Posts com Tag ‘Tadanobu Asano’

Last Life in the Universe (2003 – TAI) 

A imagem de um lagarto na parede, um livro infantil começando com “um dia o lagarto acordou e percebeu que estava sozinho nessa terra”, um bibliotecário japonês com mania de limpeza e pensamentos suicidas, e uma garota irritada com a prostituição de sua irmã.

Foi o filme que chamou a atenção do mundo ao trabalho do cineasta Pen-Ek Ratanaruang, um filme de posicionamento dúbio, de encontro com uma solução que não seja nem o “sim” e nem o “não”. Mas também de extravagancias e coincidências questionáveis (o clímax, com participação de Takashi Miike, é ingênuo).

Enquanto a tragédia aproxima Kenji (Tadanobu Asano) e Noi (Sinitta Boonyasak) em algo que não se pode identificar como amor ou amizade, a trama entrega parte das peças do quebra-cabeças que “explica” as razões desse bibliotecário ter se mudado a Bangcoc, sem falar a língua local.

Nessa estrutura enigmática e intimamente ligada ao livro infantil do lagarto Ratanaruang desenvolve esse jogo de dúvidas sem respostas claras, utilizando-se de seu estilo próprio de enquadramentos e planos longos, de elementos de fantasia inseridos a outros de doçura e violência. E ainda, ocasionalmente, revelando algumas cenas plasticamente belíssimas, com pitadas de afeto e desconsolo. Corpos deitados num sofá ou num banco de carro, gestos de carinho e o indecifrável teor romântico.

Ondas Invisíveis

Publicado: junho 22, 2009 em Cinema
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Invisible Waves (2006 – TAI/HOL/HK/COR) 

Assassinos no cinema são celebrados com glamour chamuscado e certo charme místico, deixam a tutela de vilões para um staff de assassino. Pen-Ek Ratanaruang vem com a desglamourização, renegando a posição de assassino ao rudimentar, algo totalmente fora da rota de vida fácil, do conforto. O cozinheiro Kyoji (Tadanobu Asano) assassinou sua amante (a mando do chefe que era casado com a vítima). O processo é lento, um jantar silencioso, banhado a sexo, até a vítima sentir os efeitos do envenenamento. Ratanaruang filma com exímia delicadeza e prazer, jamais foca o rosto da vítima, e a paciência do assassino é exemplar.

Eis a faísca, a verdadeira trama é a relação do cozinheiro (agora fugitivo sob patrocínio do mandante) com a morte (exceção à sinuca de bico que se meteu na posição de amante, ele apresenta-se como um sujeito de respeito, atencioso), e principalmente com seu chefe. A fuga num cruzeiro oferece apenas uma escotilha onde nada funciona (cama que não fica na horizontal, fechadura quebrada, chuveiro disparando duchos de água em momentos inoportunos), num tom de bege capaz de enjoar o mais experiente dos marinheiros (os enquadramentos me fizeram lembrar Liverpool do Lisando Alonso). Uma viagem para apagar da memória, e Ratanaruang batendo na tecla que só na ficção cinematográfica que a culpa e conforto andam unidos. Os planos de quem tem coragem de contratar para matar são torpes, pode-se confiar em alguém tão leviano?

O desenrolar não poderia ser mais humano e ingênuo, os desdobramentos na Tailândia que aproximaram novamente os dois envolvidos serão mera formalidade dentro da proposta elaborada e bem executada de Ratanaruang, o anti-suspense vem de encontro às perspectivas de Kyoji e à vingança que planeja ao sentir-se encurralado.

distanceDistance (2001 – JAP) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

É bem provável que o fato gerador tenha sido o ataque terrorista promovido, em 1995, com gás Sarin, por uma seita religiosa, no metrô de Tóquio, deixando dezenas de feridos e mortos, aterrorizando o país. O que o diretor Hirokazu Kore-eda propõe, no filme, é expor uma visão perpendicular sobre o terrorismo. Muito mais do que um pacifista, o cineasta preocupa-se em cultivar as memórias, de cada um daqueles que trocaram a vida por suas crenças e ideais.

