BFI

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Na minha visão o BFI é a mais completa das Cinematecas. Preza pela modernidade em sua arquitetura circular, toda de vidros e cheia luzes, no meio de uma avenida onde os carros circulam como se ali fosse uma rotatória. Bem pertinho da roda-gigante (London Eye). O BFI consegue unir o charme com a modernidade, o BFI Imax é a maior tela de cinema do Reino Unido e atraem o público médio, enquanto a programação de mostras e retrospectivas, nas demais 4 salas, são o paraíso cinéfilo.

É no BFI que acontece o London Film Festival, em Outubro. Sessões de gala se misturam a filmes de Stanely Kubrick ou O Espetacular Homem-Aranha 2. É a pluralidade que faz do BFI um acontecimento.

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O site do BFI também oferece serviço de streaming, pulverizando o cinema de todas as formas. Na lojinha de dvds e revistas, todas as publicações do gênero, principalmente a Sight & Sound que é intimamente ligada ao próprio BFI. Minha rápida visita aconteceu em fevereiro de 2013, o BFI exibia o Lesbian & Gay Film Festival e filmes de Chantal Akerman, e se preparava pare receber filmes de Pasolini. Para quem vive em Londres, e realmente acompanha cinema, é o tipo de lugar para se virar figurinha carimbada, se tornar membro e aproveitar o máximo possível. É como se todas as mostras especias que se espalham por cinemas de SP acontecem num único, e deslumbrante, local.

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De Olhos Bem Fechados

Deolhosbemfechados_Eyes Wide Shut (1999 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Pelo prisma de um casal, Stanley Kubrick sintetiza uma extensa análise sobre a relação humana com o sexo. Trata-se de um trabalho denso, e um desenho meticuloso de diversas variáveis resumidas em poucos personagens. Da prostituição aos desejos secretos, do mero flerte descompromissado a uma sociedade secreta de práticas sexuais não-usuais, casamentos em crise e a tentação fácil das ruas de Nova York.

Kubrick e sua narrativa instigante mergulham, em duas noites, da vida de um médico (Tom Cruise) e sua esposa (Nicole Kidman). Enquanto Cruise é colocado à prova de tentações e reage a descobertas surpreendentes de sua esposa, mantém um comportamento típico, masculino, padrão. É com Kidman que Kubrick brinca de mudar comportamentos, da garota ingênua que passou do ponto na bebida à mulher perversa, com desejos secretos, é ela que verbaliza e “testa” os comportamentos do marido. Dessa forma, o filme levanta a questão do padrão sexual masculino tão carnal e mecânico, enquanto o feminino com tantas nuances que se misturam entre prazer, amor e estabilidade.

A cena de discussão, no melhor estilo Bergman e seu Cenas de Casamento, leva o médico muito além de um mero desejo de vingança, ou ciúmes. Surge uma trama de suspense, por acaso ele mergulha num mundo fechado, impenetrável, perigoso. Kubrick deixa sua narrativa mais instigante ainda, invade salões e comtempla orgias. O cineasta está provocando a elite, como também o matrimônio e seu conservadorismo, e o faz de forma provocadora, escandalosa, e lenta, como se fosse um veneno que penetrasse lentamente pelas artérias. O veneno da libido, do desejo irracional, e da serenidade posta de lado por uma mente submersa pela cobiça

O Grande Golpe

ograndegolpeThe Killing (1956 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O grande destaque é a inovação de uma cronologia não-linear, e da narrativa sob diferentes pontos de vista (essas idas e vindas influenciaram muitos filmes e diretores). Em seu segundo trabalho, Stanley Kubrick adapta o livro Clean Break de Lionel White, sobre um inesperado assalto ao jóquei clube. Enquanto os planos são afinados e se desenrolam, Kubrick estuda, mais proximamente, alguns personagens chaves na trama, trazendo charme, ou, ao menos, classe ao plano todo.

Com seu ar de filme noir e essa possibilidade de visões multifacetadas do mesmo fato, além de um plano arquitetado milimetricamente, Kubrick envolve o público com o suspense e essa abordagem mais ampla de atrair o público com alguns dramas pessoais (principalmente da mulher interesseira e o marido paspalhão), por mais que abuse de diálogos didáticos, que explicam desnecessariamente.

