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A Assassina

Publicado: novembro 25, 2015 em 5 Estrelas, Cinema
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assassina

Nie Yin Niang / The Assassin (2015 – Taiwan) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

A introdução, de quase dez minutos, em preto e branco e tela quase quadrada (1.85:1), posiciona, com precisão, o tempo e o timing do novo filme de Hou Hsiao-Hsien. Na primeira cena, uma anciã indica a sua pupila, assassina treinada (Shu Qi), o homem que ela terá que matar. Na cena seguinte, a doce câmera característica de Hsiao-hsien, foca uma criança brincando em família. O travelling acompanha o ambiente, desnuda a locação, até que aparece a assassina, e desiste de sua missão por conta da criança. A introdução termina com as ordens de sua nova missão, matar seu primo. Há muito mais do que o simples parentesco nessa ligação, quando crianças eles haviam sido prometidos em casamento.

Não há mais nada a saber do roteiro, a seguir Hou Hsiao-Hsien constrói um dos espetáculos visuais mais incríveis do cinema. O filme ganha cores, e a cultura cinematográfica do cineasta parece chegar à plenitude. Enquanto trata, delicadamente, dos sentimentos pessoais da assassina, o filme constrói plasticamente um balé de imagens hipnotizantes.

O formalismo, a conjunção rica dos diferentes tipos de planos (destaque para as imagens entre véus que causam outro tipo de beleza escandalosa), a riqueza dos sons e das cores, a beleza com que Hsiao-Hsien filma a natureza e os sentimentos conflitantes. Tudo é sereno e escandalosamente contido, principalmente a protagonista. Tão delicadamente orquestrado a culminar na poesia visual, o dentro e o fora do campo, as elipses, o filme do ano.

10+10 (2012 – Taiwan)

Taiwan comemora 100 anos e o Festival de Cinema de Tapei Golden Horse encomendou, a cineastas locais, curtas de até cinco minutos de duração. Não poderia ter ficado pior a homenagem já que a qualidade e o conteúdo de praticamente todos é irrelevante, tola, chega a não ter razão nenhuma para ser assistido. Hou Hsiao-Hsien volta a trabalhar com Shu Qi em Belle Epoque, seu trabalho fecha o filme, uma família revendo fotos antigas, um presente entre mãe e filha, casa bem com sua filmografia (mesmo que sem grandes inspirações) e de longe o que se salva dentro desse universo de tolices.

Se você é um dos, aproximadamente, 5 leitores que devem visitar esse blog regularmente, as vezes me pergunto o que voces vem fazer aqui (não que não sejam bem-vindos, porque mais que são, mas ainda assim me pergunto) nessa espécie de caderno de anotações de cinema. Pois bem, se voce faz parte desse minúsculo grupo, e se não sabe que minha cinefilia começou oficialmente em Fevereiro de 2002 quando escrevi meu primeiro texto que foi parar na internet num blog/site qualquer (e o filme era Uma Mente Brilhante), saiba que nos últimos dias completei 2000 filmes vistos desde então. Na verdade é só um numero, não representa nada, não quer dizer nada além de que sou um cara metódico e organizado que assiste uns 200 filmes/ano e anota cada um deles numa planilha.

Então, no fundo, essa balela toda não tem importância nenhuma, eu queria mesmo era chamar atenção para o mergulho que fiz na filmografia do cineasta chines, radicado em Taiwan, Hou Hsiao-Hsien. Infelizmente não pude conferir aos dois primeiros trabalhos (Menina Bonita e Vento Gracioso), mas já sei que não são filmes que acrescestem muito à sua obra. Essa espécie de maratona veio logo após ter assistido a alguns de seus filmes mais recentes (que já foram publicados aqui). Ao seguir cronologicamente sua carreira é fascinante descobrir o ritmo de mudanças e amadurecimento de seu trabalho, transições, reafirmações, enfim, a constituição da obra de um autor. Por isso, começo hoje uma sequencia de publicações de minhas impressões sobre todos esses filmes (abaixo links para os textos dos publicados anteriormente, que acabei assistindo antes dessa maratona).