Na história, uma seita religiosa contaminou alguns reservatórios de água em Tóquio, causando sérios problemas à população. Milhares de feridos, e inclusive mais de cem mortos. As razões não ficam nada explicadas, mas, sucessivamente, dezenas de participantes dessa seita promovem um suicídio coletivo, e as cinzas jogadas num lago próximo ao local onde habitavam.

O filme parte da reconstituição precária das lembranças de um grupo de quatro pessoas, que perderam parentes nesse evento. A esposa, um irmão ou um amigo, não importa. Eles reúnem-se, anualmente, numa peregrinação junto ao tal lago, onde foram lançadas as cinzas. Prestam homenagem aos que se foram, lamentam profundamente o ocorrido, e tentam entender as razões para que terem largado suas vidas e se embrenhado nesse caminho de crenças e estranhos ideais. Dessa vez, devido a um assalto, conhecem no local um sobrevivente, que conviveu com os respectivos parentes de cada um, inicia-se um relato do dia-a-dia, do convívio, um martírio necessário para cada um expurgar suas mágoas.

O que incomoda em Tão Distante é a ligeira impressão de barco a deriva que o filme possui, a montagem é confusa, os personagens pouco explorados, a fotografia é linda quando se pretende contemplar a paisagem. O filme possui um quê de profundo, mas se alicerça em flashbacks pouco elucidativos que apenas recriam o momento de tensão pré-ingresso na seita pelos seguidores. O interesse de Kore-eda é muito mais voltado ao íntimo dos integrantes de um grupo desse tipo. E como preferiu um filme de lembranças, visto pelas pessoas que mais tinham preconceito do grupo, fica uma sensação de pré-julgamentos. Assim, seu filme além de confuso, lento e tão distante, está também impregnado de uma repreensão nada benéfica a seus personagens.

 

zatoichiZatoichi (2003 – JAP) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

A figura do samurai cego é muito popular no Japão, o conto de Kan Shimozawa inspirou outros filmes e programas de TV. Takeshi Kitano resolveu mostrar sua visão sobre o personagem trazendo-o novamente às telas, deixando nele traços de sua marca registrada. O humor impagável é presença constante, o sangue jorra, exageradamente, mesmo que longe das lutas coreografadas de filmes como em Matrix ou O Tigre e o Dragão. Para o Zatoichi, apenas dois ou três golpes são o necessário para aniquilar o embate.

Conhecido apenas como Massagista (Beat Takeshi), o cego perambula pelo Japão do século XIX, vivendo de seu ofício e da jogatina. Escondendo suas habilidades no manejo da espada, mantendo-a camuflada numa bengala. Por esses caminhos, conhece duas gueixas, que vivem o desejo de vingar-se dos assassinos de sua família. No bairro, uma nova e violenta gangue assumiu o controle e coloca terror nos comerciantes. O Massagista toma as dores das pessoas que o acolheram e aguarda o momento certo para defrontar-se com a tal gangue que acaba de contratar um samurai como guarda-costas.

Novamente o próprio Kitano assume o personagem principal, além de inúmeras outras funções na produção, e sem dúvida o humor é o grande atrativo do filme. Satírico, só de olhar para a figura do Massagista já se tem vontade de abrir o sorriso, ainda mais quando ele solta sua risada marcante. Filmado como um faroeste à japonesa, de maneira contagiante e debochada.

Entre os melhores momentos, as cenas envolvendo a lenha cortada, Shinkichi (Gadarukanaru Taka) envolto aos jogos de azar, pequenos detalhes antes das lutas, o disfarce feito nos olhos do Massagista, mas, principalmente o gran-finale com com a apresentaçãi de sapateado fora dos padrões. Kitano é eficiente no que planeja apresentar, manuseia com habilidade sua câmera, e entrega um filme-deleite a seu público.