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Le Redoutable (2017 – FRA) 

É fato que Michel Hazanavicius precisava de um trabalho de impacto, porque após ganhar o Oscar com O Artista, seu filme a seguir foi um fiasco tão grande que acabou esquecido, desconhecido, eliminado da mídia. A ideia de biografar parte da vida de Jean-Luc Godard é realmente fascinante, por mais que nunca seria ele a primeira opção a se esperar. Adaptando o livro Um Ano Depois, da ex-esposa do cineasta Anne Wiazemsky (12 anos de casamento), estávamos de volta aos fatídicos acontecimentos de Maio de 1968, acompanhando a vida de Godard.

Tempo em que A Chinesa foi gravado, em que Godard participou das movimentações e protestos estudantis, e o que encontramos é a aspereza esperado, com toques cômicos dos primeiros filmes da Nouvelle Vague. É como se Godard fosse um personagem dos filmes do início do anos 60. E o filme se equilibra entre o compromisso histórico, o cotidiano do casal, a visão envelhecida de um eterno rebelde, e a visão pessimista de uma esposa nunca tratada com o carinho e atenção desejados.

O resultado é quase uma sitcom de tão engraçadinho, que com tantos elementos complexos se aglutinando a tentativa de Louis Garrel imitá-lo. Um filme incoerente? Talvez. Ou apenas, uma visão simpática (mesmo da avareza ou da eloquência), que vai em busca do humor físico e de pequenas coincidências, como forma de manter o público vivido por rir, e nunca compreender um pouco do que se passava naquela mente politizada, determinada, inventiva e única.

ninfomaniaca2Nymphomaniac: Volume 2 (2013 – DIN) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Interessante como a segunda parte da saga de Joe (Charlotte Gainsbourg) consegue não se parecer com um soft porn, à lá Emanuelle, mesmo que mantida a estrutura anterior. Trata-se de um filme muito mais denso, e ainda mais pesado, que seu antecessor. A pervertida Joe cruza qualquer limite em prol do saciar da sua sexualidade, vive sua vida através de uma imensurável necessidade por sexo, ainda mais incessante por só ter vivido um único orgasmo verdadeiro (ainda criança, numa cena sobrenatural).

Lars Von Trier, esse provocador. De um lado essa mulher que usa o poder de seu órgão sexual de forma deliberada, de outro um sujeito (Stellan Skarsgard) culto, religioso, assexuado, que ouve com uma curiosidade imensa e comenta com uma sapiência divina (faz metáforas religiosas ou literárias que chegam ao irritante do pertinente). Aliás, ponto fraco notório é essa necessidade de Trier em tentar o culto com simbologias didáticas (aquela da arma numa mancha de líquido da parede é um absurdo). Este é um filme do cineasta mais manipulador do cinema, nunca seria apenas um conto sobre o sofrimento de uma mulher em busca de sua liberdade e autonecessidade (Joe mergulha no sadomasoquismo, em orgias, cenas explícitas e desavergonhadas, como nunca se viu).

Por trás de toda essa provocação diabólica, um cérebro astuto que novamente entrega um trabalho abstrato, contestador e cínico, principalmente nas questões ligadas ao relacionamento humano. Trier revisita temas anteriores (como na questão da maternidade de Anticristo ou a maldade humana de Dogville e Manderlay), despreza o amor, mas abusa de coisas como transformar Joe numa cobradora de dívidas de um agiota (Willem Dafoe). Filma nos mínimos detalhes os cuidados para momentos de violência perversa, sua mente ensandecida traz à tona o que mais se senta jogar pelo tapete, mas por trás de todo esse de sexo explícito e fora dos padrões do “aceito pela sociedade”, estão críticas ferozes a temas que vão desde religião até provocações que devem ter tiro certo (e que nunca saberemos).