Posts com Tag ‘Sonia Braga’

Bacurau (2019 – BRA)

É catarse, é resistência, é o grito dos esquecidos. O trabalho da dupla Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles está sacudindo o Brasil. E se vivemos num país tão polarizado, pode ser que o filme nem esteja dialogando com um lado dessa disputa, mas tem sim sacudido parte da turma que se sente exprimida pelos dois lados que dominam nossa política recente. Claro que é um filme político, extremamente político, quem acompanha a dupla sabe de suas posições. Mas ao fugir do panfletário e universalizar questões, os diretores conseguem ir além do pregar para torcida única.

Western futurista, praticamente uma nova vertente do cinema de gênero, o filme vai causando frisson e chegando a mais e mais cidades porque ele tem seus momentos apoteóticos mesmo, sem deixar de lado as homenagens a cineastas importantes na cinefilia dos criadores (John Carpenter principalmente). Afinal, em meio ao suspense e à violência, o que temos é a luta pela sobrevivência, do povo oprimido versus a força do opressor (que pode ser o rico Sudeste x pobre Nordeste, países ricos x terceiro mundo), através de uma metáfora sangrenta, que deve sim desagradar parte do público, mas uma alegoria tão justificável.

E Kleber e Juliano filmam tudo sem perder o genuíno daquela gente, criando mistérios ou personagens que ficarão, eternamente, no imaginário. Bacurau é um desses filmes-fenômeno que dá esperança aos que andam desanimado, e que provoca alguns que nem percebiam pontos óbvios que o dia-a-dia nos cega.

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AquariusAquarius (2016 – BRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Lembro bem de criança quando descobri os vinis e fitas K-7 do meu pai, guardadas no armário, e que me foi permitido acesso livre. A vitrola rapidamente quebrou, assim como o K-7 que tinha Toquinho e Vinicius. Mas era um fitinha verde que eu ouvia repetidas vezes, e a frase do meu pai que dizia “sumiram com Taiguara para calá-lo” sugerindo que Taiguara vivia no exílio ou teria morrido. Meu pai não deve saber ainda qual foi o fim de Taiguara, e eu nunca mais ouvi aquelas canções, que me fascinavam, por mais que eu nem deveria entender 10% do que diziam.

A abertura do filme de Kleber Mendonça Filho traz a canção Hoje de Taiguara, que me pareceu familiar desde os trailers, mas confesso que precisei pesquisar para lembrar o nome do cantor. Afinal, na minha infância, Caetano Veloso (“caminhando contra o vento”) era tão importante quanto Taiguara (“eu não queria a juventude assim perdida”). Clara (Sonia Braga) é a própria voz da resistência. Uma voz que luta, que expõe seus argumentos, quase sempre sem sair do tom. Uma voz que não nega o presente, mas mantém viva a chama do passado.

A narrativa de fluidez hipnótica de KMF apresenta Clara em todos os sentidos, sua juventude de luta contra um câncer, sua relação com os filhos, a vida social com suas amigas, ou com a empregada doméstica, além de suas pequenas rotinas. O filme é perfeito em representar isso tudo, em construir a personagem bem diante dos nossos olhos, como quem nos convida para sentar no sofá daquela sala.

E novamente o diretor e crítico de cinema prova captar assuntos fervilhantes da cultura brasileira atual, estamos diante do Impeachment, e KMF traz a história de uma mulher que não quer sair de seu “trono”, por mais que todos os sinais indiquem esse caminho. É a pura voz da resistência. No filme, Clara vive no mesmo apartamento que viveu a vida, que ouviu aqueles discos que ecoarão por diversas vezes no filme (Gil, Bethania). Porém, uma construtora comprou todos os apartamentos do prédio, só resta do dela para que o prédio seja demolido e substituído por um novo empreendimento. Enquanto conhecemos cada vez mais de Clara, surge o conflito entre imobiliária e a solitária proprietária. Táticas de guerra, ameaças, KMF pontua didaticamente quem é o bem ou o mal, quem é a direita e a esquerda em seu filme, e com conceitos tão definidos e caricatos, exagera novamente na necessidade de pregar sua luta/visão política (tem todo o direito, a questão é como).

Tantas polêmicas envolveram o filme, algumas causadas pelo próprio diretor, o fato é que se tornou o filme brasileiro mais controverso antes mesmo de sua estreia. Bom que gerou curiosidade, mas uma pena que muita gente deixar de assistir esse estudo tão humano e essa capacidade de tratar a terceira idade sem clichês, permitindo que se viva a vida, que haja desejo sexual, assim como angústias, medos e o depósito da esperança na juventude. Sonia Braga é luz, uma estrela que faz de seu brilho próprio a grande conexão entre o público e tudo que KMF deseja comunicar.