A Vida Secreta de Walter Mitty

avidasecretadewaltermittyThe Secret Life of Walter Mitty (2013 – EUA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Essa nova adaptação do conto originalmente publicado na revista The New Yorker passou por muitas mãos antes de chegar a Ben Stiller. Desta vez, o pacato Walter Mitty trabalha na Life (pouco antes da revista deixar as bancas e se tornar apenas virtual). Ele sonha (acordado) com grandes aventuras, mas não consegue se desprender de suas características de loser introvertido até encontrar em uma paixão a mola propulsora para se tornar um galã aventureiro.

Como diretor, Stiller flerta com o cinema indie (tentando referências aqui e ali), sem deixar de buscar o grande público, com sequências de ação, muitos efeitos especiais e uma “lição de moral” enrustida (que o próprio diretor Stiller não respeita, mas venderia muitos livros de autoajuda).

Enquanto o filme se perde nesse zigue-zague entre o cinemão e pitadas de cult, Stiller está na pele de um Mitty com cabelos brancos, se aventurando de skate, pulando de um helicóptero. É o exagero que faz dessa vida secreta de Mitty algo tão fora da curva. É com essa megalomania ao extremo que Stiller joga pelo ralo seu conto sobre viver a vida, desprender-se das amarras, arriscar. Isso, sem falar no humor que exagera nas tintas, encontrando no “fazer de bobo” a única saida para divertir. Como se sair pelo mundo fosse lhe trazer dinheiro e felicidade, e a mulher dos seus sonhos.

Caça aos Gangsteres

cacaaosgangsteresGanster Squad (2013 – EUA)

Los Angeles Cidade Proibida se tornou quase um clássico (mais recente) dos filmes de gangsteres, e desde então ninguém conseguiu superá-lo na guerra policia versus mafiosos. Até mesmo na quantidade de atores renomados (Sean Penn, Josh Brolin, Ryan Gosling, Emma Stone, Nick Nolte), o filme de Ruben Fleischer se assemelha. Pena que as coincidências parem por ai. Uma trama tossida rapidamente, personagens caricatos e atuações rasas, e a completa ausência de charme.

Realizar um filme na década de 40 e não resgatar o charme (da música, dos trajes, de tudo), é um pecado mortal e Fleischer nunca passa perto de acertar no tom. O que lhe resta? Um mero filme policial de tiros, escutas, e mocinhos tentando pegar os bandidos, baseando no livro de Paul Lieberman, sobre um mafioso de Los Angeles (Sean Penn) e um esquadrão da polícia, planejado para prendê-lo, fugindo dos métodos convencionais.

Aqui é o Meu Lugar

This Must Be the Place (2011 – ITA/FRA/IRL) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

E o início prometia um delicioso filme, sobre astros do rock enfrentando idades avançadas. Como aquelas figuras envelheceram e estariam lidando após anos de sucesso, extravagâncias químicas e abuso de álcool? Como envelheceram? Sean Penn constrói Cheyenne num visual gótico, um Robert Smith (vocalista do The Cure) cinquentão que fala e anda lentamente, pinta as unhas e se maquia, e mantém um casamento de 35 anos.

Paolo Sorrentino começa flertando com essa cultura do cinema indie americano, personagens cheios de esquisitices, alheios à sociedade, vivendo sua própria solidão ou incapacidade de relacionamento social (o garoto nerd é exemplo típico do quão desnecessária se torna essa afirmação de gênero).

A primeira parte se esforça em afirmar o quanto esse pequeno clube de personagens se coloca à margem do que se poderia chamar de “normal”. Eles causam estranheza por onde andam, chamam a atenção por mais que queiram passar despercebidos. Preferem utilizar a piscina como espaço para praticar um esporte inusitado, que não tenha água, são artimanhas utilizadas por Sorrentino para seguir afirmando essa condição de cinema indie.

Mais adiante o filme parte para um road movie pelos EUA, outros temas “mais importantes” como a relação pai-filho ou caça nazista aos judeus ganha enfoque (é Sorrentino querendo trazer o peso do político). A referência a Wim Wenders, em Estrela Solitária é automática. Mas aqui, o cineasta vai perdendo o controle da situação de uma forma em que expor é a única maneira encontrada de buscar contundência.

O filme já perdeu sua essência, a graça de Cheyenne ficou pelo caminho, essa busca por satisfazer as necessidades do pai (numa forma de consertar os anos de distancia entre eles) evoca a inconsistência. Resta Sorrentino testando seus maneirismos, abusando dos travellings e da necessidade de explorar os ambientes. Ou buscando o cult nessa brincadeira de mostrar o quanto a juventude olha apenas ao seu umbigo, como na sequencia (picotada) da canção que dá título ao filme.

Poucas e Boas

Sweet and Lowdown (1999 – EUA)

Um falso documentário sobre a biografia de um grande violonista (talvez o segundo melhor da história), vivendo os anos do jazz na dourada época dos anos trinta. É assim que Woody Allen pauta mais uma de suas comédias, um sujeito excêntrico que não se permite assumir o romantismo que há dentro dele. Grosso, estúpido, e com um quê de bon-vivant, o genial músico (interpretado por Sean Penn, ora caricato, ora divertido) flerta com as garotas levando-as para dar tiros em ratos no lixão ou olhar os trens cruzando os trilhos de uma estação qualquer. A falsa biografia é a Estrada encontrada por Allen para contar fatos curiosos, levante hipóteses malucas, brincar com o personagem a seu bel-prazer, em alguns momentos obtendo resultados divertidos e em outros não tão inspirados.

