Posts com Tag ‘Tahar Rahim’

Reparer Les Vivants (2016 – FRA) 

Indicado a melhor roteiro no César e integrante da Mostra Horizonte, do Festival de Veneza, o novo filme da diretora Katell Quillévéré muda completamente a rota, da leveza dramática de seu filme anterior (Suzanne), para o peso do drama familiar que enfrenta tragédias e nova esperanças. De um lado a fatídica morte de um jovem, de outro a possibilidade de recuperar a vida com um transplante de órgãos.

Quillévéré cria a falsa leveza nas primeiras cenas, um acidente de carro quase hipnótico, para a seguir tratar da dor da perda dos pais, enquanto, em paralelo, corre a história de uma mãe que nem subir as escadas sozinha consegue e precisa, desesperadamente, de um coração. Não deixa de trazer à tona o sempre importante tema da doação de órgãos, mas não precisa gastar mais de vinte minutos vislumbrando um coração batendo, durante uma operação de transplante. Se perde num drama banal, para um tema tão urgente.

osegredodacamaraescuraLa Secret de la Chambre Noire / Daguerrotype (2016 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Entre o romântico e o fantástico, com toques de suspense hithcockiano, o diretor japonês Kiyoshi Kurosawa vai à França filmar a intrigante história do fotógrafo (Olivier Gourmet), de moda, que larga o sucesso para trabalhar numa antiga técnica de fotografia. Antigamente, acreditava-se que os daguerreótipos poderiam tornar eterna a alma da pessoa presença na foto.

O personagem central é o assistente do fotografo (Tahar Rahim) que não compreenda as razões as quais o viúvo vive recluso no casarão, num misto de obsessão e incompreensão contínua. A trama guarda casais apaixonados, especulação imobiliária que agita os ânimos mais ambiciosos. Kurosawa peca um pouco no ritmo narrativo, dá foco demais na lenga-lenga do interesse pela compra da casa, quando o melhor do mistério está na relação entre casais e nos aspectos sobrenaturais, e em toda delicadeza com que o cineasta conduz as relações amorosas ou sociais. Um trabalho bonito, porém imperfeito.

opassadoLe Passé (2013 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Asghar Farhadi e seus filmes altamente dramáticos, altamente falados, de famílias e relações humanas corrompidas. Seu estilo é este, goste ou não. Dessa vez ele filme na França, a congruência da relação entre costumes iranianos e franceses está presente no divórcio de Marie (Bérénice Bejo) e Ahmad (Ali Mosaffa). Ela pretende se casar com Samir (Tahar Rahim), mas há complicações, algumas extravagantes. Separações são doloridas, e num filme de Farhadi sempre um pouco mais, se bem que os elementos complicadores são sempre os mesmos: filhos rebeldes, ciúmes do ex-marido, casais que veem de casamentos fracassados formando um novo casal desconfiado, ressabiado, marcado pelo passado.

Enquanto Ahmad se mete em tudo, e tenta entender o quebra-cabeças que afasta Marie da filha, o filme se desenrola pelo caos que tantas famílias vivem atualmente. O peso o passado carregado em cada discussão, porque nem sempre a razão da mágoa não é sobre o que se discute, mas sobre o que ainda está velado. E Farhadi conduz com mão firme, diálogos e explosões irracionais, corações partidos, feridas não curadas. Seus filmes sempre nos fazem olhar para dentro de nossa casa, de nossas relações familiares, são dolorosos, até mesmo punitivos.

grandcentralGrand Central (2013 – FRA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Também poderia se chamar Amor Radioativo. Filmando numa usina nuclear desativada, a diretora Rebecca Zlotowski resgata os riscos que correm os trabalhadores de usinas desse tipo. As preocupações ininterruptas com contaminação. Baixa remuneração financeira, e outra mazelas. A questão ecológica, o filme-denuncia, são postos de lado. O interesse de Zlotowski é puro e simplesmente no amor.

Um triangulo amoroso é posto na trama, cenas de amor no meio da mata, um ou outro momento de sensibilidade aguçada (a cena do braço de Tahar Rahim encostando na coxa de Léa Seydoux, no banco de trás de um carro). Bem filmado, porém banal. O amor não é transmitido com essa fúria toda, as escolhas não são tão práticas assim. Zlotowski consegue menos do subjetivo do que poderia/deveria, seus amantes mais parecem ligados apenas pelo aspecto carnal.

perderarazaoÀ Perdre La Raison (2012 – BEL) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Joachim Lafosse filma tragédias sociais. Sempre num ritmo sereno, angustiante, como se montasse um quebra-cabeças ao trágico. A sensação de incômodo penetra no público, o comparam a Haneke, mas ele segue outra linha, outro tipo de incômodo, são tragédias “mais reais” e nada metafóricas. É o desgaste da vida que influencia o cineasta.

Trata-se de um filme sobre desgaste, sobretudo emocional. Do amor contagiante de dois jovens (Émiliie Dequenne e Tahar Rahim) ao olhar desolador dela, numa cama de hospital, na cena que abre o filme, há uma longa jornada onde a sensação de manipulação pelo controlador e dócil (Niels Arestrup) causa a destruição da autoestima e do autocontrole.

O roteiro é baseado numa história verídica ocorrida na Bélgica, o que torna tudo ainda mais horrorizante.  A relação delicada de total dependencia do casal, ao homem que tanto ajudou o garoto a sair da pobreza no Marrocos, tornando-o uma espécie de “filho adotivo” e desse modo, imerso em gratidão, funciona como mecanismo de destruição familiar, principalmente na figura da garota que vê seus sonhos naufragarem numa vida de mãe e dona de casa.perderarazao2

Lafosse se encontra nela, sufoca sua personagem, enclausurada no trabalho como professora que nada mais parece a extensão de sua casa, cheia de filhos. O desgaste familiar serve como combustível, mas o diretor não consegue dar eloquente gravidade a essa relação, quase transformando-a numa transtornada com pouca razão. O incomodo está lá, o grau de tensão não. Como sempre, Lafosse filma bem, mas seu impacto acaba abafado, de um jeito ou de outro.