Posts com Tag ‘Sabine Azéma’

amoresparisiensesOn Connait la Chanson (1997 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Diálogos interrompidos por momentos musicais (funcionando como uma espécie de liberdade do público em enxergar a consciência, o desejo de seus personagens). A leveza por trás de tudo, Alain Resnais novamente atacando nas pequenas coisas da vida, o cotidiano. O roteiro é do casal Agnès Jaoui e Jean-Pierre Bacri, eles também estão no elenco, juntamente com os habitués de Resnais. Os trabalhos do casal são sempre marcados por um humor ácido, e também por essa leveza que Resnais parece elevar a graus de flutuação.

Encontros e desencontros amorosos, coincidências que aproximam ou causam confusões. Amores Parisienses trata dos tipos que habitam Paris, a forma como se relacionam entre eles e a cidade. Os novos prédios, a vista da Torre Eiffel, os museus, e as decepções, os amores, e as depressões. Sorrisos, pequenos toques de genialidade, Resnais e sua trupe transformando o abstrato em real, quase tangível. É gracioso, é simpático, sem deixar de ser autêntico. Tirar o maravilhoso da simplicidade, é assim que Resnais segue flertando com todos os tipos de arte, e absorvendo cada uma delas em seu cinema, a música aqui é mais que uma ferramenta, é o puro charme.

smokingSmoking / No Smoking (1993 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Da mera decisão de fumar, ou não, um cigarro, surgem dois filmes e tantas inúmeras possibilidades a partir das escolhas de cada personagem. Primeira adaptação de Alain Resnais de uma peça teatral de Alan Ayckbourn, com contribuição no roteiro do casal Agnès Jaoui e Jen-Pierre Bacri, os filmes brinca com o “e se”, sempre retomando de algum ponto da história com uma nova escolha de algum dos personagens.

Cenários artificiais e que se repetem o tempo todo, apenas depois atores contracenando. Sabine Azéma interpreta os femininos, enquanto Pierre Arditi os masculinos. Surgem triângulos amorosos e os mais diversos finais (felizes ou tristes) através de escolhas triviais ou não. É delicioso como de uma brincadeira possam surgir tantas maneiras de interpretar comportamentos cotidianos e o quanto os personagens podem crescer dentro dessa dinâmica, afinal, mudam as esolhas e os rumos, jamais as características de cada um.

Em Smoking o cigarro está presente integralmente, o tom é mais dramático. Em No Smoking os cigarros ficam de lado, o aspecto romântico é privilegiado. Todas as histórias partem de seu ponto de partida para depois serem enxergadas 5 semanas adiante, e depois mais 5 anos. Os desfechos ocorrem na Igreja, sob velórios, casamentos, visita ao cemitério, ou aniversário de 50 anos do colégio, não importa a ocasião, um casal de personagens se reencontra, até que a história volte ao passado e permita uma nova variação capaz de brincar com o destino de todos.

melodiainfielMélo (1986 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Um dos maiores concatenadores das artes no cinema, Alain Resnais, trazendo teatro às telas num melodrama romântico sobre amizade e infidelidade. Um dos amantes é músico (André Dussollier), e é no primeiro diálogo, cheio de citações sobre diversas artes que ela (Sabine Azéma) se apaixona por ele, mesmo tendo o marido (Pierre Arditi) ao lado.

As tintas pesadas do melodrama conduzem o caminho dos personagens, seja no amor vivido sob o peso da traição, seja na cegueira do traído apaixonado pela espos. Até culminar na fatalidade, na incapacidade de lidar com o amor de dois homens. Resnais complementa com musica, e com sua elegância habitual, se o filme está longe da inventividade de seus poemas filmados (do início de carreira) ou da contundência de suas críticas à guerra, por outro lado há aquele sabor refinado de acompanhar um mestre nos conduzindo pela história viva, aquela pulsante que toma nossos corações quando menos se espera. A beleza desse filme está na continuidade do trabalho de seu diretor.

 

 

morrerdeamorL’amour à mort (1984 – FRA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Um emaranhado entre amor, morte e religião. Talvez um dos mais pragmáticos filmes de Alain Resnais, carregado do amor romântico. Por outro lado, outra exposição corajosa de sua visão, ou apenas meros questionamentos de quem também procura respostas, mesmo que saiba que elas não existem. Resnais faz seu protagonista (Pierre Arditi) morrer, e ressuscitar. Decide aproveitar a oportunidade e mudar os rumos de sua vida, as pessoas com quem se relacionar, dar ainda mais foco em a sua namorada (Sabine Azéma).

