Posts com Tag ‘Susumu Terajima’

depoisdavidaWandâfuru Raifu (1998 – JAP) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Não havia outro caminho a seguir. O saudosismo sistemático, implacavelmente seria veículo para que a narrativa fluísse vagarosa e constante, como o leito de um rio. Um singelo filme de memórias, mas não apenas isso, do tema vida-após-a-morte surgem galhos, cada um desses galhos se refere a história de vida de um personagem. Das recordações traçamos os principais aspectos que formam o jeito de ser, o caráter, o estilo de vida, as oportunidades e decepções de cada um deles. É um jogo enigmático, decifrar a complexidade de um ser humano.

O que acontece após a morte? Para o cineasta Hirokazu Kore-eda seríamos enviados a uma espécie de albergue, aonde passaríamos uma semana, enquanto os conselheiros do local nos solicitam que escolhamos apenas uma das recordações que mantemos na memória. Depois, uma equipe reconstituirá o acontecimento (como num filme), até que sejamos enviados a um outro plano, e de nossa memória tudo será apagado, exceto a recordação escolhida. Como escolher somente um momento, uma única recordação, de uma vida toda? Onde estão nossas melhores recordações?

A infância é a resposta da maioria, porém momentos amorosos, de muito carinho e emoção, também têm presença constante. A felicidade poderia ser medida pela quantidade de pequenos momentos felizes que passamos, porque ser feliz 100% do tempo é tarefa impraticável. Câmera estática, longos planos, as entrevistas divergem de qualquer tipo de dinamismo. Serenidade é a palavra de ordem naquele lugar. Afinal estão todos mortos, não há mais pressa para nada.

Dentro desse quadro, Kore-eda esmiúça a alma de um dos conselheiros, para que saboreemos uma espécie de filosofia proposta pelo cineasta. São micro lições de vida, de onde surgem os mais variados temas, como amor, respeito, afeto, e uma infinidade de sentimentos. De todas as proposta de Kore-eda, aquela que se apresenta como desfecho para o personagem central é de uma beleza imensurável. É na simplicidade, e honestidade, que se torna ainda mais bela e cativante essa simples explanação de um dos significados do amor, de um dos significados da vida. Tolo é quem não percebe a importância de uma recordação como aquela, ou melhor, do ato de ser recordado.

 

distanceDistance (2001 – JAP) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

É bem provável que o fato gerador tenha sido o ataque terrorista promovido, em 1995, com gás Sarin, por uma seita religiosa, no metrô de Tóquio, deixando dezenas de feridos e mortos, aterrorizando o país. O que o diretor Hirokazu Kore-eda propõe, no filme, é expor uma visão perpendicular sobre o terrorismo. Muito mais do que um pacifista, o cineasta preocupa-se em cultivar as memórias, de cada um daqueles que trocaram a vida por suas crenças e ideais.

Na história, uma seita religiosa contaminou alguns reservatórios de água em Tóquio, causando sérios problemas à população. Milhares de feridos, e inclusive mais de cem mortos. As razões não ficam nada explicadas, mas, sucessivamente, dezenas de participantes dessa seita promovem um suicídio coletivo, e as cinzas jogadas num lago próximo ao local onde habitavam.

O filme parte da reconstituição precária das lembranças de um grupo de quatro pessoas, que perderam parentes nesse evento. A esposa, um irmão ou um amigo, não importa. Eles reúnem-se, anualmente, numa peregrinação junto ao tal lago, onde foram lançadas as cinzas. Prestam homenagem aos que se foram, lamentam profundamente o ocorrido, e tentam entender as razões para que terem largado suas vidas e se embrenhado nesse caminho de crenças e estranhos ideais. Dessa vez, devido a um assalto, conhecem no local um sobrevivente, que conviveu com os respectivos parentes de cada um, inicia-se um relato do dia-a-dia, do convívio, um martírio necessário para cada um expurgar suas mágoas.

O que incomoda em Tão Distante é a ligeira impressão de barco a deriva que o filme possui, a montagem é confusa, os personagens pouco explorados, a fotografia é linda quando se pretende contemplar a paisagem. O filme possui um quê de profundo, mas se alicerça em flashbacks pouco elucidativos que apenas recriam o momento de tensão pré-ingresso na seita pelos seguidores. O interesse de Kore-eda é muito mais voltado ao íntimo dos integrantes de um grupo desse tipo. E como preferiu um filme de lembranças, visto pelas pessoas que mais tinham preconceito do grupo, fica uma sensação de pré-julgamentos. Assim, seu filme além de confuso, lento e tão distante, está também impregnado de uma repreensão nada benéfica a seus personagens.