Posts com Tag ‘Sofia Coppola’

The Beguiled (2017 – EUA) 

Ao descobrir o filme anterior, quase uma alegoria erótica masculina, dirigido por Don Siegel, em 1971, era de se esperar uma versão cujo o lado feminismo criasse outra leitura para a trama. Afinal, a carreira de Sofia Coppola tem essa vitalidade de trazer o ponto de vista feminismo ao cinema, coisa tão rara, infelizmente. A possibilidade dessa oposição é tentadora.

E realmente, Sofia dá seu toque de feminilidade. E o que, muito provavelmente, não é o que se esperava em tempos de “empoderamento”. Suas opções são sutis, porém definitivas. O estranho de seu filme (Colin Farrel) é mais dúbio, enquanto que quase todas as mulheres são colocadas como joguetes atraídas, pouco se conhece individualmente de cada uma delas. O clima de tensão, quase um filme de terror, ainda que exista, é suavizado. É uma visão mais romântica de um intruso que mexe com a libido de todas, e por mais que a versão anterior fosse machista, essa perde a oportunidade de diferenciar suas personagens, as tornando apenas escravas de uma possível escolha.

Talvez, o ideal fosse tentar não comparar os filmes, por mais impossível seja para quem o viu. Ainda assim, olhando para tudo que Sofia construiu até hoje, parece mais um filme preocupado com reconstruir vestidos, adereços e ambientes, do que explorar seus personagens, seja na questão da Guerra Civil que eclode fora daquela casa, seja na tensão sexual competitiva que enlouquece mulheres tão recatadas e imaturas. Quem mais se destaca é Nicole Kidman, que em sua caricatura entre equilíbrio, seu interesse e senso de justiça próprio, conduz o destino de cada um dos personagens, entre delicadeza e algum toque de brutalidade.

Neste e no próximo sábado, infelizmente, não será possível o post regular com os links da semana. Estou em viagem, e por aqui o WordPress é bloqueado. Mas não ficaremos sem atualizações. E como o Festival de Cannes está chegando, e em breve saberemos quais filmes será escaladas para a Mostra Competitiva, e demais mostras paralelas. Resolvi realizar uma pequena pesquisa e postar links sobre alguns dos mais interessantes filmes que devem estar escalados para Cannes. Portanto, divirtam-se e ficaremos na expectativa.

Clouds of Sils Maria (de Olivier Assayas) dizem já estar confirmado em Cannes. [IonCinema] [Omelete] [Wikipedia]

Fairyland (de Sofia Coppola) [Variety] [Empire] [Ipsilon] [Deadline]

Maps to the Stars (de David Cronenberg) [Website do Filme] [Collider] [IndieWire]

Two Days, One Night (de Jean-Pierre e Luc Dardenne) [Pipoca Moderna] [Wild Bunch] [The Film Stage]

The Assassin (Hou Hsiao-Hsien) [David Bordwell] [Filmbiz.Asia] [Next Projection]

Horizontal Process (Abbas Kiarostami) [IndieWire][Variety]

bling-ringThe Bling Ring (2013 – EUA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Foi lendo um artigo da Vanity Fair que Sofia Coppola teve a ideia para o filme. E foi enquanto o assistia que eu tentava reconhecer ali um filme de Sofia Coppola. Todos seus filmes anteriores dialogavam com um tema biográfico, uma solidão interior, que muitas vezes ela conseguia permear com cultura pop, mas a solidão estava sempre presente e angustiante.

Seu novo trabalho dialoga com seu Maria Antonieta, a jovem princesa que corria pelo palácio com seu luxo, se divertia em festas. Os jovens de Bervelly Hills também expõe sua riqueza nas marcas das roupas, porém são movidos por uma inveja (solidão jamais) absurda, um desejo de serem alguma celebridade qualquer, ou, ao menos, serem populares.

Coppola os posiciona perfeitamente na vida social de riquinhos mimados pelos pais, incapazes de enxergar quem seus filhos realmente são. O pequeno grupo (que inclui Emmy Watson) tem a ideia de invadir casas de famosos, roubar suas jóias, sapatos e roupas de grife. E a brincadeira perde o controle, de Paris Hilton a Orlando Bloom. O filme se repete entre as invasões e o convívio na escola, praticamente um desfile de adolescentes babando pelos pertences de outras pessoas. Bem nesse ponto que voce pode se perguntar onde está Sofia Coppola nisso tudo, afinal, parece apenas um filme contando uma história inusitado.

