Posts com Tag ‘Sandrine Bonnaire’

semtetonemleiSans Toit Ni Loi (1985 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O mais impressionante é o senso de liberdade a cada cena reafirmado pela andarilha (Sandrine Bonnaire) que abre o filme morta pelo frio numa vala qualquer. O filme reconstitui as derradeiras semanas da mendiga, partindo de relatos dos que a conheceram recentemente. A jovem vive exatamente o que podemos chamar de espírito-livre, sem amarras, sem preocupações, sem interesse por qualquer coisa que não seja sua liberdade.

Liberdade essa não só pelo ir e vir, pelo desapego de bens ou de uma vida regrada. Não, vai muito além, sua liberdade é oca, livre de qualquer estigma político, psicológico, familiar. Livre de qualquer desejo, obsessão, necessecidade, simplesmente livre. Ela cruza a vida de personagens, dorme na rua, no carro, na sala da casa, trabalha aqui, vagabundeia ali, age conforme sua própria vontade do momento. Não demonstra qualquer preocupação com sua situação, qualquer espírito de mudança.

E como uma cirurgiã, Agnès Varda calcula friamente cada plano, cada situação, sua direção demonstra essa frieza de não se envolver, de deixar que esse senso de liberdade tome totalmente conta do filme, crie as interrelações pessoais. A andarilha nos surpreende pelo estreito pensamento no agora, enquanto isso outros personagens sofrem numa visão social crítica da diretora, interesses escusos, a vergonha social acima da fraternidade, de um lado uma personagem livre, de outro todos amarrados a suas convenções sociais.

La Cérémonie (1995 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

A abastada família Lelièvre procura uma empregada doméstica para residir na casa da família, localizada um pouco distante do centro de uma pequena cidade interiorana francesa. Com boa experiência e referências, Sophie (Sandrine Bonnaire) é contratada e rapidamente conquista, não só Catherine Lelièvre (Jacqueline Bisset) como a todos com sua eficiência.

Por mais que ela seja uma mulher um tanto estranha, muito quieta e seca, guardando segredos e um repetitivo “não sei” entre os lábios. Todos da família demonstram certa preocupação com Sophie e com reserva tentam aproximar-se, seja oferecendo consultas médicas ou disponibilizando um carro caso ela necessite, porém nada disso parece alterar a pacata e quieta Sophie que passa seu tempo livre comendo chocolate ou sentada no chão de seu quarto assistindo programas infantis na tv.

Claude Chabrol sutilmente incorpora o tom de suspense psicológico à trama, explorando minuciosamente música e posicionamentos de câmera, ao seu modo, criar ares de thriller. Chabrol ainda permeia sua história com a diferença entre classes sociais, a jovem Melinda acusa seu pai (Jean-Pierre Cassel) de fascista a todo momento, mesmo que ele demonstre zelo por Sophie. Um certo sentimento de culpa dos mais ricos em deixar os outros à margem, não oferecendo o mesmo conforto que possuem, não deixa de ser um discurso socialista vindo de uma voz burguesa que apenas vocifera, mas muito se aproveita dos confortos que o dinheiro lhe oferece.

Finalmente Sophie cria algum vínculo social ficando amiga de Jeanne (Isabelle Huppert), uma funcionária do correio muito falante, atrevida e curiosa que adora ler correspondências e saber da vida dos outros. As duas escondem passados obscuros e a amizade aflora um lado mais leviano de cada uma delas, de duas mulheres aparentemente inofensivas a dupla torna-se nada menos que diabólica. E o final apoteótico entre Mozart e o total descontrole humano eleva o clima há alguns momentos exasperantes. Baseado-se livremente no livro A Judgment in Stone de Ruth Rendell.