Meus 5 leitores, quem sabe não desperte em voces, a vontade de assistir a 1-2 filmes desse cineasta, pelo menos, posso afirmar que pode ser uma experiência revigorante. Desde seus trabalhos iniciais num estilo Sessão da Tarde (como Grama Verde de Casa ou Um Verão na Casa do Vovô), onde a cada filme a idade das crianças-protagonistas avançam enquanto somos apresentandos ao ritmo de vida pacato de Taiwan ao longo de décadas passadas (o mais autoral e importante deles é Os Garotos de Fengkei, marcando a primeira mudança em sua carreira).

Mais adiante, filmes que misturam esse cotidiano com a história do país (Um Tempo para Viver, Um Tempo para Morrer), a relação com a China Continental e a dominação japonesa na Segunda Guerra Mundial, culminando com a trilogia que leva essa abordagem política ao ápice (Poeira no Vento, Cidade das Tristezas, e O Mestre das Marionetes). Alguns falam em esgotamento de sua fórmula em Bons Homens e Boas Mulheres, a meu ver é um filme de transição, ele conecta seu velho cinema ao que estava prestes a iniciar, são dois filmes dentro de um, o mundo contemporâneo com lirismo e a história política revisitada.

Com Adeus ao Sul ele buscava o experimentalismo, seu estilo como cineasta estava depurado, mas ele queria buscar os limites como um tenista que tenta jogar cada vez mais próximo das linhas da quadra. Ele dispensa o roteiro para apurar sua técnica. Em seu trabalho mais festejado ele dá um passo atrás, Flores de Xangai viaja ao mundo dos prostíbulos de luxo do fim do século XIX.

Em Millenium Mambo começava sua parceria com a atriz Shu Qi, já, definitivamente, no mundo comtemporâneo, Hsiao-Hsien mergulha na relação conturbada de um jovem casal, o cineasta filma mais que a juventude, ele encontra a paixão distante da razão. Café Lumiére é sua homenagem a Ozu, levando sua trama ao Japão ele narra a história de uma garota independente.

Em Three Times ele utiliza um mesmo casal e três épocas distintas para narrar o amor (a terceira história é linda , mas a primeira é uma das maiores obras-primas do cinema). Seu último trabalho lançado nos cinemas foi A Viagem do Balão Vermelho, Juliette Binoche vive a mãe de um garoto, o filme praticamente não sai da sala onde tudo acontece naquela casa, outra bela homenagem, dessa vez ao clássico frances O Balão Vermelho.

Three Times *****

Millenium Mambo ****

A Viagem do Balão Vermelho ****

Café Lumière ****

Minha Mulher Mafiosa 3

Publicado: agosto 6, 2011 em Cinema
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My Wife is a Gangster 3 (2006 – COR) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Fico me perguntando como uma pessoa sã tem a mínima vontade de assistir um filme como esse. É muita tosqueira junta. Ok, você pode ficar se perguntando como posso reclamar, se eu mesmo o assisti. Mas, tenho a explicação na ponta língua. Cheguei ao filme por vias tortas, por um interesse pela atriz, e acabei aceitando o que aparecesse pela frente. Mas, a questão volta, qual o tipo de interesse que suscita um filme desse calibre.

Qualquer fiapo de história é balela, o roteiro só cria subterfúgios para um único prol: humor físico e tolo. Fora as tolices, há também a necessidade de surgir um romance absurdo, entre um boboca metido a gângster, e uma garota durona e boa de briga. Além disso, só tolices, tudo bem que dentro dessas tolices imbecis, você pode até se pegar dando risadas, como na cena de perseguição de carros, quando o único caminho é uma escadaria. Mas, é um nada dentro de tantas idiotices piegas que o cineasta Jin-gyu Cho teve coragem de filmar. E, enquanto isso, Shu Qi está lá, desperdiçando seu talento, já que prefere expor apenas seus dotes físicos e alguma exposição a um publico maior. Shu Qi, volte aos filmes de Hou Hsiao-Hsien, que sabe muito melhor te aproveitar em cena.

Three Times

Publicado: março 23, 2011 em Uncategorized
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E encerrando essa primeira parte da maratona Hou Hsiao-Hsien, vem meu filme favorito, até agora (a primeira das 3 história é uma obra-prima). Seu filme mais recente é o delicioso A Viagem do Balão Vermelho.

