Posts com Tag ‘Selton Mello’

O Filme da Minha Vida (2017) 

Selton Mello está empenhado no lançamento de seu novo filme, talvez mirando a escolha do Brasil para concorrer ao Oscar. Entrevistas, festas e pré-estreias, pelo Brasil, é assim que se lança um filme no exterior. Que se faça assim mais vezes. É uma adaptação do livro Um Pai de Cinema, do chileno Antonio Skármeta e resgata bem o que conhecemos do livro mais famoso desse autor: O Carteiro e o Poeta.

Desde que Selton começou a também dirigir, surgiu um contador de histórias, com olhar sentimental e melancólico. Flertando muito com um cinema mais clássico (nesse novo trabalho, talvez, até envelhecido). Selton narra, cheio de lirismo estético e silêncios estudados, a transformação para vida adulta de um garoto, que pouco se encaixa no tipo normal que vive no interior das Serras Gaucha. Professor de francês, sofre com a inexplicada ausência do pai, enquanto descobre o amor, o sexo, e desenvolve sua paixão por cinema.

Não deixa de ser uma homenagem à sétima arte, que deixa mais o gosto de repetição do que já foi visto tantas vezes, do que o sabor de algo novo e inspirador que esse início de carreira de Selton poderia indicar. É um tamanho de filme que falta ao cinema brasileiro, e tomara que ocupe seu espaço, mas, tomara também que possa trazer algo novo, e que Selton continue com seu entusiasmo nesse desafio colossal que é fazer cinema no Brasil.

umahistoriadeamorefuriaUma História de Amor e Fúria (2013) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Da época do Descobrimento do Brasil até o final do século XXI, Luiz Bolognesi tenta condensar quase 600 anos de história do nosso país em 4 pequenas histórias, em que o mote é a lamentação da humanidade preferir a fúria ao amor. A beleza gráfica e o didatismo narrativo são características que saltam aos olhos, enquanto o 2D (acrescido de CGI) formam um agradável aspecto fugindo dos padrões mais utilizados nas animações atuais, a narrativa demasiadamente rasa e explicativa absorve grande parte da força que a trama poderia galgar.

Pequenos fatos históricos, prevalecendo sempre o conflito entre o dominador e dominado, e no meio da confusão a história de amor entre o narrador imortal (Selton Mello) e sua Janaína (Camila Pitanga). Índios e navegadores europeus, o povo e os militares, o período da ditadura, e no futuro, quando a água seria o petróleo dos dias atuais, séculos de conflitos e sangue escorrendo. Faz justiça a história desse país de tantas injustiças e já nos previne para um futuro que pode não ser nada pacifista e igualitário.

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O Palhaço

Publicado: novembro 15, 2011 em Uncategorized
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 (2011)

“Tô cansado” “De quê?” “De tudo”, esse simples diálogo quase resume o filme. Mas, você, que já tem meia dúzia de histórias para contar nessa vida, já sentiu (ou sente diariamente) essa sensação melancólica de que está tudo errado, de que os caminhos que a vida te levou não são os que você deveria ter seguido, que no fundo “tá tudo errado mesmo”? Se não, sinta-se um grande privilegiado, você é minoria, porque o que mais se você nessa vida é gente carregando essa desilusão, e o peso do “se” pairando sobre os ombros. E o novo trabalho como diretor de Selton Mello pega emprestado o mundo do circo, mas quer mesmo é tratar desse quê deprimido enraizado em tanta gente. O filme traz essa melancolia nata, esse sorriso amarelo de um palhaço que faz tanta gente rir, e quem vai fazê-lo sorrir?

Um filme divertido, afinal é o mundo do circo, não faltam apresentações para Selton e Paulo José mostraram seus dotes de comediantes (até um momento quero ser Chaplin num caminhão de bóia-fria), mas por trás há toda a rotina quase miserável de uma trupe circense cruzando o interior do país, apenas sobrevivendo. Dentro dessa atmosfera sem perspectivas, sem esperança, surge o cineasta Selton tentando se encontrar, sua meta é clara, aproximar o artístico do popular, sua narrativa é simples, quase em tom de fábula, ainda assim busca cenas que vão além da ação, tenta trazer o reflexivo, almeja a poesia. Porém, seu filme é limpinho demais, tudo muito singelo, muito delicado, seu olhar é realmente carinhoso com tudo e todos, falta a sensação de suor, o cheiro de terra. É um filme cheio de boas intenções, realmente engraçado e capaz de se enxergar na tela como metáfora daquele palhaço em busca de sua real vocação (assim como estamos quase todos nós, não?).

Lope (2010 – ESP)

E o brasileiro Andrucha Waddington foi até a Espanha para filmar a biografia de um dos maiores poetas espanhóis, Lope de Vega. A vida de Lope tem tantos elementos cinematográficos que ficou fácil trazer à tela um filme interessante e de grande acesso ao público, temos ali a rebeldia de um gênio dos versos, temos paixões arrebatadoras dentro das convenções sociais que a época impunha, temos disputas de espada, e uma bela fotografia que sintetiza tudo isso numa Espanha de edificações e telhados que se confunde com vestimentas e um céu azul-acizentado. Tem uma estrutura clássica, tradicional, a força está em alguns personagens femininos que colocam o amor acima de outros sentimentos e interesses próprios, mulheres fortes que sabem o que querem.

Garotas do ABC (2003) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

A mescla de miscigenação populacional com fascismo em uma região urbana – um pólo estritamente industrial, que esconde até tribos indígenas, o berço do sindicalismo brasileiro. Assim é colocado o ABC (na região metropolitana de São Paulo). Os tempos áureos da indústria automobilística ficaram para trás, a efervescência política que resultou na criação de ícones como o próprio Presidente da República (Lula) ganhou o país. Já o encanto da região se perdeu com o tempo.