Medo e Desejo

medoedesejoFear and Desire (1953 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O maior crítico do filme, talvez seja, o próprio Stanley Kubrick. Pesquise qualquer linha sobre a estreia do cineasta e descobrirá que foi feito com dinheiro do tio, que Kubrick praticamente o realizou sozinho (direção, roteiro, fotografia e etc). E que o próprio “pai” da obra fez de tudo para que o mesmo fosse esquecido, arquivado, proibido de ser exibido comercialmente (somente após sua morte que ele acabou relançado, o que não deixa de ser uma traição).

O jovem Kubrick cria uma guerra fictícia e um bando de soldados, sobreviventes da queda de um avião, encurralados pelo inimigo. No meio do perigo, enquanto tentam se salvar, criando uma jangada, enfrentam a insegurança e o medo e desejo (descritos no título).  Precário sob muitos aspectos, ainda assim, longe de ser essa vergonha que, aparentemente, Kubrick sentia pelo filme.

É interessante como a claustrofobia (individual e do grupo) toma aqueles soldados lentamente. A forma como agem entre eles, ou os instintos primitivos quando fazem uma local refém. Como seria uma das marcas de sua carreira, Kubrick, aos 24 anos, demonstrava uma abordagem diferenciada, completamente desprendida de nacionalismos ou sentimentalismos. Sempre crítico e inventivo, a precariedade técnica de sua estreia não ofusca o resultado final de um filme que vai do drama individual à tensão de um grupo em perigo.

A Morte Passou Perto

amortepassoupertoKiller’s Kiss (1955 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

No ringue dois lutadores de boxe e a arte de esquivar-se e golpear. Atrás das câmeras, Stanley Kubrick filmando do chão, fora do ringue, uma sensação de que os boxeadores são maiores e mais rápidos. O foco no dorso massageado, os cortes rápidos, ainda era seu segundo trabalho, mas Kubrick já demonstrava sinais claros de sua genialidade. Inclusive conseguindo não copiar Robert Rossen e seu De Corpo e Alma (que revolucionara a maneira de filmar o boxe no cinema).

A trama segue os padrões da época, incluindo seus protocolos. Começa com o boxeador (Frank Silvera) numa estação de trem, narrando os fatos que o levaram até aquela espera. O envolvimento com a mulher (Irene Kane) de um figurão, e os perigos que essa paixão ocasionara. Duração curta, edição enxuta, Kubrick é mais contundente na empolgante sequencia entre machados e manequins (foto acima), quando o embate parece mais vivo e menos coreografado que o normal.

Links da Semana

Tempo de Festivais de Cinema pelo país. Indie, Festival do Rio e Mostra SP são apenas alguns deles. Época de correr atrás dos filmes, fazer maratonas, trocar informações e encontrar os amigos.

Espaço Itau faz aniversário e terá pré-estreia de Blue Jasmine e filmes madrugada à dentro. [Veja SP]

• O MIS dá o pontapé inicial na Mostra SP, iniciando a retrospectiva completa dos filmes de Stanley Kubrick [MIS]

• Entrevista com o protagonista do filme sensação da temporada de festivais, que dá início à temporada do Oscar. 12 Years a Slave já é um dos favoritos. [Slant Magazine]

• Os Lobos de Wall Street, novo filme de Martin Scorsese e Leonardo Di Caprio, pode ser adiado para 2014, o trailer é bem interessante [AdoroCinema]

 

Quarto 237

quarto237Room 237 (2012 – ING) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

O documentário dirigido por Rodney Ascher trata da adoração de O Iluminado (dirigido por Stanley Kubrick) e uma série de observações que tentam transformar Kubrick, e seu filme, numa obra-prima de mensagens subliminares. É impressionante o grau de “teoria da conspiração” que as pessoas conseguem enxergar em pequenos detalhes (muitos deles, certamente, erros de continuidade). Ao vasculhar objetos em cena, pequenos erros, coisas banais, há tantas pessoas.

Conexões com o Holocausto, o massacre dos índios, ou a suposta mentira da presença da NASA na Lua, esses fanáticos divertem com tamanha possibilidade de observações. Aliás, a grande reflexão desse documentário é exatamente essa, a de quantas possibilidade de interpretação um filme pode oferecer, um universo rico imaginário que não apresenta limites. Fascinante observar o quanto “pode ser visto”, e o quanto do “se quer ver”. Não espere revelações, são apenas suposições, e observações minusculas de quem assistiu ao filme centenas de vezes.