A Árvore da Vida

The Tree of Life (2011 – EUA) 

Uma ode à vida, um filme-testamento, a dor humana em seu estado latente. Apenas fragmentos conectados a alguma cronologia de uma história familiar não linear. Aspectos da vida de um pai, versos soltos sobre a tarefa do viver. Difícil definir o resultado dessa realização de Terrence Malick, melhor, não pede definição, não há necessidade. Verdadeiramente, trata-se de uma experiência, e uma experiência sensorial, auditiva, sensitiva e intuitiva (só para ficar em alguns termos). “ame cada folha, ame cada raio de sol” pode soar como autoajuda, um desses workshops ou Powerpoints, retocados pela pretensão absurda de um realizador que conecta a vida de uma família de pai opressor à formação do planeta, à existência dos dinossauros.

Não é bem isso, mais próximo está de uma espécie de ensaio, a leitura da mente de personagens angustiados, Malick traduz suas maiores ambições num conjunto de sequencias onde o importante é o nos fazer sentir. E como ele nos faz sentir. Seja a dor da relação pai-filho, seja a perda, ou a solidão. Malick deixa espalhadas pequenas percepções, como se semeasse na mente do público, sem nunca perder as obsessões de sua “pegada” autoral.

A felicidade (e um pedido de atenção) nas pequenas coisas, nas pequenas belezas. O amor como necessidade humana, e a solidão que infelizmente aflige a praticamente todos. Um filme sobre a vida, e sobre as relações humanas, cenas lentas, repletas de narração em off que mais embaralham do que explicam. Seria uma forma de poesia? Talvez, sim, talvez não, Malick propõe um jogo. A vida, a morte, a fé, os sentimentos incorrigíveis que se acumulam, que afastam as pessoas. Tudo isso refletindo essa experiência grandiosa. Não se trata de um filme fácil, porque devemos captar esse universo simultaneamente macro e minimalista. Malick vai ao grandioso, mas quer tratar do minúsculo, e fere, nos faz sentir o vazio que não está entre os corpos num abraço paterno, mas entre as almas que habitam o mesmo lar e ainda assim tão desconectadas.

Além da Linha Vermelha

The Thin Red Line (1998 – EUA) 

E Terrence Malick visita a guerra. Um hall gigante de estrelas de Hollywood incorpora membros das tropas americanas no período da Segunda Guerra. Porém, Malick segue fiel às suas origens e obsessões, e foge do filme de geurra convencional, como era de se esperar. Em seu início, privilegiando alguns diálogos, com personagens mais burocráticos, é a forma como o cineasta questiona valores do exército. É no fogo cruzado que o filme realmente mostra sua força.

Pense num filme de guerra onde não importa quem está lutando, onde a vitória na batalha está ali sem que heroísmos sejam foco, e sim a sensação de se estar ali entre as vibrações da natureza, o medo e sua presença fundamental. Resumindo, onde o que se sente dentro da alma e não dentro da mente, Malick consegue aqui o que talvez seja o seu grande filme. Um trabalho intuitivo, que pode estar permeado do dia a dia de um pelotão, mas está totalmente focado nas relações dos soldados com seus momentos, com seus temores, com a dor da perda, ali ao seu lado. Ou a saudade de casa, mas, sobretudo com o ambiente que os cerca, onde o inimigo está presente, ali escondido e pronto para o bote.

A Intérprete

The Interpreter (2005 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Escolheram um país fictício, foi até melhor, seria injustiça mirar na história político-sangrenta de um país africano, e deixar que vários outros escapassem ilesos da imagem de genocídio, como se aquela fosse uma história isolada. Líderes que pregam a paz durante sua fase de guerrilheiros, e ao subir ao poder tornam-se ditadores implacáveis, promovendo verdadeiras carnificinas, pelo país, são a triste realidade de grande parte do continente africano.

O que ganha dimensões além da história é o cenário, o filme já ficou marcado como o primeiro gravado dentro da sede da ONU. Muitos cineastas tentaram permissões, e só Sidney Pollack conseguiu convencê-los a abrir os salões da organização. Talvez tenha sido uma escolha política, já que a ONU está com sua imagem fragilizada depois dos acontecimentos políticos no Iraque, principalmente na decisão dos EUA de não aceitarem o veto do Conselho de Segurança contra a invasão. Não importa, ao filme, a utilização desse cenário foi altamente benéfica, trazendo realismo.

E no grande salão que a trama tem seu estopim, quando por acaso a intérprete Sylvia Broome (Nicole Kidman) ouve um diálogo em que se tramava o assassinato do presidente Zuwanie (Earl Cameron) de Matobo. A situação política daquele país fervilhava, e Zuwaine pretendia discursar na ONU em buscar de apoio. Silvia procura a polícia, desconfiados os agentes trabalham com a hipótese do atentando, enquanto investigam a própria intérprete. Qualquer outro detalhe estragaria o thriller.

Pollack nos reservou boas doses de suspense, alguns deles realmente eletrizantes como a fantástica seqüência no ônibus. Porém, em vários momentos e com clichês a exaustão o filme se torna sentimental ao extremo. A cena em que o lenço umedecido limpa o rosto, com sangue, talvez seja o ápice desse sentimentalismo banal. Essa gangorra, de bons e maus momentos, traduz a irregularidade do filme, se o silêncio substituísse alguns diálogos já teríamos um resultado melhor. O agente secreto (Sean Penn) é usado pela interprete como bola de ping-pong, sua vida pessoal escancarada é a maneira encontrada pelo roteiro para dar um toque romântico à história.