Eis a questão, Sofia não consegue imprimir sua marca, sua visão sob tamanha futilidade, ele vai da influência pop ao mundo das celebridades, sem que consiga realmente dialogar com o tema. É quase uma comédia adolescente que no final todo mundo se dá mal, e isso é muito pouco do que se espera de Sofia, essa mulher que soube contar a solidão, que todos sentimos em várias fases da vida, de maneira tão aguda e penetrante.

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A primeira exibição de filmes da competição ocorreu ontem à noite, e hoje a abertura oficial das demais mostras paralelas. Dia de filmes elogiados, mas nenhum que o frisson fosse geral (quer dizer, na sessão noturna sim, mas esse só tem no post de amanhã). O italiano Salvo abriu a Semana da Crítica, e aparentemente passou em branco. Mas calma, o festival está apenas começando.

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THE BLING RING

theblingring

Sofia Coppola parte de um artigo da Vanity Fair sobre um bando de jovens, se aproveitando das redes sociais para assaltar mansões de celebridades em Hollywood (Paris Hilton, por exemplo). Mais um capítulo de seus estudos de juventude x solidão? Cheirando a cult para um público mais jovem.

Críticas: The Guardian – Little White Lies – Film Comment

Termômetro: de olho

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HELI

heliComeçou apanhando da crítica no Twitter, logo após a sessão de ontem à noite. Depois, algumas críticas um pouco mais animadoras. Basicamente, um filme chocante do mexicano Amat Escalante, com muitas cenas de violência explícita enquanto aborda o eterno tema do tráfico de drogas. Comentários o situam entre Reygadas, Brillante Mendoza e o toque sádico de Anticristo (Lar Von Trier). Parece que muitos abandonaram a sessão, foi o primeiro da Mostra Competitiva.

Críticas: HitFixUOL Cinema – Little White Lies

Termômetro: morno

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JEUNE ET JOLIE

Young and Beautiful aka Jeune et Jolie film stillO outro competidor da mostra principal foi François Ozon. Contando a história de uma jovem que da primeira experiencial sexual, num romance de verão, parte para a prostituição de luxo, vivendo uma vida-dupla escondida de sua família. Os comentários falam de mais um filme de  Ozon com elegância, porém um Bela da Tarde adolescente.

Críticas: Cine-VueScreencommentLittle White Lies

Termômetro: de olho

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THE CONGRESS

thecongressEntre a animação e o live-action, e com uma história bem inventiva, está de volta Ari Folman a Cannes. Abriu a Quinzena dos Realizadores e transformou várias estrelas do cinema em personagens animados, com Robin Wright estrelando seu filme, e novamente agradando a maioria. Bom humor e um mundo onde atores precisam se tornar animações para manter suas carreiras.

Críticas: HitFixRoger Ebert – IndieWire

Termômetro: de olho

sofia_coppola_• Entrevista interessante com Sofia Coppola, enquanto seu novo filme não estreia em Cannes [Hollywood Reporter]

• Parece que Ryan Gosling não gosta muito de cereal. Veja o divertido video que bombou na net essa semana [Youtube]

• Copa do Mundo chegando e o cinema não ficará fora dessa, Messi e Pelé ganharão biografias para o ano quevem, agora é aguardar se finalmente vão fazer um bom filme sobre futebol [AdoroCinema]

• Cannes não é só mostrar filmes, mas principalmente vendê-los. Lista dos 20 Hot Market do Hollywood Reporter

• O próximo presidente do juri em Veneza será um italiano, Bernardo Bertolucci foi o escolhido [Screen Daily]

Por fim um interessante artigo sobre o modelo MUBI de ver filmes [Otros Cines]

phoenix-snl• Começando os Links da Semana um pouco diferente, com música e tv. E mais precisamente para aqueles, que como eu, gostam da banda Phoenix. Os franceses estão com disco novo (ótimo) na praça e agora, caiu na rede, a presença deles no SNL – Saturday Night Live [Pitchfork]

