Posts com Tag ‘Steve McQueen’

Os Implacáveis

Publicado: julho 22, 2014 em Cinema
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osimplacaveisThe Getaway (1972 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Vou soltar uma frase machista ao extremo, mas esse é daqueles “filmes de homem”. Assalto a banco, perseguições de carro, tiroteios, traições e vingaças, mulheres com cenas insinuantes, um cardápio completo.

Steve McQueen e Ali MacGraw (com sex appeal no último) são o casal Bonnie & Clyde da vez. Primeiro Peckinpah filma McQueen no presídio, no cotidiano do detento é dividido com imagens congeladas, esse efeito dá um impacto, impõe estilo. A seguir os planos para um assalto à banco, depois fugas por inúmeros meios de transporte (carro, trem, ônibus). Sempre com tiroteios, malandros na captura, e sequencias eletrizante que pairam entre o suspense e ação pura. Em alguns momentos exagerada na dose, o riso é sintomático (a fase no lixão é o ápice), mas nada que um novo golpe a seguir não recupere a estima pelo casal implacável.

É como eu disse no início, é filme para os homens se imaginarem na pele do protagonista, com a mulher do lado, a coragem e a precisão dos tiros, e o estilo cool que seduz qualquer fã de cinema. Isso é McQueen, isso é Peckinpah e sua violência na veia, e seus cortes rápidos, o frenesi do seu cinema.

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oscar_2014_2Há quem tenha saído bronquedo da entrega dos Oscars ontem, questionando que sentido há num filme ganhar 7 prêmios enquanto outro apenas 3 e sair como Melhor Filme. Se pensarmos num universo de milhares de votantes que são alvejados por uma metralhadora de opiniões, outras premiações e campanhas massivas de marketing, não dá para se esperar que o ponto alto seja a coerência. A verdade é que o Oscar se torna cada vez mais uma premiação óbvia e antecipada. O problema deve ser o formato da corrida, afinal, quando chega a reta final com os prêmios dos sindicatos (onde os votantes são os mesmos), fica bem fácil diagnosticar quem serão os vencedores da AMPAS.

Por isso, quando Jared Leto recebeu o primeiro prêmio da noite (ator coadjuvante) já se sabia o script das premiações. Havia uma leve dúvida entre Lupita e Jennifer Lawrence, uma possibilidade de Capitão Phillips ganhar Montagem de Gravidade, e Trapaça vencer figurino de O Grande Gatsby. Fora isso, eram certezas atrás de certezas (até documentário já se esperava a derrota de Ato de Matar para A Um Passo do Estrelato). O Oscar não premia o melhor, e sim o que conseguiu a campanha de marketing mais eficiente. O The Hollywood Reporter publicou uma série de entrevistas com membros da academia (mantido o anonimato) que prova como, em muitos casos, as pessoas não viram os filmes e votam de acordo com o hype (link para Brutally Honest Oscar Race)

oscar_2014_1Voltando ao script, enquanto as surpresas não aconteciam e ganhavam Alfonso Cuarón (direção), Matthew McConaughey (ator), Cate Blanchett (atriz), A Grande Beleza (filme estrangeiro) e os prêmios técnicos (som, fotografia, efeitos especiais e etc) para Gravidade. A comediante Ellen De Generes se esforçava em fazer piadas, de pizza a selfie). A festa é longa, ainda não se deram conta de que as apresentações musicais deveriam ser completamente banidas, e os clipes de homenagem devia ser lançados no Youtube apenas para promover o show. Como não fazem nada disso, lá se vão 4 horas de prêmios cantados há semanas.86th Annual Academy Awards - Show

Respondendo ao questionamento que abriu esse post. Gravidade se preocupa muito com a parte técnica, é realmente impecável, mas sua história e personagens são tão capengas que o resultado final não é um grande filme. Já 12 Anos de Escravidão é um duro, competente (sem falar na ladainha da grande história que precisa ser contada). O filme vai ser passado, obrigatoriamente, nas escolas dos EUA. Realmente havia alguma chance de não ser escolhido como Melhor Filme? Eu ainda acho que era o melhor mesmo.

oscar_2014_3Entre os discursos, Lupita foi o único verdadeiramente emocionante, sua alegria contagiante e simples foram o toque de inesperado em toda a festa. Cate Blanchett também agradou com seu estilo sofisticado, porém emocionado. Os demais foram protocolares, até coisas como Ucrânia e Venezuela estamos com você. Hello?

oscar_2014_5No fim, sem surpresas, até que ganhou o melhor, e nas demais categorias os prêmios não ficaram feios. Perder chances de premiar Ato de Matar e A Imagem que Falta são tristes, assim como escolher Frozen quando havia Vidas ao Vento ou Ernest e Celestine entre opções. Mas é Oscar, é lobby, o que mais será falado em alguns anos é o selfie da Ellen que se tornou a foto com mais RT da história da internet.

oscar_2014_6E para nós, brasileiros, por mais que digam que o mais próximo que se chegou de um Oscar foi a brasileria esposa do Matthew McConaughey, o ápice foi a mais que justa lembrança de Eduardo Coutinho no In Memoriam, junto de outros grandes nomes como Philip Seymour Hoffman, James Gandolfini, apesar da lentidão da Academia ao não acrescentar o mais importante de todos, Alain Resnais.

12anosdeescravidao12 Years a Slave (EUA – 2013) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Entristece um pouco pensar que Steve McQueen, um dos cineastas mais intrigantes da recente safra de novos diretores, vá ganhar o Oscar com o filme mais “convencional” de sua curta carreira. Este é apenas o terceiro longa. Favorito absoluto na corrida deste ano ao “careca dourado”, porém por mais consistente e fabuloso que seja seu filme, ficou de lado aquela perturbação de seus trabalhos anteriores em prol de uma história justa.

