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El Abrazo Partido (2004 – ARG/FRA/ITA/ESP) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Jovem pretende tirar sua cidadania polonesa, para mudar-se, e fugir da crise que assola a Argentina. Essa frase não passa de uma grande papagaiada, sinopse rala, daquelas que fogem do tema do filme com o intuito de conquistar interessados no público cinéfilo. Não que esses assuntos não estejam inseridos no contexto do filme, pois estão, mas eles são adjetivos que qualificam e enriquecem a obra e o tema.

O tom é de comédia para tentar ser mais atual, de cara pinta-se um retrato da situação dos imigrantes que se fixaram pela Argentina (na verdade no Cone Sul) no fenômeno da Segunda Guerra Mundial. Uma galeria decadente mantém as mesmas lojas e os mesmos donos há quarenta, cinqüenta anos, vendendo produtos antiquados para um público conservador. Ariel (Daniel Hendler) é filho de uma vendedora de lingerie nessa galeria, o rapaz quer a todo custo tirar sua cidadania polonesa e conhecer a Europa. Seu pai largou sua família há mais de vinte anos (sem maiores explicações) para lutar na Guerra de Yom Kuppur e nunca mais voltou.

Ariel mantém uma curiosidade aguçada sobre o pai e os motivos que o levaram a abandonar a família, mas o jovem transveste essa curiosidade em um ressentimento inflexível. Se a amargura com o pai é o tema central, outros dissabores e peculiaridades circundam Ariel, seja o arrependimento de ter se separado da namorada perfeita, seja a estranha relação que mantém com uma fogosa quarentona que mantém na galeria uma Lan House apadrinhada por um senhor de idade. A impaciência no trato com os familiares mais velhos, como mãe e avó, o desprendimento das raízes culturais e religiosas. Coisas tão típicas dos jovens que não ligam para certos valores, que acham que tudo não passa de besteira.

O diretor Daniel Burman realiza um filme gostoso de assistir, mesmo com sua câmera deveras excessivamente agressiva. Levemente divertido, repleto de verdades corriqueiras e focado num tipo de crise familiar comum. Esse desentendimento entre pai e filho, essa barreira criada pela intransigência, o choque entre o pensamento do novo e o do velho. Infortúnio são alguns dos apêndices que servem apenas para tornar folclórica a história e seus personagens, o irmão de Ariel e seu fiel escudeiro Ramon são como ancoras que não deixam o filme correr. Trazem uma brisa de humor, que mais atrapalha do que ajuda.

É falso dizer que o filme discute a crise Argentina, serve mais como documentário de como alguns imigrantes pararam no tempo e não conseguem adaptar seu comércio a nova realidade global. Ariel desfila entre esses personagens lisonjeiros, e seu personagem tinha muito mais a ser explorado. Além da fúria paterna ele possui algo explosivo e um olhar jovial que poderia muito bem apontar hiatos. Por fim acaba meio como mamão com açúcar, não desaponta, mas também não atinge longos vôos.