Zui Hao de Shi Guang / Three Times (2005 – TAIWAN/FRA)

Os dias estão passando e a vontade imensa é de rever, não só Three Times como os outros filmes que já vi de Hou Hsiao-Hsien, e infelizmente foram poucos, ainda. Vou falar agora especificamente de Three Times, mas a sensação é a mesma sob todos eles, só que esse se aproxima milimetricamente de Wong Kar-Wai, e de uma forma primorosa. Seus filmes trazem o dissabor ao coração, mas é de forma tão lírica que o gosto amargo aproxima-se do chocolate, é um gosto prazeroso, além de um colírio permanente aos olhos. São três histórias, sempre o mesmo casal de atores (Chen Chang e Shu Qi, a atriz mais linda do universo atualmente?), em três épocas distintas, tratando do amor platônico, sexual ou impossível.

Um clube de bilhar, o ano é 1966, o som de Smoke Gets in Your Eyes penetra em nossos ouvidos, parece surgir do pano da mesa ou das paredes de pintura gasta, não importa, o som toma o ambiente, a câmera valsa com a música, e nossos olhos admirados pela composição. Ela, ele, a mesa de bilhar, a marcação dos pontos, Hsiao-Hsien ganharia qualquer um com um mínimo de sensibilidade ali, naquele momento. Ele vai para o serviço militar, pede para escrever cartas durante aquele pedido, o platônico. Ele volta e a procura, melhor não contar mais nada, porque o que vale é sentir o momento do que está acontecendo. A segunda história se passa em 1911, homenagem ao cinema mudo, o impossível fica claro, aqui a inspiração do cineasta dá lugar a uma estrutura mais arcaica, próxima e serene, porém sem suspiros, ele casado, ela o cuida com carinho em suas viagens de negócio.

A carga sexual está na terceira parte, ela vive com sua namorada, mas se apaixona por um homem, o triangulo amoroso se desenrola, novamente a genialidade não está na história em si, que é simples, mas no como se conta, e principalmente no quanto o poder das imagens pode nos aproximar dos sentimentos de tais personagens. Num corredor estreito ela aproxima luz a uma parede de fotos, ascende um cigarro, a composição do quadro é tão perfeita que o desejo é de abraçá-la, não com apetite sexual, mas com afago, com a singeleza que só amor proporciona. Se já houve a perfeição na utilização de luz e sombra, no aproveitamento de espaços e na multiplicação de sensações, Hsiao-Hsien chegou bem perto aqui. Aliás, vou ali rever esse filme porque a lembrança está me trazendo ainda mais vontade de estar naqueles ambientes novamente, de viver essas sensações novamente.

Millenium Mambo

Publicado: março 19, 2011 em Uncategorized
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Qianxi Mambo (2001 – TAIWAN/FRA)

 Numa belíssima construção, a narração em off e as leves olhadas para trás, em direção à câmera, estabelecem um diálogo confessional com o público. Ela (Shu Qi, divina) olha para a câmera, olha para trás, como quem olha o passado, mais precisamente dez anos e seu conturbado relacionamento de idas e vindas. Ela terminava, ele vinha atrás e implorava, insistia, até que ela desse o braço a torcer, sempre com a desculpa de que ficaria com ele apenas até que durasse o dinheiro que ele insistia que dispunha no banco. Hou-Hsiao-Hsien cria toda uma atmosfera leve, um suave som de techno e o caminhar solto, de personalidade, de uma mulher que viveu e aprendeu com suas experiências, é apenas o cartão de visitas do filme.

Teremos cenas e mais cenas da difícil relação do casal, cigarros, silêncios, explosões de ciúmes, falta de tato e carinho artificial. Dois jovens inconsequentes (tanto em sua vida profissional, quanto amorosa) Hsien não filma apenas a juventude, como também toda paixão em que a razão é outrora posta de lado. Aparecem outros homens nessa história, não importa exatamente os rumos, o importante são as experiências, as vivencias, sempre acreditamos que aquele amor que vivemos é o definitivo, nos apegamos e parecemos incapazes de nos distanciarmos daquele sentimento, e Hsien prova lentamente, dentro de seus enquadramentos geniais e ímpares, que de longe (e talvez só de longe) percebamos quando o fracasso está estampado, não adianta esticar algo que não tem solução. Ela busca seus horizontes, dentro de seu espírito aventureiro está a natureza de sua busca por seus momentos.