The Post: A Guerra Secreta

The Post (2017 – EUA) 

Da janela da Casa Branca a figura do presidente Nixon, de costas, esbravejando ao telefone contra tudo que o incomoda. O filme repete essa cena, algumas vezes, sempre vilanizando o já vilão. O momento para rediscutir liberdade de expressão nos EUA não é mais oportuno nesses anos de governo Trump. Steven Spielberg se aproveita sim do momento para trazer à tona o embate judicial entre governo e dois dos principais jornais dos EUA (The New York Times e Washington Post) durante a Guerra do Vietna. Em jogo, documentos secretos que provam a irresponsabilidade dos presidentes em seguir com a guerra.

Spielberg transforma em thriller político a dramatização desses dias na redação do Post. O cineasta se mostra um apaixonado em homenagear a arte de fazer jornal, um fetiche repetitivo com cenas das máquinas imprimindo jornais, enquanto as discussões e dúvidas enlouquecem a dona do jornal (Meryl Streep), seu editor-chefe (Tom Hanks) e outros de seus líderes. É uma daquelas histórias fascinantes, mas narrada de forma linda demais, quase datada, e que Spielberg tenta rejuvenescer, via firulas narrativas típicas de Joe Wright.

Sobra edição acelerada no dinamismo das conferências telefônicas que decidiu o que publicar, ou nos planos-sequencias pela redação, assim como excessivamente resta o tom melodramático com que os dramas da toda-poderosa (inclusive o de se impor como mulher e grande chefe) e de se sobrepor aos homens anteriores que ocuparam sua posição (seu pai, seu falecido marido). Spielberg tenta se renovar, mas seu lado nacionalista e antiquada bandeira pela honra e bons costumes ainda aparece quando ele menos espera.

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Encurralado

encurraladoDuel (1971 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Conhecido como o primeiro longa-metragem de Steven Spielberg, ainda que foi feito para tv, e depois lançado no cinema, mostra o jovem cineasta numa completa demonstração das possibilidades que o cinema oferece. O roteiro tem apenas um fiapo, um motorista de carro e um de caminhão (que jamais aparecerá frente às câmeras) rivalizando após uma simples ultrapassagem na estrada. Spielberg cria um suspense eletrizante, cheio de cortes e enquadramentos que contribuem para a atmosfera perfeita.

Quem não conhece o início de carreira de Spielberg vai estranhar o ritmo e temática tão distantes que o consagrou em filmes de fantasia (ET) ou aventuras como Indiana Jones. Sinal da versatilidade e das possibilidades que a juventude de experimentação permite. Mesmo após tantos e tantos sucessos de critica e bilheteria, os anos 70 são a década que guarda os melhores filmes do provável cineasta mais famoso do mundo.

Ponte dos Espiões

Brooklyn lawyer James Donovan (Tom Hanks) meets with his client Rudolf Abel (Mark Rylance), a Soviet agent arrested in the U.S. in DreamWorks Pictures/Fox 2000 PIctures' dramatic thriller BRIDGE OF SPIES, directed by Steven Spielberg.

Bridge of Spies (2015 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Nova parceria de Steven Spielberg e Toma Hanks, dessa vez com roteiro dos Irmãos Coen e de Matt Charman, é tido como um dos possíveis indicados ao Oscar. A união dessa turma sempre cheira a bons resultados, mesmo que tenhamos tambémvisto a pieguice melodramática e nacionalista ocorrer. Infelizmente, o resultado está mais próximo da segunda opção. Ao construir a história de um advogado (Tom Hanks) obrigado a se envolver na defesa de um espião russo, preso e levado a ulgamento nos EUA. E, mais adiante, a negociação da troca desse espião por um piloto da aeronáutica americana com a URSS, Spielberg volta a realizar aquele grupo de seus filmes com temas sérios (como Munique, Lincoln ou A Lista de Schindler).

Vivemos a Guerra Fria, novamente Spielberg tenta ser o John Ford (ou Frank Capra) contemporâneo, com um tom clássico de narrativa, porém esse mesmo tom, carregado por esse nacionalismo melodramático, desembocam num mar de sequencias que flertam com a necessidade de encantar o público pelos atos “heróicos”. Mesmo que seja baseado numa história verídica. O exagero dos pequenos detalhes, que tentam representar o que já está claro, a ânsia em super valorizar esse heroísmo, são características que quando unidas perfazem essa tentativa de reconstituição das negociações da Guerra Fria naquela retrógrada visão de comunistas do mal e capitalistas do bem.

