Posts com Tag ‘Sandra Kogut’

campograndeCampo Grande (2015) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Em dado momento de Mutum, o belo filme anterior da diretora Sandra Kogut, uma mãe entregava o filho a outra família almejando melhores oportunidades à criança. Neste novo filme, que pega emprestado o nome do bairro carioca (mesmo que pouco o aproveite), Sandra traz o questionamento do que vem a seguir com essas crianças, e com essas famílias. Quer dizer, essa parece a proposta inicial, já seu desenrolar leva a outros caminhos.

São duas famílias em desconstrução. Uma mãe deixando duas crianças na porta de um prédio na Zona Sul é um sinal claro, mas a própria família de classe média também tem seus dramas. Um casamento já na fase de separação, a filha adolescente dividida entre pai e mãe. São dois momentos caóticos que se encontram, que não estão só ligados a aspectos financeiros.  O filme se divide entre essa questão das classes sociais, mas também nas mutações urbanísticos da capital fluminense. Sandra filma muito bem, desde a inocência e graça da crianças (não-atores), às tentativas de sensibilidade nos dramas “mais adultos”. O tom dramático é que destoa dessa capacidade de explorar o apartamento, a cidade e a mobilidade dentro dela.

Pode-se enxergar ligação temática com Que Hora Ela Volta?, mas as comparações param por ai, no decorrer a ligação mais forte é com Central do Brasil (parte do filme soa como uma quase variação do trabalho de Walter Salles), e por mais que Sandra nos faça no sentir tão próximos daqueles personagens, daquelas crianças, a visão macro da trama é antagônica, de uma burguesia que teme e esquiva regiões mais longínquas e tem na indiferença a base da relação Zona Sul x subúrbio.

mutumMutum (2007) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Filme de uma dureza terrível com seus personagens. Thiago da Silva Mariz, o garoto que assume o cerne das ações é uma graça, sorriso lindo, olhar cheio de graça. Dele são retirados, pouco-a-pouco, tudo que sua vida miserável possuía: familiares que amava, bichos de estimação, a família. A cada novo golpe o garoto se cala, retraído pela insensatez paterna, preso à suas deficiências, vive apenas ali, na aridez de seu mundo. Sobrevivendo ao que ainda lhe resta, em meio ao sertão de Minas Gerais. Sandra Kogut adapta a história de Minguilim (do livro Campo Geral de Guimarães Rosa), e faz com toda a aspereza e aridez que lhe é pertinente, numa beleza de cinema nacional que merece ser descoberta.