Empresas fecharam, empregos minguaram. É o ABC como fiel retrato de nosso próprio país, um lugar patinando pelo crescimento. Favelas e bairros abastados convivem lado a lado, uma região inclassificável, formada por povos e nações de distinções mil. Nesse quadro, Carlos Reichenbach começa a apresentar seus personagens. Mais uma vez, não há protagonistas, (apenas personagens-chave) e a pluralidade de temas é a vertente principal. Muito provavelmente, aí estão os maiores problemas do filme. Abrir demais o leque não permite que arestas sejam eliminadas, beirando assim a superficialidade.

Outra questão é a direção frouxa de atores, problema recorrente nos filmes do grande Carlão. Muitos diálogos soam como decorados e artificiais.  Situações no mínimo irreais e um roteiro que tinha ingredientes fortes para atingir vorazmente certos pontos da sociedade deixam escapar oportunidades. São dois pólos de personagens, um grupo de funcionárias de uma fábrica de tecelagem e os amigos insuportáveis do namorado de uma delas. Atentados anti-semitas, dificuldades financeiras, diversidade sexual, acidente de trabalho. Carlão tenta resumir, em 2 horas, todas as condições vividas por esse micro ecossistema.

Aliar arte ao brega é um dom para poucos. Nesses momentos, Reichenbach brilha: da admiração de Aurelia (Michelle Valle) por Schwarzenegger a toda cena do baile, passando pela épica cena do discurso inflamado do excêntrico filhinho de papai (Selton Mello) pregando uma limpeza racial enquanto a câmera gira num 360º alucinante.  São pontos que só o cinema marginal de Reichenbach teriam a capacidade de harmonizar.

O Auto da CompadecidaO Auto da Compadecida (1999)  estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

O sucesso da tv foi parar no cinema, a minissérie baseada na obra de Ariano Suassuna ganha as telas em seu tom de comédia rasgada retratando o cotidiano nordestino de fome, ganância, poder e miséria. Tudo mostrado com bom humor e inteligência. Entre os personagens inesquecíveis, um misto da obra de Shakespeare (O Mercador de Veneza) e tipos populares e representativos da região, alguns clichês como o marido submisso, a esposa adúltera, o padre e o bispo gananciosos, o matador sem piedade, que funcionam perfeitamente no tom cômico e altamente critico.

Chicó (Selton Mello) e João Grilo (Matheus Natchergaele) vivem armando as mais terríveis confusões para se safar da fome e da miséria em que vivem. Chicó é um contador de histórias, as mais absurdas e mentirosas. João Grilo é o bom de papo, e quem acaba sempre colocando os dois em confusões. Tudo começa quando a dupla arruma emprego na padaria de Dora (Denise Fraga) e seu marido (Diogo Vilela), e o cachorro da patroa morre, e eles tentam convencer o Padre João (Rogério Cardoso) a fazer o enterro do cão. Para convencer a santidade local, eles inventam uma história onde envolvem até o coronel da região.

Sempre que as coisas se complicam, eles inventam novas histórias (mentiras) ainda mais mirabolantes, que os salvam de imediato para criar uma bola de neve, ainda maior, logo adiante. Quando Chicó apaixona-se casualmente por Rosinha, a filha do coronel, as coisas começam a piorar. A moça, também, é pretendida pelos dois maiores valentões da cidade, e lá vai a dupla ter que enfrentar mais essa situação delicada. Sem falar no cangaceiro (Marco Nanini) chegando para assaltar toda a cidade.

A direção de Guel Arraes permite que todo o folclore e miscelânea de nordeste de Suassana e Shakespare funcionem num ritmo primoroso, numa linguagem simples e eficiente. Seu maior problema está exatamente nessa transposição do cinema para tv, os cortes bruscos em muitos pontos da história, já que a minissérie era muito maior que o filme, são como um corpo decepado. Ficando assim calcada na excelência do texto e nas interpretações iluminadas de todo o elenco. Realmente, só com o juízo final para resolver tanta teimosia e invencionismo.

guerra-de-canudosGuerra de Canudos (1996)  estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Um dos principais momentos da história do país relatado sob a ótica de uma família nordestina. Pouco se fala sobre como foi formado, ou os motivos do movimento, os holofotes do filme estão todos sob a vida dessa família em questão. As dificuldades, a situação imposta pela nova república, a alta cobrança de impostos, Canudos foi apenas um povoado organizado, onde as pessoas lutavam em prol da comunidade. O interesse de todos prevalecia. Mas isso era uma afronta aos governantes, que não poderiam aceitar um povoado que pudesse se auto-organizar, ser tão independente.

A história começa com as dificuldades da família de Zé Lucena (Paulo Betti), na miséria e o pouco que tinham o Estado tomou para recolhimento de impostos. Desiludido, Zé Lucena decide seguir, com sua família, na peregrinação de Antonio Conselheiro (José Wilker), uma espécie de Messias que pregava a palavra de Deus, e era seguido por centenas de fiéis.

Depois de meses caminhando, Antonio Conselheiro escolhe um lugar para formar um povoado com seus seguidores. Ali constroem suas casas, e fincam um vilarejo próspero. Sabendo do poder do lugar, o presidente Floriano Peixoto manda tropas, e dá-se início a Guerra de Canudos. Começa uma batalha dolorosa e sangrenta, marcada nos livros de história do Brasil.

O diretor Sergio Rezende, especialista em temas históricos brasileiros, suscita o conflito religioso, e as verdadeiras razões do governo, partindo apenas da vida dessas famílias e dos soldados durante a guerra.