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rayRay (2004 – EUA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

A câmera foca o piano, enquanto os dedos negros agitam a platéia num ritmo contagiante. De repente, a câmera se afasta, o plano se abre, percebemos que víamos aquele piano pelo reflexo dos óculos escuros. É com essa criatividade estupenda que o diretor Taylor Hackford abre a biografia de um dos reis da música. O próprio Ray Charles participou do processo de criação do filme, mas faleceu antes da finalização, e não pôde saborear a homenagem em vida.

Intercalando as ações entre a era adulta, e a fase sofrida quando criança, o filme remonta os principais momentos da vida deste batalhador, que soube superar a deficiência visual (proveniente de um glaucoma aos seis anos) e chegar ao estrelato. Aparentemente, a cinebiografia não poupou os assuntos mais escabrosos da vida de Ray (Jamie Foxx), entre a morte acidental do irmão caçula, a infidelidade conjugal e o vício de drogas, outros momentos pouco brilhantes da vida do cantor são partes presentes na obra.

A figura da mãe forte em sua vida, com ela o garoto aprendeu lições importantes que o homem adulto soube absorver astutamente. Se algumas frases feitas podem parecer clichê, a vibrante atuação de Sharon Warren dá dimensão da garra presente nessa mulher. Nem sempre Ray foi o gênio que todos conhecemos, durante muito tempo foi apontado como imitador e demorou muitíssimo para dar conta de sua influência e assim utilizá-la contra o racismo.

Se há problemas no filme, o crucial talvez seja a abordagem adotada por Taylor Hackford. Todos os fatos são demonstrados pela visão de Ray, a câmera quase se torna os olhos do cantor, por onde o público pode acompanhar o desenrolar de sua vida. Desse modo fica impossível, em algumas passagens, saber da veracidade concreta dos fatos, restando o julgamento do próprio Ray como verdade irrefutável.

Jamie Foxx é a própria personificação de Ray. O ator está explosivamente cheio de vida, copia trejeitos, busca uma caracterização séria de um cego, Foxx é a alma e o corpo do filme. Poderia ele ousar um pouco no mais no personagem, talvez, preferiu não correr o risco de descaracterizar o mito, seguiu a cartilha e fez um dos trabalhos mais elogiados dos últimos anos. Diferentemente do início magistral, Hackford exagera na duração e minimiza demais alguns pontos, o filme termina arrastado e esteticamente enquadrado no selo Hollywood.

oadvogadododiaboThe Devil’s Advocate (1997 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

O jovem advogado criminalista Kevin Lomax (Keanu Reeves) se vangloria de nunca ter perdido um caso. Mora com sua esposa Mary Ann (Charlize Theron), numa pequena cidade da Flórida, onde dividem um simplório escritório, e ali lutam com dignidade em suas carreiras. A fama instantânea de sucessos corre o país, e logo um grande escritório de advocacia de Nova York faz-lhe uma proposta de trabalho milionária.

O presidente é o sinistro John Milton (Al Pacino), um homem mais que misterioso, alguém com um poder de persuasão ilimitado, uma sensibilidade aguçada, um anormal dom manipulador. Kevin está maravilhado com a nova vida, porém a ascensão meteórica na carreira é diretamente proporcional aos problemas que passa a enfrentar no casamento, Mary Ann não se adapta a vida de dondoca, começa a sofrer alucinações, estranhas visões, mania de perseguição.

Desde o princípio da trama, o livre-arbítrio e a vaidade são temas claramente explorados. O roteiro manipula os personagens, deixando clara a verdadeira faceta diabólica de John Milton.  Taylor Hackford é o homem por trás dessa manipulação, para entreter o público gasta tempo em julgamentos, cria um herói almofadinha, que não se deixa influenciar pela nova vida a não ser no quesito vaidade. Ouviremos à exaustão “A vaidade é meu pecado preferido” dita por John Milton. A vaidade como controle principal da mente humana, relacionada a dinheiro, desejo, sexo, sucesso, poder.

Um Al Pacino artificial, um Keanu Reeves sem graça alguma, essas coisas fazem a diferença, tem-se uma história manipuladora e medida, e de outro lado atores de renome com preguiça. Mas a direção de Hackford não é só de erros, entre seus altos e baixos, a cena do espelho é bem envolvente, assim como o desfecho apoteótico, por mais premeditado que possa parecer. São esses momentos que tornaram o filme sucesso no público médio. John Milton pode achar que “o livre-arbítrio é uma droga”, para mim é um dos segredos da humanidade.