter passado, futuro, perspectivas, ambições. Ele simplesmente vive sem prazeres, sem sonhos (talvez até o tenha, piloto de stock-car, mas talvez seja o sonho de seu amigo-chefe), nenhuma direção.

Quando o solitário conhece a vizinha Irene (Carey Mulligan), um raio de sol quase brilha no céu cinzento do sujeito, que permanece caladão, fechado, mas agora até sorri, invariavelmente. Do interesse mútuo vem a confusão amorosa, mas não é exatamente esse o mote do filme. A razão de existir é o exercício estilístico do cineasta dinamarquês Nicolas Winding Refn, seu universo de referências praticamente se impõe como uma colagem de vários cineastas (temos Tarantino, Lynch, Sofia Coppola, Scorsese, até Kar-Wai). E, dessa salada cinéfila que se constitui seu próprio estilo, sim porque há tantas colagens e referências que se tornam sua própria assinatura.

Desconstruindo gêneros, um filme de ação com narrativa lenta, personagens silenciosos. Um filme violento com cenas em câmera lenta e música pop estilo anos 80. Um filme de máfia pontuado por uma cena de beijo antes de uma luta, no elevador. Uma sequência de perseguição eletrizante e momentos tolos de um flerte sem jeito. Essa miscelânea toda traz um cinema dos anos 70-80 dialogando com algo muito contemporâneo, e funciona bem. Alguns frames são praticamente quadros magníficos, o uso de cores mortas (o cuidado com sombras e tons de verde e vermelho). Tudo hermeticamente pensado, tão pensado que as vezes peca pela artificialidade. Nesse exercício todo, Refn não deixa seu filme decolar, mantendo-o na mesma vibração de seu protagonista low-profile, quase um Clint Eastwood atrás do volante que por não ter “passado” nada teria a perder/temer.

Entre Segredos e Mentiras

All Good Things (2010 – EUA)

Convencional e protocolar, com dois atores bem conhecidos do público (Ryan Gosling e Kirsten Dunst), uma história de drama familiar que levanta a suspeita sobre o desaparecimento de uma mulher. O público alvo está claro, e o cineasta Andrew Jarecki cuida para deixar a história se reveler lentamente. A primeira parte mais “romantic” parece melhor resolvida, quando os personagens mostram suas facetas e o filme se divide entre o suspense e elevação dos dramas familiares é que os exageros e slow-motions tornam tudo ainda mais convencional. O que fico realmente me perguntando é como um filme conta uma história (e se diz baseada em fatos reais) sendo que até hoje não se sabe realmente o que aconteceu. Narrar suposições como verdades/fatos é de um peso absurdo.

Namorados Para Sempre

Michelle Williams indicada ao Oscar de Melhor Atriz, o filme só deve estreiar no dia dos namorados no Brasil.

Blue Valentine (2010 – EUA)

Esqueça o título horripilante em português e até mesmo o trailer que te prepara para uma linda história de amor. O filme de Derek Cianfrance não trata o assunto dessa forma e o título original já entrega isso. Um romance narrado simultaneamente em dois tempos, de um lado o momento presente de crise, enquanto contrapõe-se com o início doce e encantador. Fica essa mistura de amargo e doce na boca, cena a cena, um vai-e-vem de emoções, estamos tão acostumados a assistir esse tipo de comportamento que o tempo impõe a tantos relacionamentos que as repetições de discussões e caras feias nos remetem à nossa própria vida ou de pessoas tão ligadas a nós. Esse é o trunfo de Cianfrance, a história tem suas particularidades (como todas têm) e ainda assim é única, porque cada história de amor é única e irrepetível.

A paixão, o passar por cima dos problemas, toda a empolgação instantânea do início, pouco a pouco dá espaço para  vazio, o distanciamento, o incomodo, e nisso Michelle Williams e Ryan Gosling esbanjam vitalidade ao viver esse casal tão conflitante. E acima de tudo, o filme mostra na fase boa os indícios do que poderia ser problema, mas quando estamos no começo ficamos cegos para esses sinais, acredita-se que o amor vence tudo, e não é bem assim, um casal precisa estar fechado em objetivos e projetos de vida, vibes parecidas, e não se apaga decepções com pequenos gestos isolados (típico filme que cresce dentro de você com o tempo).