Posts com Tag ‘Silvia Lourenço’

ohomemdasmultidoesO Homem das Multidões (2013) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Estamos nos acostumando a ver o mundo pelas imagens do Instagram, vivemos a era da liberdade e  nossos olhos obrigados a enxergar o mundo num retângulo (em pé). É por esse formato de janela 3×4 que os diretores Marcelo Gomes e Cao Guimarães narram a melancólica história, livremente adaptada do conto The man of the crowd, de Edgar Allan Poe, de um quieto e solitário maquinista do metrô (Paulo André) envolto à imensidão e isolamento de uma metrópole.

Em casa a geladeira apenas com garrafas de água, um único copo nos armários, e esse formato de tela que desvenda, lentamente, o apartamento triste e silencioso. Janelas grandes, sem cortinas, cadeiras velhas, nenhuma sensação de lar.  É um filme de silêncios e observações, Juvenal economiza nas palavras, parece vacinado contra relações sociais ou emoções, apenas sobrevive. A chefe (Silvia Lourenço) se aproxima, dá a sensação de interesse amoroso, mas pede para que ele seja padrinho de seu casamento. É um outro tipo de solidão, da mulher que busca um parceiro via internet, e algum consolo no silêncio do olhar pesado e sem esperança de Juvenal. Do encontros das solidões individuais (e da grandeza solitária de ser engolido pelas multidões), a dupla de diretores entrega esse trabalho meio experimental, meio deprimido, com um gosto de esperança lá no fundo da boca.

contratodosContra Todos (2004) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Estreia na direção, do roteirista e professor da USP, Roberto Moreira, seguindo na linha de filmes abrangendo a violência urbana brasileira, tema que tem trazido sucesso ao cinema nacional no exterior. Filmando em vídeo digital, com a câmera na mão, Moreira traz o público para dentro daquela casa, tornando- o mais uma presença dentro daquele maçante ecossistema. A fotografia suja, a câmera trêmula, as tomadas posicionadas onde poderia haver alguém.

Estamos inseridos no cenário, na estética da região do Aricanduva (zona leste de São Paulo). As cores e objetos, o detalhe dos azulejos que não cobrem a cozinha toda, móveis e armários. A câmera viaja com seus personagens, percorre ruas do centro, a Galeria do Rock, acompanha o trajeto de um ônibus por ruas e avenidas.

No filme tudo começa calmo, mas com cheiro de encrenca. Teodoro (Giulio Lopes) é o patriarca, vive com sua segunda esposa (Cláudia – Leona Cavalli) e com a filha adolescente do primeiro casamento (Soninha – Silvia Lourenço, excelente). Moralista e conservador, obriga todos a realizar uma oração antes da refeição ou ler a bíblia antes de dormir. A alegoria de pai responsável esconde sua profissão, matador profissional.

Soninha é a típica adolescente rebelde, age por impulso sempre afrontando o pai, ouve música compulsivamente, usuária de drogas e compenetrada em descobrir sua libido. O casamento anda em crise, assim como o marido que flerta com uma crente devota, Cláudia também é infiel. As aparências apenas negam as diferenças do casal, ela quer mudar para o interior, ele recusa.

Um crime é a gota a transbordar a crise familiar, uma explosão de violência toma conta do filme. Cenas duras, situações sufocantes, o desejo em chocar o público é levado às últimas consequências com situações extremas, por vezes desnecessárias. Enquanto Moreira explora com essa visão parcial do subúrbio, surge Waldomiro (Aílton Graça) como chave da trama, num final que tenta se explicar para preencher arestas e parecer surpreendente, quando na verdade não o é.