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Detroit (2017 – EUA) 

Battle of Sexes (2017 – EUA) 

Dois temas tão latentes em filmes que chegaram ao grande circuito brasileiro com apenas uma semana de diferença. O feminino e a questão racial estão em destaque, mais que necessários no mundo atual, infelizmente necessários na verdade. Compará-los não faria muito sentido, afinal, além da força temática, e da fotografia granulada para trazer essa sensação de décadas passadas e utilizar imagens de tv, mas como propostas de cinema, vale alguma reflexão. É curioso que ambos estejam em cartaz porque nem sempre temos questões fortes discutidas assim, e com essa disponibilidade em quase todos os cinemas do país. De um lado, Kathryn Bigelow resgata os confrontos étnicos na Detroit dos anos 60. De outro, a dupla Valerie Faris e Jonathan Dayton recordam o marcante jogo amistoso de tênis, a tal Batalha dos Sexos, quase um debate político, entre a tenista número 1 do ranking à época (Billie Jean King) e o exibido e provocador já aposentado (Bobby Riggs), ambos ultrapremiados e de personalidades características.

O cinema sempre vigorante de Bigelow encontra aqui muitos aspectos bem convencionais, como o início em animação numa quase aula de história, a decisão de criar proximidade com os personagens ao retratar aspectos pessoais de alguns deles (caso dos postulantes a cantores do The Dramatics), principalmente, o final em que se torna um drama de tribunal. É no miolo, aterrorizante, que a diretora demonstra sua habilidade, numa tensão de quase filme de terror. Em meio a rebeliões nas ruas, saques à lojas, confronto com a polícia e bairros em chamas, um grupo de jovens negros num hotel são torturados por policiais à procura de um suposto atirador. Abuso de poder, violência, a escrotidão humana posta sob a forma de racismo, intolerância e total falta de controle de situações limite. Bigelow filma com câmera na mão, e o clima de injustiça e revolta reflete além das telas.

Faris e Dayton vão ainda mais profundamente no convencional, em clima de comédia dramática, eles bem que tentam desenvolver seus personagens. São mais competentes com Steve Carel e a personalidade de porco chauvinista do tenista viciado em apostas. Enquanto que com Emma Stone, além da atriz pouco combinar com a figura mais bruta da personagem, o desenvolvimento do triângulo amoroso, a revolta das jogadoras com a associação de tênis que não é igualitária com homens e mulheres e todo o didatismo com que trata todos os clichês de seus personagens, resultam num filme irregular, que precisa pontuar tudo para se fazer entender. Se o fato histórico é tão midiático e emblemático, assim como quase todas as figuras masculinas tem comportamentos desprezíveis (e isso é um elogio, melhor o clichê do que suavizar comportamentos que sempre fora e são escrotos) no que tange a comparação homem x mulher, o filme trafega por mares de água morna ao preferir as fragilidades e inseguranças, e até o desenvolvimento incompleto de King. Ao final, não sabemos tanto dela intimamente, do que de Riggs, muito menos da dimensão de peitar a grande entidade de tênis e ainda assumir sua homossexualidade, em pleno anos 70. Rir, nem sempre é o melhor remédio, ainda mais quando ainda precisamos afirmar o feminismo, um conceito que deveria vir original-de-fábrica.

agrandeapostaThe Big Short (2015 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Adam Mckay revisita a crise econômica de 2008, ocasionada pela bolha imobiliária americana que deixou milhares de pessoas sem casa, alguns chegaram a morar dentro do próprio carro. Num tom irônico dramático, o filme segue algumas pessoas-chave, que perceberam, anos antes, que o castelo de cartas desmoronaria, via o desenfreado crédito imobiliário e a podridão de alguns fundos. A ganância financeira doeu no bolso da classe média.

Com utilização contante de zoom e montagem picotada, trilha sonora marcante (Led Zeppellin e Nirvana), além de personagens conversando com a câmera para explicar ou ironizar o sistema, McKay acerta no tom explicativo-satírico, abordando esse universo financeiro que parece tão complicado e distante de tantas pessoas. Quando a conversa sobre swaps e subprimes se complica, surge um corte para Selena Gomez ou Margot Robbie explicarem fundamentos, sempre em tom irônico, e ambiente completamente avesso a aquele em que os engravatados falam em milhões e carregam, ou não, o peso do mundo sob as costas (personagem de Steve Carrel).

Ao construir personagens além da simples relação deles com o mundo financeiro, o roteiro (favorito na disputa do Oscar) ajuda na quebra desse paradigma das complicações financeiras, o excêntrico com olho de vidro (Christian Bale), ou banqueiro feroz (Ryan Gosling), ou os qu esse aproveitam do sistema mesmo enxergando a podridão (Brad Pitt), dessa forma dando vida a esse mundo de números e cifras milionárias e crimes sem empunhar armas.

Hope Springs (2012 – EUA)

Não se espera nada diferente de um casal com 31 anos de casamento (infelizmente), aquela vida rotineira, ligada no piloto-automático. As aventuras e emoções ficaram de lado, é como Meryl Streep diz em uma de suas falas: “voce espera ter os filhos, espera que eles cresçam, espera que eles saiam de casa, e depois não tem mais futuro?”.  Partindo dessa insatisfação ela bate o pé, o marido conservador (Tommy Lee Jones, escolheram colocá-lo como contador, não podia ser mais conservador) se vê obrigado a aceitar, contrariado.

Com o casamento nesta lástima partem para uma terapia de casais (Steve Carrell é o especialista, em papel sério). Não imagine seus avós ou pais numa situação dessas, não te fará bem. Mas, tratando com distanciamento, e com o tom de humor sem exageros empregado pelo diretor David Frankel, temos um divertido e interessante estudo da vida sexual na terceira idade.

Sim, estamos falando de fantasias, de desejo, de reviver o casamento, não só na cama, mas partido dela para que o resto possa fluir fora dos padrões pré-estabelecidos. E verbalizar isso, com um estranho, passar pelo processo de dividir a intimidade, dói tanto no público quanto naqueles dois sexagenários de vidas comuns, frustrados, e encolhidos pelo perigoso silêncio que um casamento pode causar.

Não é um estudo dramático e nem uma comédia rasgada, esse tom divertido-romântico faz bem aos personagens que podem dividir o peso de discussões delicadas com um humor repetitivo e rabugento que permite melhor fluidez da trama.