Posts com Tag ‘Sharunas Bartas’

pazparanosemnossossonhosPeace to Us in Our Dreams (2015 – LIT) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Sharunas Bartas estava lá na sessão de abertura do Indie, e quando indagada sobre o que se tratava o filme foi categórico “sobre pessoas”, no máximo conseguiram tirar dele “não há muito a falar sobre”. A economia nas palavras, tão comum na maioria de seus trabalhos anteriores, se prova ser característica do próprio autor.

Em seu mais recente filme, ainda me restam os dois anteriores para compreender melhor os caminhos de sua filmografia, Bartas surpreende pela narrativa mais próxima do usual (claro, dentro do que pode se esperar de seu cinema). Os silêncios são, agora, preenchidos por diálogos, muitos deles. Dramas pessoais expostos por palavras não são o forte de seu cinema, e aqui se repete sua dificuldade.

O próprio Bartas é um dos personagens centrais, o pai da adolescente amiga do garoto que vive num pequeno mausoléu, perto da casa de veraneio da família. Na vizinhança um casal de velhos, bem estranhos, meio brutamontes. Enquanto o pai tenta trazer ensinamentos de vida à filha, ou falar da mãe, a namorada violinista vive seus dramas. Intolerância, violência, Bartas tenta pregar a paz em seu discurso, novamente explorando a beleza da natureza, capaz de criar algumas cenas de beleza estonteante, e aproveitando-se perfeitamente do som que a região bucólica oferece. Mas, enquanto a narrativa silenciosa demonstra força e progredi à maneira de seus melhores trabalhos, as senquencias com diálogos oferecem a fragilidade dos discursos morais corretos de um envelhecimento que troca o questionador pelos ensinamentos morais.

Liberdade

Publicado: setembro 18, 2015 em Cinema
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liberdadeFreedom, 2000 – LIT) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Talvez o mais potente filme de Sharunas Bartas, até aqui, ganha maior relevância se conectado ao recente drama dos refugiados na Europa. Um navio abordada pela guarda costei, foge e é atacado por metralhadoras. Três náufragos sobreviventes, nem todos falam a mesma língua. Numa praia no Marrocos, isolados de tudo, sobrevivem entre diferenças e o quase silêncio.

Novamente, Bartas abusa dos longos planos que se aproveita da natureza, enquanto problematizam sobre a liberdade. Afinal, do que vale a liberdade no local inóspito como aquele? A dor evidenciada pelo silêncio, ou pelo trato ríspido que a diferença de idiomas intensifica. Os náufragos/refugiados até encontram uma aldeia, não que isso vá resolver seus problemas, Bartas apenas acrescenta a mesma intensidade do questionamento da liberdade, enquanto sua narrativa firme  nunca perde o sabor amargo daqueles rostos fatigados pela vida.

A Casa

Publicado: setembro 18, 2015 em Cinema
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acasaThe House (1997 – LIT) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Em plano geral, camera fixa, a frente de uma mansão enquanto uma espécie de carta é lida. Carregada de pesar, endereçada à mãe, lamenta a distância, a incomunicabilidade. A figura da mãe pode dar interpretação a nação, a recém-criada Lituânia, ou a recém-abonadana União Soviética. O texto dúbio é apenas o primeiro sinal do subjetivo latente. O plano a seguir é de dentro da casa, pombos vestidos como se fossem burgueses numa festa de carnaval. O protagonista desperta, de maneira pouco natural, e a imagem trafega por entre os cômodos, encontrando todo tipo de gente. Jovens, velhos, deformados, bonitos, em cantos escuros, sem falas.

Como num sonho onírico, o filme de Sharunas Bartas viaja pela fantasia, incita possíveis memórias. Orgias quase virginais, corpos que se movimentam livres pelos espaços, animais que invadem os espaços, e outro conjunto de planos independentes e fortes de forma impressionante, enquanto a casa serve como fio-condutor para essa atemporalidade que só o subsconsciente parece exprimir. O final volta ao plano geral, desta vez aos fundos da mansão invadida. Se o texto inicial parecia tão ligado emotivamente à figura materna, dessa vez a pátria mãe é nítida ecoada, por alguém em busca de sua identidade.

indie2015capasiteDepois de passar por BH, começa hoje, novamente com exlusividade no Cinesesc, a temporada paulistana da 15ª edição do Festival Indie. A cada ano mais solidificado e representativo, já se tornou o marco do início da temporada dos festivais no Brasil que exibem os grandes destaques do ano. E este ano, novamente, a programação está recheada de destaques aos cinéfilos. Por exemplo, os fãs poderia assistir ao documentário Eu Sou Ingrid Bergman, comemorando o centenário da atriz.

Um dos mais aguardados, sem dúvida, é o novo filme de Apichatpong Weerasethakul (que em edições recentes foi alvo de retrospectiva completa no Indie), o seu Cemitério do Esplendor foi exibido na Un Certain Regard deste ano, juntamente com o romeno O Tesouro de Corneliu Porumboiu. Sensação em Sundance, o americano Tangerina de Sean Baker (Príncipe da Broadway e Uma Estranha Amizade), do festival de Roterdã vieram La La La at Rock Bottom, de Nobuhiro Yamashita, os chineses Pai e Filhos, do chinês Wang Bing e Poeta em Viagem de Negócios, de Ju Anqi, e o principal destaque para Ponto de Fuga, do tailandês Jakrawal Nilthamrong.