Porque, afinal, este é um daqueles filmes que precisavam ser filmados, uma daqueles histórias que precisavam ser contadas, e toda aquela ladainha blasé. Trata-se da biografia de um homem (cuja trajetória representa a de inúmeros outros à época). Um negro livre (Chiwetel Ejiofor), sequestrado e escravizado, durante 12 anos. Tempo suficiente para McQueen transpassar às telas toda a indignação com a escravidão.

12anosdeescravidao_2Injustiças, açoites e humilhações, qualquer sabe o que esperar dessa história. Capatazes impiedosos, fazendeiros sádicos (Michael Fassbender), todo e qualquer tipo de abuso nas relações raciais. A narrativa de McQueen é densa, sóbria, consistente. Aliada o tradicional ao seco, mesmo os momentos mais dramáticos tem ausência do melodrama, retrato estéril do estilo do cineasta. Por exemplo, na grande cena do filme, as chibatas no tronco, são de uma agressividade impar, o corte do corpo, o jorrar do sangue, impressiona mais o exercício cirúrgico do que a novela de um homem sofrendo todas as dores do mundo.

Shame (2011 – ING)

Vergonha, vergonha, vergonha de quê? Até quando um sujeito independente e sozinho deveria se envergonhar de uma compulsão sexual que ele alimenta com sexo casual, masturbação e pornografia? A quem ele está fazendo mal? Pois, a sociedade ainda se assusta com tudo que não for o “fazer amor” de maneira idílica e Renascentista. Estaria mesmo Steve McQueen preocupado com esse tabu ou seu personagem de libido feroz não passa de um grande argumento para que o cineasta destile seu estilo de direção provocativo e íntimo? Sem dúvida, ele opta por outro caminho, o do nu sem sensualidade, o dos corpos como meros corpos, sem plasticidade, sem romantismo, pedaços de carne, músculo e pele que se movimentam, e suspiram, trocando a beleza pelo desejo.

Num vagão de metro, Brandon Sullivan (Michael Fassbender, irrepreensível) foca seus olhos de maneira direta, o olhar penetrante, provocativo e incisivo parece despir a mulher que notada divide um misto de incomodo e excitação. A mão entre as pernas, o movimento das coxas, o jogo de suspense e flerte malicioso conduzido por McQueen praticamente serve como resumo do filme. Aquele rosto quieto e agradável, de virilidade sensual e distancia pré-estabelecida entre qualquer relação de cumplicidade, pode fazer o corpo de uma desconhecida ferver, ao mesmo tempo que causa insegurança, temor, é o insinuante desconhecido elevado a enésima potência.

A irmã (Carey Mulligan) aparece para trazer outra abordagem, além de uma carga dramática desnecessária (por outro lado, nos agracia com a cena em que ela canta New York, New York, quase em câmera lenta, e McQueen causa uma aproximação com o irmão que a observa). Na relação com ela fica claro o distanciamento das relações pessoais de Brandon, a dificuldade (ou total desinteresse) de sair da bolha de trabalho, sexo e independência social que ele construiu a si, e mantém impenetrável na sua vida social promíscua e depravada.

O peso da culpa é o grande mal do filme, o título vem desse peso sob sua impossibilidade de se relacionar, o convívio sob o mesmo apartamento atinge o impossível, enquanto ele tenta um princípio de aproximação com uma mulher, para algo que poderia ser um relacionamento (em duas cenas de longos planos-sequencias espetaculares, onde o timing, os diálogos, a mistura de humor tentando quebrar o gelo e interesse mútuo camuflado pela falta de intimidade, desde já se colocam como sequencias viscerais). Ao sair, timidamente, de sua bolha causa a demonstração de suas fragilidades, e uma insegurança que não parecia capaz de pertencer a este homem tão “seguro de si”.

Hunger

Publicado: maio 19, 2009 em Uncategorized
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Hunger (2008 – RU)

Na faculdade um professor disse que onde há prosperidade econômica, não há conflitos, movimentos revolucionários, desde que a União Européia prosperou que não se ouve falar do IRA. Será que o professor tinha razão? Voltamos à década de oitenta, não espere aqui um filme de conteúdo informativo, mas sim de personagens engajados em sua luta, em sua crença, em seu patriotismo libertário. As mensagens do diretor Steve McQueen usam a força da imagem para repercutirem. Em cenas desagradáveis, asquerosas, o governo britânico (Tatcher) é acusado de um tratamento sub-humano aos presos políticos (ou melhor, a acusação forte do filme é de que eram julgados e tratados como presos comuns e não políticos). Celas nojentas, escuras e repletas de insetos e outros bichos repugnantes, restos de comida jogados ao chão, contusões, violência incontrolada. Os presos lutam com sua bravura por seus direitos, tentam greves (primeiramente de banho, quase morrem ao tomarem banho a força). No grande embate do filme, um padre e Bobby Sands (Michael Fassbender) discutem seus pontos de vistas, Bobby Sands planeja uma greve de fome (daí o título) e a discussão torna-se acalorada sobre dogmas, crenças, sobre atitude. O embate cresce enquanto os pontos de vistas são cada vez mais antagônicos. E McQueen registra tudo entre um cigarro e outro, com câmera fixa e certo distanciamento, com rostos meio encobertos, e sem cortes. O diálogo fala por si, eleva o filme a uma posição além do mais uma história política, exasperante pelo impacto das imagens e pela obstinação de seus polidos personagens.