• E se falamos na banda, aproveitando o gancho para destacar o novo filme da esposa do vocalista… ok, se voce não sabe é Sofia Coppola. A Gangue de Hollywood tem previsão de estreia no Brasil em 12 de Julho [AdoroCinema]

zulu_cannes• A lista mais aguardada do ano ainda não saiu, o Festival de Cannes guarda a sete chaves os títulos que farão parte do principal festival de cinema do mundo. Mas, pelo menos, já temos o filme que fará o encerramento do festival. Dessa vez será Zulu, com Forest Withaker e Orlando Bloom [ScreenDaily]

• Crítica rápida e direta, sem deixar de ser simpática, de Inácio Araujo, para o novo filme de Alain Resnais (Voces Ainda Não Viram Nada), que estreiou ontem (e para esse blog, é por enquanto o Melhor Filme do Ano) [Folha Ilustrada]

homemdeferro3• Entre Homem de Ferro 3 e Superman, a fase dos grandes blockbusters de Hollywood está prontinho para começar. Nesse link, destaque para 15 filmes que devem lotar as salas de cinema. [AdoroCinema]

• Entrevista com o brasileiro, radicado nos EUA, Antonio Campos cujo segundo filme, Simon Killer, está prestes a ser lançado. As críticas foram moderadas, mas seu filme anterior é o  ótimo Afterschool, então… [Ion Cinema]

• Fechando com alguns trailers da semana:

Faroeste Caboclo, a canção da Legião Urbana virando filme [AdoroCinema]

Elysium, com Matt Damon e Wagner Moura [AdoroCinema]

Behind the Candelabra, Michael Douglas e Matt Damon “afetadas” [Collider]

Somewhere (2010 – EUA) 

Os filmes de Sofia Coppola resumem-se em diversas formas de se versar sobre a solidão. E, durante essas variações, quase poéticas, a presença determinante é da melancolia. As histórias desenvolvem-se sempre sob variações deste tema, tendo o poder de conectar o público mais, com este, ou aquele personagem, mas sempre leves mutações de melancolia (nitidamente, e algumas declaradamente, autobiográficas). Aqui temos um astro de Hollywood (Stephen Dorff). Em sua cama, lindas mulheres, jogam-se, literalmente. Sua vida acontece dentro de um quarto de hotel, quando não está gravando – o que pode parecer uma vida de sonho para muitos, a quem a vive transforma-se em monotonia. A vida pode ser triste mesmo quando se tem tudo.

Nos momentos com sua graciosa filha de onze anos (Elle Fanning, o melhor do filme) é quando o ator se dá conta de sua existência sem empolgação. O tom minimalista, e altamente existencialista, pode exagerar nos cacoetes, em demonstrar a monotonia óbvia (a cena inicial do carro, as longas cenas das garotas dançando), mas (e já escrevi isso antes) Sofia filma a solidão como ninguém (e nesse filme a trilha do Phoenix cai como uma luva), e essa solidão não é estar sozinho, e sim o se sentir sozinho, e nesse ponto o filme dá dimensão certeira do estágio emocional em que se encontra nosso galã.

Maria Antonieta

Publicado: abril 16, 2007 em Cinema
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Marie Antoniette (2006 – EUA) 

Definitivamente identificamos no cinema de Sofia Coppola um mundo próprio, de personagens que dialogam por características comuns. A cineasta trata a melancolia, e a solidão, dessa maneira estritamente particular. Uma singularidade inebriante que a cada filme reconfirma sua abordagem e intensifica sua amplitude. Sofia lida com o assunto que domina, essa solidão da alma feminina, e ao repetir sensações e vazios redistribui energia a seus personagens. Pode-se mudar o país, de época, de idade, são os mesmos males a acometer suas mulheres, o mesmo olhar vago e distante. Diferente de Kar-Wai que lida com a solidão dos corpos e sentimentos, Sofia lida com a solidão da alma.

