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Histórias que Contamos

Publicado: março 21, 2014 em Cinema
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historiasquecontamosStories We Tell (2012 – CAN) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Sarah Polley escancarando parte da sua história e de sua familia, de um jeito suave e delicado como quem pede um pequeno alento ao público. Por meio de entrevistas com seu pai, seus irmãos, e amigos da família, ela narra o relacionamento de seus pais (atores) até chegar na sua descoberta sobre seu verdadeiro pai. Sua mãe já faleceu, e o ducmentário foi filmado com os fatos já consolidados, dessa forma a serenidade ocupa qualquer espaço que o dramalhão poderia emergir. Entre depoimentos e imagens de arquivo, o documentáio traça um pouco da personalidade de seus pais, tudo muito discreto e sereno, uma beleza contida, quase envergonhada.

Fica mais interessante quando o segredo de família é revelado, exame de DNA, as suspeitas de quem seria o verdadeiro pai, mas longe de um formato sensacionalista, cada movimento preocupado com os sentimentos do pai verdadeiro, tratado com esmero. Polley traz a vida artística para a vida comum, mesmo os famosos passam pelos mesmos dramas, os pais cometem os mesmos erros e Polley vai apresentando seu drama de maneira concisa, elegante, aquele estilo canadense de ser, frio pero no mucho.

entreoamoreapaixaoTake This Waltz (2012 – CAN) 

Sarah Polley ataca pelo mundo dos clichês indies, imita Miranda July nas cenas em que busca sensibilidade esquisitinha, faz de tudo para enquadrar seu filme num arquétipo de beleza melancólica com uma protagonista (Michelle Williams) com cara de fofa e vazia. A garota dividida entre o marido alegre demais e bronco, e o vizinho metido a artista e bom de papo, não vai além de cenas com “plasticidade” moderninha e silêncios não inspirados.

A dúvida entre o novo e a rotina, entre amor e paixão, na verdade está nas entrelinhas. No fundo é um filme sobre personagens vagando pelo nada de seus vidas pacatas, flertando com o humor tolo para sobreviver ou de inspirações poéticas do por-do-sol. Parecem mais pessoas sem conteúdo, simpáticas, bons vizinhos, gente de bem, não necessariamente interessantes. E quando vem o clipe de Take This Waltz, pronto a breguice indie atinge o ápice com a leveza de um ferro de passar caindo pela janela.

Não, infelizmente não estou na Lido de Veneza cobrindo o festival de cinema. É uma pena. Estou retomando a ideia que havia planejado para um blog próprio, porém achei melhor incorporar na Toca. A ideia é simples, acompanhar a repercussão da imprensa sobre os filmes que estão em Veneza (foco na mostra competitiva, pequenos highlights). Como em Cannes a ideia foi bem aceita, vamos seguir com a brincadeira (até porque faço isso, estou só dividindo as minhas pesquisas). Algo como Os Links do Dia, especificamente sobre Veneza.

O pontapé inicial veio com Mira Nair num filme fora da competição. Ok que ela tenha algum prestígio com parte do público, e que ganhou o Festival há alguns anos (Casamento à Indiana), ainda assim parece um nome fraco para uma seleção que tem Mallick, de Palma e PTA (entre outros). O juri desta edição será presidido por Michael Mann.

‘The Reluctant Fundamentalist’ traz o 11 de Setembro, paquistaneses, fundamentalismo islâmico e capitalismo americano, já se pode imaginar o que vem por aí. A recepção não foi nada animadora, assim como os últimos filmes de Mira Nair não tem agradado, como principal estrela o filme é encabeçado por Kate Hudson.

Críticas: The Guardian – In-Contention – Carta Capital – Hollywood Reporter

Termômetro: pé atrás

‘Stories We Tell’ foi destaque nesse primeiro dia. O documentário de Sarah Polley, explorando histórias de sua própria família (pai, mãe), parte das imagens captadas com uma câmera super-8 enquanto divide com o mundo um grande segredo pessoal. Peter Bradshaw do The Guardian foi um que amou o filme.

Críticas: The Guardian – The Playlist Digital Journal

Termômetro: de olho

La Vida Secreta de Las Palabras (2005 – ESP)

Boa parte do filme transcorre num quarto, um homem se recuperando de um incêndio, o corpo todo queimado, nem enxergar ele consegue. E a enfermeira (Sarah Polley) que o está tratando, pacata, silenciosa, ausência total de qualquer traço de felicidade. O momento se repete inúmeras vezes, o remédio, a refeição, uma nova atadura, ele sempre puxando papo e ela dentro de sua frieza. A cada nova cena a câmera muda de enquadramento dentro daquele quarto, o homem, a cama, a enfermeira, são filmados de diversos pontos, trazendo um dinamismo que não está presente nas relações humanas. Nos sentimos mais presentes no ambiente, captamos melhor nuances, olhares, gestos. A história se desenvolve, certo grau de intimidade traz os dramas de cada um deles, e nisso Isabel Coixet é dura, vai buscar crueldade e um passado marcante, opta por traumas irreversíveis, sempre com um admirável tom de leveza. Só que, a recuperação do sujeito (Tim Robbins) transcorre bem, ele consegue andar, e desse ponto em diante o filme degringola, e de um jeito que não tem concerto. Lá se foi a admirável e irretocável condução daqueles dramas, a narração em off marca o momento loser e descartável.

estrelasolitariaDon’t Come Knocking (2005 – EUA/ALE) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

A certa altura da trama, o protagonista senta-se num sofá, que havia sido arremessado pela janela, e está no meio da rua com outras quinquilharias. Fica ali naquela rua deserta e a câmera fazendo movimentos de 360º contínuos, ora horários, e ora anti-horários. O dedilhar de um violão ao fundo, aquela visão de construções, e de uma poeira seca que o vento traz. O protagonista passa o dia sentado ali, sem proferir uma única palavra, sem alterar suas feições. Está perdido, mas não desesperado, vendo apenas o sol no caminho de se pôr, é a própria estrela solitária. Cena antológica.

Um decadente ator de faroestes (Sam Shepard), no meio de mais um set de filmagens, simplesmente desiste do filme e desaparece sem deixar vestígios. Larga na mão diretor, atores e toda a equipe de produção, partindo numa jornada existencial. Seu primeiro destino é visitar a mãe após trinta anos. Através dela descobre ter um filho, numa pequena cidade onde filmou um de seus sucessos do passado.

A nova parceria da dupla Wim Wenders e Sam Shepard, traz a repetição de muitas coisa vistas no clássico Paris, Texas. Mas, Wenders filma como gente grande, e por mais que não tenha agrado tanto a crítica assim, me parece um filme maduro, de quem sabe onde está pisando. O cineasta alemão trata de uma geração que agora percebe que sua fase já passou, e tenta aprender a lidar com o ostracismo. A câmera disseca o vazio que Howard carrega, por ter tido tanto e não ter construído nada. E agora no fim da vida percebe a solidão que os caminhos que escolheu o levaram.

Busca então se agarrar em resquícios do que deixou, a garçonete por quem fora apaixonado, o filho que ele nunca soube existir. E essa estranha garota loira que o persegue carregando as cinzas da mãe. Quem curtiu cada momento da vida regado a festanças, álcool e drogas, agora percebe que pouco valeu a pena, perto do que deixou de lado. É um drama existencial sim, personagens que tentam expurgar seus fantasmas.

Sam Shepard conduz esse caubói, no rosto e na suas expressões a dose certa para caracterizar o personagem, mas Shepard que me desculpe, Jéssica Lange roubou-lhe o filme, com aparições carregadas de emoção, com destaque para a cena em frente a academia.