Oscar 2013

Viajando em boa parte do mes de fevereiro, fui obrigado a abrir mão de cobrir a repercussão do Festival de Berlim 2013 (que pelo visto não foi animador), e também de acompanhar a reta final das campanhas pelo Oscar. Por isso, sendo o último da fila, faço aqui meus comentários sobre a premiação, e, dessa forma, podemos começar 2013 por completo.

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E Oscar é igual carnaval, o próximo começa assim que termina o anterior. Já surgem as primeiras especulações sobre possíveis candidados. Sendo que os filmes nem finalizados foram, entre eles está a nova adaptação de O Grande Gatsby. O que quero dizer é a importancia das estratégias dos estudos e das campanhas de marketing (quase lavagem cerebral) na cabeça dos votantes. Esta última edição começou a pegar fogo no Festival de Veneza, e logo a seguir, com o Festival de Toronto.

Em Veneza, O Mestre foi aclamado, amado, dado como o grande filme do ano, e, dessa forma, o vencedor do Oscar. A inexplicável decisão do juri tirou o Leão de Ouro do filme para lhe dar outros dois prêmios. Mas, o fato é que, os americanos não entraram na do filme de Paul Thomas Anderson, perdendo tanta força que só conseguiu 3 indicações nas atuações.

A seguir estreiava no Festival de San Sebastian, Argo, e o filme de Ben Affleck foi recebido de maneira morna, tratado como um thriller competente (e é exatamente o que o filme é, nada além disso). Não se falava no filme porque com O Mestre caindo os holofotes se dividiam entre Kathryn Bigelow e seu A Hora Mais Escura – sobre a morte de Bin Laden. O musical de Tom Hooper, Os Miseráveis (que  ao estreiar foi tão detonado que afundou rapidamente), e Lincoln, de Steven Spielberg, que já surgia como provável vencedor.

Lincoln foi recebido com boa bilheteria, A Hora Mais Escura nem tanto. Mesmo a veneração dos americanos por Lincoln não conseguiram emplacá-lo totalmente rumo a consagração. Por fora surgia um desses filmes menores, O Lado Bom da Vida, de David O Russel que já conseguira algum destaque com o Vencedor. Outros nomes surgiam para completar a lista, mas, no fundo, os filmes naufragavam por suas fragilidades.

Oscar 2013 - Ang Lee (melhor diretor)

Já havia sinais de que não seria um Oscar de grandes filmes, mas Lincoln parecia absoluto, imbátivel, aquele filme com cara de Oscar. Os outros estudios no corpo a corpo do maketing, e eis que Argo ganha um premio aqui, outro ali, Lincoln vai sendo esquecido, perdendo terreno, surge o Globo de Ouro e as indicações ao Oscar. Ben Affleck não entra na lista de melhor diretor, Lincoln tem 10 indicações, e a fabulosa qualidade técnica de A Vida de Pi, de Ang Lee, também o colocam entre os que mais foram indicados (nesse ponto, A Hora Mais Escura já se tornará carta fora do baralho).

Analisando os indicados, se podia perceber que não havia um filme unanime, tanto que o estrangeiro Amour, de Michael Haneke, emplacara 5 indicações (incluindo filme e diretor). Que a fabricação de Indomável Sonhadora como filme sensação surtira efeito (após seus premios em Sundance e Cannes), tendo conseguido até ser indicado como diretor. E que, os Irmãos Weinstein são bons de marketing, afinal foram 8 indicações para a comedinha romantica O Lado Bom da Vida. Ainda tinha Tarantino, mas se ele nunca consegue grandes premios, não pareciaque as polemicas de Django o fariam virar o jogo dessa vez.

Daniel Day-Lewis, Jennifer Lawrence, Anne Hathaway, Christoph Waltz

Na noite do Oscar, ninguem tinha duvidas quanto a Argo, na reta final ele ganhara todos os premios, e descartando a possibilidade de Amour, os demais filmes nem pareciam melhor que ele (relembrando que é um thriller competente, só isso, imagine os demais). Assim como a vitória certa de Daniel Day-Lewis e Anne Hathaway, a polarização entre Jessica Chastain e Jennifer Lawrence para atriz (Chastain tem feito por merecer nos últimos anos, mas no fundo, nenhuma das duas mereciam). Diretor e ator coadjuvante se colocavam como as grandes questões abertas da noite, e realmente surpreenderam. A lista de diretores não parecia ter grande vencedor, todos apostavam em Spielberg, herança da expectativa que se tinha com Lincoln, mas deu Ang Lee (que ganha seu segundo oscar de direção, e nunca melhor filme, enfim, preferiram alguém que conduziu a parte técnica, e sem atores, fez um filme mais que chato.