Quando se decidiu por Marie Antoniette (Kirsten Dunst), não era a biografia que lhe interessava, mas a situação de uma menina estrangeira, e mimada, caindo de pára-quedas em plena corte francesa no século XVIII. O estranhamento dos costumes, a sensação de não pertencer àquele local, o vazio constante. Nesse contexto, a cena de choro, ao se desfazer de seu cãozinho, é somente o primeiro sinal da aspereza e indiferença que a aguardava.

Sofia tem outras predileções, que não abre mão, mesmo num filme de época. A música pop marcante, que até causa estranheza, pelos palácios oferece à menina rica os contrastes do frágil e fútil, ela coberta de seus vestidos e penteados, desfilando pela trilha sonora ativa e empolgante. Por mais estranho, funciona bem, porque Sofia contextualizou sua personagem à época, ainda que transmitindo ares dos males da mulher contemporânea, é uma forma de abraçar sua personagem. Ainda assim, há em sua visão uma espécie de distanciamento. Temos seu melhor nas cenas em que Maria Antonieta cai em si, e permite que seu olhar torne-se espelho da alma. Fora disso, há uma preocupação zombeteira em querer ser pop e atrair melhor o público, e em dado momento Sofia decidiu aproveitar e também transformar aquilo tudo numa biografia. O resultado é uma aceleração incomoda nos fatos, nas cenas, nos cortes. Uma pressa que nos deixa sem ter como respirar, e por cenas que quase nada acrescentarão ao espírito que se criara. O filme sofre dessa inconsistência, guarda pequenas (e boas) doses do melhor de sua diretora, e passa tempo demais se preocupando em estabelecer relação que comprove ao público, a verdadeira importância daquele casamento consumado, do nascimento do herdeiro. Entre a biografia e a personagem, quis se os dois e o resultado final resulta desastrado.

The Virgin Suicides (1999 – EUA) 

Tom de tragédia anunciado, dessa vez sob atmosfera doce, regados a ternura. Os fatos são narrados por um dos garotos vizinhos da família, um dos obcecados pelas tais virgens suicidas (Giovanni Ribisi assume a narração em off dosando com muita propriedade as nuances de voz). Entre os trágicos fim e início, o filme molda-se sob a forma de uma comédia juvenil sutil e afetuosa. De cara, já sabemos do mal que assolará a família Lisbon. O chefe da família é professor de matemática (James Woods) e sua esposa dona de casa (Kathleen Turner). Situando a narrativa na década de setenta, o filme agride aos pais ultra-conservadores e seu estilo de educação repressivo. Religiosos devotos (a esposa principalmente), os dois mantém suas filhas adolescentes sob regras rígidas e conservadoras (privados do convívio social, apenas freqüentam a escola onde trabalha o pai), sempre no intuito de mantê-las distantes de qualquer contato com rapazes da mesma idade. As cinco irmãs (com idade entre treze e dezessete anos) enfrentando a fase de descobertas, em meio a época da libertação sexual, e toda a rigidez familiar produzindo efeitos devastadoras nas jovens. O drama familiar é iniciado pelo suicídio da caçula durante uma pequena festa no porão de casa, com medo os pais aprisionam cada vez mais suas filhas criando um efeito de enclausuramento irremediável.

Depois de uma estréia no mínimo infeliz como atriz, Sofia Coppola voltava ao cinema, agora por de trás das câmeras, dirigindo este filme baseado no livro de Jeffrey Eugenides. A decisão por esta adaptação aponta para uma escolha pessoal e provavelmente muito próximo de sua alçada, a alma feminina e a sensibilidade que a envolve. Num trabalho moderno e extremamente sutil surgem detalhes inovadores, resultado de uma direção ágil e desprendida. Infelizmente muitos personagens terminam mal desenvolvidos, algumas das garotas são meras loiras coadjuvantes de sorriso desolado, apenas Dux (Kirsten Dunst) mereceu um aprofundamento da história (Dunst é a alma do filme, seu sorriso combina perfeitamente com a atmosfera, soube ela captar a essência de sua personagem, suga toda a sensualidade de uma linda jovem que começa a mostrar os sinais de sua libido, era o início da parceria da atriz com a diretora). Se bem que há espaço para o trabalho enxuto e competente de Kathleen Turner e James Woods.