Estão jogadas as cartas à mesa que permitem a Resnais discutir o amor romântico, o morrer de amor. Com o casal de amigos religiosos (Fanny Ardant e André Dussollier) vem a oportunidade de envolver a religião, as crenças. Por exemplo, Resnais resgata uma questão interessante, a tradução incompleta de “amor”, para o latim, dos termos do grego antigo Eros (amor possessivo) e Ágape (amor desinteressado).

Os nomes com conotação religiosa não está ali por acaso. Um personagem, apenas citado, comete suicídio, outra oportunidade de trazer o assunto à tona, e o discutir sob os aspectos da morte e religião. É Resnais talhando seu filme para abordar seus questionamentos, e, com interpretações bastante densas, e clima por vezes carregados, ainda assim imprimir seu estilo de promover a reflexão, dessa vez com um conjunto de observações antagônicas.

avidaeumromanceLa Vie Est Un Roman (1983 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Alains Resnais volta com outra proposta grandiosa. Narrado em dois tempos, aborda os sonhos revolucionários de um conde milionário (Ruggero Raimondi) de criar um palácio, ou mais que isso, uma sociedade formada por seus amigos, que viveria isolada, sob o alicerce do amor e outras crenças próprias. Porém, veio a primeira guerra mundial.

Na década de oitenta, o palácio se tornou uma escola experimental que está prestes a sediar um congresso sobre “Educação e Imaginação” recebendo especialistas das mais diversas áreas da educação, que não só discutem o tema, mas se inter-relacionam.

Outra ousadia de Resnais, dessa vez nem tão bem realizada que seus trabalhos anteriores. Por mais que haja pontos interessantes por todos os lados. Uma espécie de fábula musical que mistura imaginação, libido, formas de se relacionar com amor, loucuras eloquentes. Resnais trata de tantos temas, métodos educacionais, relações humanas de forma leve, ainda assim intensa. Fragilidades e conquistadores, influciáveis e influenciadores, e no meio desse pandemônio de opiniões e experiências, as crianças que se divertem com o que tiverem a seu alcance.

amarbeberecantarAimer, Boire et Chanter (2014 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Os últimos dias de Alain Resnais já tinham na morte um de seus cernes. E, foi poucas semanas após esse presente que o cineasta francês nos deixou. Jamais deixou de lado sua inventidade, a capacidade de adaptar outros tipos de arte ao cinema (em especial o teatro), sempre com o charme sedutor de seu cinema complexo e simples (em alguns aspectos).

Lembra muito a estética de Smoking/No Smoking (os cenários que se repetem e fazem alusão ao palco de teatro, a simplicidade artificial do ambiente, os tipos de diálogo dos personagens), mas sem as vindas da história. Trata-se de três casais, ligados por George (citado em todos os segmentos, nunca aparecerá em cena) que sofre de uma doença terminal. Os amigos decidem ensaiar o peça e o convidá-lo a participar. Desse mote surgem saborosos desencontros amorosos, confidencias íntimas, disputas pelo mesmo homem. Alegria, decepções, e Resnais utilizando outra peça de teatro de Alan Ayckbourn para divagar sobre a vida.

A falsa ingenuidade nos diálogos, a doçura com que emoções (e confusões) são expostas, Resnais segue encantando sua plateia com o tempero e a jovialidade de sempre, genial como outrora mostrando como se faz uma comédia, com sofisticação e bom gosto. Um típico Resnais para coroar uma carreira irretocável de um dos grandes.

vocesaindanaoviramnadaVous N’Avez Encore Rien Vu (2012 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

O altamente teatral, Alains Resnais, retoma esse diálogo entre palcos e cinema. Dessa vez coloca em cena uma versão de Eurídice, e usa alguns dos maiores atores franceses para contracenar e se integrarem a um grupo de jovens. O mote é simplesmente genial, a forma como Resnais encontra para reunir esse elenco (Sabine Azéma, Michel Piccoli, Mathieu Amalric, Lambert Wilson, Pierre Arditi, e Anne Consigny, a lista é extensa) e fechar a trama, é simplesmente sensacional.

Mas, o filme é mesmo sobre essa representação da peça, e os atores veteranos (utilizam seus próprios nomes) interpretam com um misto de carinho e paixão, ternura oriunda de um pedido especial de um grande amigo dramaturgo (Denis Podalydès). A história de amor de Eurídice e Orfeu, o jogo que mistura a projeção do grupo teatral e os veteranos que não resistem a simplesmente assistir, e voltam a atuar os papéis que viveram há muitos anos. Resnais traz vigor, sintetiza teatro e cinema, e realiza assim um dos melhores filmes do ano.