Posts com Tag ‘Sean Baker’

The Florida Project, 2017 – EUA) 

Sean Baker está de volta, deixa de lado seu iphone, mas continua filmando a luz, o sol, as cores, com beleza rara. Impressiona como o cineasta brinca com a possibilidade do colorido dos prédios, que dialoga tanto com a meninice da arteira Brooklynn Prince. Um grupo de personagens vivendo no hotel do título, uma vida tão próxima, e tão distante, dos parques da Disney. Baker, novamente, dando voz e naturalidade aos que estão à margem do capitalismo, mas que precisam dele para sobreviver. Renegados ao ostracismo, num grito por espaço que choca aos demais por sua falta de pudores, pela ausência de etiqueta, e pela pungência do hoje, como se não houvesse amanhã.

A câmera quase sempre posicionada na altura das crianças, dá dimensão do olhar para os adultos, que tentam, em vão, impor limites, como é o caso do zelador (Willem Dafoe, om uma mão no Oscar de Ator Coadjuvante). A liberdade quase desenfreada para os que precisam de orientação e limites, uma América que pouco se importa com a “sujeira” deslocada aos subúrbios do consumo. Baker sempre de olho naquela faixa de população que a maioria gostaria de varrer para debaixo do tapete, e aqui os retrata com graça, delicadeza áspera, e com a mesma urgência que eles carregam de não se importar com o futuro.


Festival: Cannes

Mostra: Quinzena dos Realizadores

Tangerina

Publicado: novembro 10, 2015 em Cinema
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tangerinaTangerine (2015 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Sean Baker segue abordando personagens marginalizados pela sociedade. Do negro vendedor de produtos falsicados (Príncipe da Broadway), à jovem que ganha a vida como atriz de filmes pornôs (Uma Estranha Amizade), e agora a véspera de Natal de duas transexuais negras. O filme ganhou maior notoriedade por ter sido todo filmado com Iphone, e é impressionante a qualidade técnica da imagem e a estreita relação que o tipo de imagem causa com o público, quase um avanço concenitual na sensação de documentário.

A relação estreita de roteiro e personagens, a sensação de improvisação, é tudo muito vívido, por mais que a metade demonstre claros desgastes dramatúrgicos. As transexuais partem em busca de um taxista cafetão, que tem lá seus desejos sexuais, enquanto uma sonha com sua carreira musical, a outra descarrega a fúria ciumenta intensificada por sua recém saída da cadeia. Sean Baker dá o dinamismo urbano que leva o público para dentro daquele dia agitado de Natal.

umaestranhaamizadeStarlet (2012 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

O título original faz referência ao cachorro de Jane, a loira (Dree Hemingway) descompromissada que passa o filme todo desfilando de short curto e ar de bom-samaritano. Atriz pornô despontando, a jovem passa o dia entre drogas, tardes enrolaradas e as crises histéricas da amiga (Stella Maeve) com o namorado. A vida é aparentemente fácil, entre alguns dias de filmagem e outros de ver o tempo passar.

Sean Baker continua sua carreira pelo cinema indie americano, conseguindo fugir da mesmice de gênero que a cena independente se tornou. Filma esse dia-a-dia sem rotina, da mesma maneira pouco responsável com que Jane encara seus dias. Numa dessas vendas de garagem compra uma garra térmica de uma senhora (Besedka Johnson), e a garrafa vem premiada com uma bolada. Com peso na consciência, mas sem escrúpulos de devolver a grana, ela se aproxima da velha solitária, querendo pagar favores pelo dinheiro.

Nasce uma amizade torta, cheia de segredos entre as duas partes. Quem disse que amizade precisa de todas as cartas na mesa? A delas é assim, bonita pelos mundos opostos, expectativas de vida completamente difusas, e pela sinceridade de sentimento que surge da convivência. A cena final é simples e linda, até ela Baker deixa o sol brilhar naquele relacionamento, sem peso, sem culpa, apenas desfrutando da amizade.

 

oprincipedabroadwayPrince of Broadway (2008 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Vamos falar de contrabando, de pirataria, de contravenção. Imigrantes trazem da China imitações de grandes grifes (tênis, bolsas). Nas ruas, os negros (também imigrantes) buscam clientes e fazem o trabalho de venda propriamente dita, sem se esquecer da polícia e das blitz. No meio disso, o diretor Sean Baker adiciona um elemento inesperado, uma ex-namorada larga o filho de colo com Lucky (Prince Adu) e desaparece. Os diálogos são pobres, chulos mesmo. O amadorismo tão latente, que muitas vezes nos sentirmos diante de um documentário, mas a presença de uma criança no ritmo de vida de Lucky parecer ser um objeto tão esquizofrênico que promove momentos divertidos, praticamente inimaginável. Entretanto há sempre responsabilidades, há humanidade, e mesmo com a vida de ponta-cabeça, buscamos formas de nos adaptar às adversidades. Por mais buracos no roteiro e pobreza nas abordagens, tem-se um filme honesto, fraco em todos os aspectos, é verdade, só que sua simplicidade quase o transforma num documentário dramático, fraco e cativante.