A profunda crítica com intensidade avassaladora a uma sociedade tão moralista e ultrapassada rivaliza com outras cenas, muitas vezes deliciosas e joviais, momentos como o furo da greve dos coveiros são de uma tristeza de doer. Por outro lado há verdadeiras pérolas jovens como os telefonemas ao som de LP’s (deliciosamente românticos), a maneira como os “prováveis” namorados relacionavam-se com as famílias das jovens, o roçar dos braços no cinema (Josh Hartnett vive um personagem marcante), o pé delicado sob a mesa tentando flertar às escondidas da mãe, o beijo surpresa no carro, tantas conotações que remetem a uma época anos-luz da praticidade atual. E a trilha sonora com canções pop da década embalando cada momento com uma afável sonoridade é só outro ponto da ternura e do olhar imprimido por Sofia Coppola, nascia uma promissora diretora.

opoderosochefao3The Godfather, Part III (1990 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

As primeiras cenas resgatam a casa, do filme anterior, abandonada. Folhas secas, vento, móveis empoeirados, solidão. Em poucos instantes, Francis Ford Coppola posiciona Michael Corleone (Al Pacino) em sua nova função social de ex-marido. Ele fracassou com a família, e o filme todo será sobre redenção e a tentativa de reconstruir o vaso esfacelado que se tornou sua vida. Da legalidade dos negócios à reconstituição da harmonia familiar – dentro do que seja possível, já que o divórcio de Kay (Diane Keaton) foi inevitável. A Igreja Católica chega forte como um dos pilares desse terceiro capítulo, é nela que Michael foca seus esforços, o desejo de deixar o passado negro e viver de negócios lícitos. Essa inclinação causa o interesse das demais famílias em entrar no negócio do Vaticano, e a inimizade da máfia italiana que ali estava. Quando mais alto, maior o grau de corrupção humana.

Novamente o filme é aberto com uma festa, Michael condecorado pela Igreja. Mas a primeira aparição em cena é de Connie (Talia Shire), que dessa vez se torna figura central, uma mulher forte, cruel e agora de participação determinante nos negócios dos Corleones. Ela assume a função firme feminina, que no filme anterior era de Kay, mantém a união familiar, mesmo que para isso tenha que definir pela violência. Michael é um homem amargurado e solitário, as tragédias de sua vida estão estampadas em sua tristeza, e a culpa pelo assassinato de Fredo o acompanha eternamente. Os filhos cresceram, Anthony quer ser cantor, já Mary (Sofia Coppola) mantém a doçura e proximidade com o pai, enquanto apaixona-se pelo primo, filho bastardo de Sonny, Vincent Mancini (Andy Garcia) que acaba por se tornar o sucessor de Michael enquanto uma nova guerra entre os mafiosos é iniciado (é assim, os jovens sucedem aos velhos).

opoderosochefao3_2A corrupção do Vaticano, imagino o furor causado pelo roteiro ter acusado o assassinato do Papa João Paulo I (baseado nas inúmeras teorias que cercam o caso). Coppola seguiu firme, provocando a todos e criando cenas antológicas. Continua a presença marcante das laranjas e cavalos nas cenas que precedem mortes, a trilha sonora magistral de Nino Rota (que faz o coração bater forte a cada aparição), e as festas que guardam encontros que desencadeiam as tramas posteriores. A cena da confissão de Michael, em pleno Vaticano, filmada por entre arbustos, o romantismo das mãos dadas (Mary e Vincent) em meio aos pedaços de nhoque, mas nada se compara a longa sequencia de suspense no teatro, tantas tragédias acontecem enquanto a ópera Cavalleria Rusticana encanta o público. Dentro e fora do teatro, os destinos são fechados, até o gran-finale na escadaria e o grito mudo. Falta uma atriz que interpretasse minimamente Mary, sobre a herança dos filmes anteriores, que juntos constituem a maior trilogia do cinema. A trilogia de O Poderoso Chefão é uma novela elegante e brega, magnânima e crítico, essencialmente humana por mais que seja o retrato horrível da crueldade dessa humanidade. O retrato de duas realidades, a do crime organizado e da desestruturação das famílias ao longo do tempo.