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E, dessa forma, se foi mais um Oscar, cheio de premios previsíveis, nem sempre optando pelo merecimento em detrimento às campanhas. E, como umas das piores festas dos últimos tempos, seja pelo apresentador fraco, seja pelo inexplicável resgaste do musical  Chicago, a incoerencia das canções (algumas cantadas, outras não), e pelos clips preguiçosos e sem inspiraçao (maior exemplo o desperdício na homenagem de 50 anos do James Bond). Hollywood sofre são mega estrelas, ainda vive das que marcaram os anos 80 e 90, e isso reflete nessas tentativas loucas de mudar a noite de premiação, e assim, atrair maior ibope.

Lincoln

lincolnLincoln (2012 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

O problema do filme é Steven Spielberg. Há Spielberg demais no filme, e isso inflama tanto o roteiro, a trilha sonora, a distancia narrativa entre dois nucleos (Casa Branca pacata, Congresso inflamado), que essa busca pelo filme “sério” cria um frankenstein da história americana.

Primeiramente, o filme é sobre a 13ª Emenda, não sobre Abraham Lincoln (Daniel Day-Lewis). Ele é o protagonista por colocar seu prestigio, e força política, na aprovação dessa emenda, que resultava na abolição dos escravos (na verdade ia além disso). O intuito era colocar fim na Guerra Civil que assolava o país. Não há participação dos negros nesse processo (da forma como está no filme). Há um congressista (Tommy Lee Jones) que insiste nessa emenda há décadas, e Spielberg consegue estragar tudo quando entra na casa dele. Fora isso, todo o poder do governo em negociar com congressistas para obter sua aprovação.

É um filme sobre os mecanismos políticos da época, permeado com a figura de Lincoln entre suas relações familiares, e sua pausa para narrar “causos”, a quem quer que fosse. Se a dose dramática está distante do roteiro, Spielberg abusa de John Williams preenchendo qualquer espaço que encontre – chega a causar náuseas. Dessa forma temos um Lincoln apresentando à maneira de Spielberg, um momento crucial da história mundial transformado em filme de tribunal, e dezenas de cenas cansativas e nada inspiradas que alongam, desnecessariamente, toda essa ode aos meandros políticos do século XIX.

As Aventuras de Tintim

The Adventures of Tintin (2011 – EUA/NZL)

Por mais que não tenha sido eu um dos leitores da famosa HQ escrita pelo belga Hergé, já passava da hora de sua adaptação aos cinemas. Noticias dizem que Steven Spielberg há anos havia planejado esse projeto, faltava-lhe a tecnologia para colocá-lo em prática. Tarefa essa finalmente concluída, uniu-se a Peter Jackson para colocar em prática as aventuras do jovem jornalista curioso (Jackson deve dirigir o próximo filme, se houver um).

A palavra “aventura” no título é o resumo perfeito, ela mais que representa, na verdade é a a única motivação de toda a história que se apresenta. Não há um segundo para se respirar, ou até para se conhecer melhor o personagem, desde o primeiro instante o público é lançado na faísca que causará todo o incêndio de aventuras que durará até os créditos finais. Caímos na mesmice do entretenimento puro, com aspecto visual impecável, tecnologia deslumbrante e obviamente oco, de tão agitado e perfeitinho beira o chato. Junte as crianças na sala, coloque a pipoca no micro-ondas e venha passar umas 2 horas com a família, aquele momento em que as crianças ficam paradas num lugar e deixam os pais em paz, o Tintim de Spielberg não vai além disso.

Cavalo de Guerra

War Horse (2011 – EUA)

E logo no começo do ano, já temos um favorito, de peso, a pior filme do ano. Steven Spielberg ultrapassou todos os limites do aceitável,sua fábula equinea chega a momentos de pieguice jamais antes vistos. As peripécias de um cavalo que troca de dono, muitas vezes, durante a Primeira Guerra Mundial, é uma mal lavada tentativa de evidenciar temas como Lealdade, Amizade e Coragem (dá para imaginar a pieguice?).

Por mais que haja o tom de fábula, Spielberg tenta imprimir um tom sério, e ao mesmo tempo, de preserverança, resulta num filme patético, de cavalos vivendo um Brokeback Mountain da amizade, de reencontros inflamados e impossíveis (elevados à enésima potência da coincidência). Trilha sonora brega praticamente durante todo o filme, não há um elemento sequer que se salve no meio desse mar de tolices. Spielberg devia esconder o filme, com vergonha, muita vergonha. Fala-se em Sessão da Tarde, nunca, reprisem Os Goonies mil vezes.