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Tudo indicava que nada demais iria acontecer, que ficaria sem assunto sobre os bastidores da Mostra, nessa terça-feira, no Cinesesc. Um povinho batendo papo na fila, sala cheia (só alguns lugares disponíveis, na primeira fileira), quando um senhor bonachão foi apresentado ao microfone. Ninguém mais, ninguém menos que o ator principal do filme que estávamos prestes a assistir.

Jerzy Stuhr, ator-fetiche de Kieslowski, veio à  Mostra para apresentar seu filme como diretor (O Tempo de Amanhã) e este, de seu grande parceiro, ainda inédito por aqui. Falando em italiano, contou um pouco sobre sua amizade com Kieslowski, colocando-o num pedestal sagrado.

Quando o filme acabou, o pessoal começou a sair, mas alguém na sala de projeção errou alguma coisa e o filme voltou a aparecer na tela (uma parte qualquer lá pelo meio), o povo voltou todo ouriçado: “Ainda não acabou, ainda não acabou”. Um corre-corre momentâneo, alguns já se ajeitavam nas poltronas e aquela cena repetindo-se na tela, até que alguém lá em cima se tocou e desligou a projeção.

A Paz (Spokój / The Calm, 1980 – POL) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Na década de setenta a Polônia vivia sob o autoritário regime comunista. O sindicalismo ganhava vultos pelo país. Este telefilme baseado no romance de Lech Borski e dirigido por Krzysztof Kieslowski foi mais um dos censurados pelo regime. Num primeiro olhar a história é tão simples, filmada em tom propositadamente ingênuo, de cortes curtos, narrativa crua e cenas diretas. A projeção se encerra e, uma espécie de parábola martelando sua cabeça não nos deixa em paz. Onde as metáforas ganham contorno político e algumas das bases do comunismo são duramente criticadas.

Após três anos de prisão, Antek Gralak (Jerzy Stuhr) quer uma única coisa na vida: paz. Seus objetivos máximos não passam de um emprego, uma casa sua e uma família. E com certa facilidade, Gralak, consegue realizar seus desejos arrumando colocação na construção civil e se enturmar com seus colegas de trabalho, esposa e família são questão de tempo. O gerente (Jerzy Trela) também demonstra grande apreço por Gralak, passa a utilizar sua boa-vontade em favor próprio, até que um sinistro roubo de material promove a discórdia entre os empregados e o gerente.

Gralak termina no meio do tiroteio, a tão sonhada paz lhe enveredara ao meio de um conflito de classes, e sua boa-vontade torna-se arma nas mãos dos opostos. Kieslowski constrói com paciência a figura simplória de seu personagem central, Jerzy Stuhr guarda na simplicidade a característica mais marcante, e traduz com sorrisos tolos a candura essencial de alguém altamente manipulável.

O comunismo prega a igualdade social, direitos e privilégios iguais a todos. Gralak deseja exatamente isso, ambições simples como uma esposa, bons amigos. Seu personagem como a própria representação do que o regime oferece à população. Só que ninguém se satisfaz facilmente, há nos seres humanos um instinto de desejar mais do que se tem, e assim o povo e a burguesia expõem suas armas para encontrar no regime mecanismos que lhe assegurem uma melhor posição social.

Está lançado o conflito, e a tal igualdade (paz), pregada, torna-se existente apenas nos discursos de seus líderes. Olhar de maneira simplista para o drama de Gralak é uma forma muito pobre de tratar a obra de Krzysztof Kieslowski.