De Locarno, o retorno do argentino O Movimento, de Benjamin Naishtat (Bem Perto de Buenos Aires), de Veneza Hill of Freedom, do celerado coreano Hong Sang-soo. De Tribeca chega Necktie Youth, de Sibs Shongwe-La Mer. E de Berlim, de olho em Contando, de Jem Cohen, e no turco Até que eu Perca o Fôlego, de Nefesim Kesilen Kadar. Fora dos grandes festivais, O Paraíso, do veterano Alain Cavalier, e Na Ventania, dirigido por Martti Helde pode ser interessante. E para quem ainda não viu na última Mostra SP, tem A Ilha dos Milharais, que ganhou a edição de 2014 de Karlovy Vary.

Há ainda duas retrospectivas, a ainda pouco conhecida no Brasil, Kira Muratova, cineasta russa de muitos trabalhos censurados na União Soviética. A do lituano Sharunas Bartas compreende todos seus trabalhos, para quem está preparado para filmes silenciosos, os filmes de Bartas são experiências imperdíveis que normalmente são destaques nos grandes festivais internacioanis. A abertura do evento será realizada com seu último trabalho Paz para Nós em Nossos Sonhos, que também esteve em Cannes, e seus demais filmes também merecem atenção: Na Memória de um Dia que Se Foi, O Corredor, Três Dias, Pouco de Nós, A Casa, Liberdade, Sete Homens Invisíveis, Renegados do Leste (que no Indie foi batizado como O Nativo da Eurásia).

Pouco de Nós

Publicado: setembro 14, 2015 em Cinema
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poucodenosMūsų nedaug / Few of Us (1996 – LIT) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Na montanha Sayan, numa das inóspitas regiões da Sibéria, chega um helicóptero. Uma jovem (Yekaterina Golubeva) desce no meio de uma tribo Tofalar. Filme sem diálogos, que dirá explicação do que aquela mulher veio fazer ali. O cineasta lituano Sharunas Bartas lança o público num mergulho imagético, pelas profundezas dessa civilização inimaginável, de apenas dezenas de pessoas. Majoritariamente solitários, de tristeza nos olhares, vivem do alcoolismo e do frio profundo.

O filme é constituído de um conjunto de imagens de plasticidade impecável, dentro dos tons de cores frias. Rostos, pessoas mortas, enquanto a trilha sonora maravilhosa capta essa viagem rumo a frase do escritor Ribnikov “We are but few, damn it, so few, but worst is that we are separated from one another.”, que serviu de inspiração a Bartas.

Critica ao governo soviético ou apenas um profundo estudo da humanidade longínqua? Bartas vai além dos questionamentos, com imagens ele permite a viagem pessoal em tudo aquilo pode representar. A degradação humana, a confecção de sociedade longe do que conhecemos, é de mistério e rigidez crua que seu cinema se potencializa num mundo desolador.

O Corredor

Publicado: setembro 13, 2015 em Cinema
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ocorredorKoridorius / The Corridor (1995 – LIT) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Após sua primeira experiência de filmes com diálogos (Três Dias, interessante porém inferior ao seu primeiro trabalho), Sharunas Bartas retorna ao cinema sem diálogos. Na cidade de Vilnius, na Lituânia, uma legião de pessoas a travessa a cidade, a pé. Tempos de independência do país da União Soviética. Tendo por base um corredor, de um conjunto habiotacional, Bartas e sua câmera voyeur flagram o cotidiano da pobreza, os contrastes, a violência crua ligada a inocência infantil.

Uma garota com uma espingarda atira à queima-roupa em um passarinho, roupas no varal pegando fogo. Outra vez Bartas embaralha a narrativa com um conjunto de imagens, contínuas, porém soltas, aglutinadas de modo a formar esse retrato em preto e branco. Música, dança, alegria, de outro lado violência, solidão, desesperança. Intrigante como o filme começa com esses personagens fragmentados, para, em seu final, uni-los numa espécie de festa. Tão simples, mas tão divertida.

Na Memória de um Dia que Se Foi

Publicado: setembro 9, 2015 em Cinema
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memoriadeumdiaquepassouPraejusios Dienos Atminimui / In Memory of the Day Passed By (1990 – LIT) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Em seu primeiro trabalho, o lituano Sharunas Bartas realiza, um documentário de média-metragem em preto e branco, já com suas características marcantes (como a ausência de diálogos, a diversidade de planos abertos e supercloses, a miséria humana em evidência). Um dia qualquer, numa cidade encravada na União Soviética. Sob o olhar de Bartas, a câmera apenas registra a fila de homens com suas maletas chegando ao trabalho, os rostos fastigados dos mendigos pelas ruas. A neve, fria e linda, constratando com o longo caminhar de alguém. O religioso que paga penitencia anadando de joelhos pela calçada. O aparente nada-demais do filme é exatamente o oposto, capaz de nos aproximar das mazelas, de trazer para a perto o áspero daquelas vidas, são corpos, rostos, as construções singelas, e essa memória de outro dia que se passou.